capítulo 1
Capítulo 1
Helena Santos
"A Academia Imperial não forma apenas profissionais. Ela forma os líderes que mudarão o mundo."
A voz grave do narrador ecoava pela televisão da sala enquanto imagens de um campus que parecia saído de um filme desfilavam pela tela.
Prédios de arquitetura clássica.
Jardins impecáveis.
Estudantes caminhando pelos corredores usando blazers azul-marinho com um brasão dourado bordado no peito.
Uma enorme águia de asas abertas brilhava sobre o portão principal.
Helicópteros pousavam em um heliponto.
Carros de luxo desfilavam pelas alamedas.
Jovens sorriam enquanto participavam de debates, competições esportivas e bailes elegantes.
Tudo parecia perfeito.
A propaganda terminou mostrando o lema da escola.
"Legado se herda. Liderança se conquista."
Sorri sem perceber.
Toda vez que aquele comercial passava, eu parava para assistir.
Minha mãe ria da minha reação.
Mãe: — Você já decorou até a fala do narrador.
Desviei os olhos da televisão e voltei para os livros espalhados pela pequena mesa da cozinha.
— Ainda vou estudar lá.
Ela sorriu daquele jeito que só mãe consegue sorrir.
Um sorriso cheio de esperança... e medo.
— Você vai.
Meu pai entrou em casa naquele instante, ainda usando o uniforme da empresa onde trabalhava como motorista.
Estava cansado.
Mas bastou me ver cercada de apostilas para abrir um sorriso.
Pai: — Estudando de novo?
— Sempre.
Ele bagunçou meu cabelo.
— Um dia você ainda vai cansar de estudar.
Balancei a cabeça.
— Acho impossível.
Os dois riram.
Nossa casa era pequena.
Muito pequena.
A cozinha e a sala praticamente dividiam o mesmo espaço.
O sofá já tinha algumas marcas do tempo.
A pintura da parede começava a descascar perto da janela.
Mesmo assim...
Era meu lugar favorito no mundo.
Porque ali nunca faltou amor.
Meu celular vibrou sobre a mesa.
Achei que fosse alguma mensagem do grupo do cursinho.
Nem olhei.
Continuei resolvendo uma questão de Direito Constitucional.
Meu sonho sempre foi cursar Direito.
Defender pessoas.
Mudar vidas.
Talvez porque eu soubesse exatamente como era sentir que ninguém escutava quem tinha pouco dinheiro.
O celular vibrou outra vez.
Depois uma terceira.
Franzi a testa.
Peguei o aparelho.
Uma notificação.
Academia Imperial.
Meu coração simplesmente parou.
Não.
Não podia ser.
As respostas só sairiam na semana seguinte.
Minhas mãos começaram a tremer.
Cliquei no e-mail.
Demorou poucos segundos para abrir.
Pareceram horas.
Li a primeira linha.
"Prezada Helena Santos..."
Minha visão ficou embaçada.
Continuei lendo.
"É com enorme satisfação que informamos sua aprovação no Programa Imperial de Bolsas Integrais."
O restante desapareceu.
As lágrimas caíram antes mesmo que eu percebesse.
Minha mãe largou o pano de prato imediatamente.
Mãe: — Helena?
Olhei para ela.
Tentei falar.
Nenhuma palavra saiu.
Apenas entreguei o celular.
Ela começou a ler.
Levou uma das mãos à boca.
Os olhos encheram de lágrimas.
Pai: — O que aconteceu?
Minha mãe apenas virou a tela para ele.
Meu pai permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois passou a mão pelo rosto.
Respirou fundo.
Quando voltou a olhar para mim, seus olhos também estavam marejados.
Pai: — Você conseguiu...
Assenti.
Não consegui dizer nada.
Ele me abraçou tão forte que senti seus braços tremerem.
Minha mãe nos envolveu no abraço logo em seguida.
Nós três chorávamos no meio da cozinha.
Sem vergonha.
Sem esconder a emoção.
Foram anos de estudo.
Finais de semana inteiros resolvendo exercícios.
Noites em claro.
Simulados.
Renúncias.
Tudo por uma única chance.
A Academia Imperial recebia milhares de inscrições todos os anos.
Conseguir uma bolsa integral era quase impossível.
Mesmo assim...
Eu tinha conseguido.
Depois de alguns minutos, meu pai enxugou discretamente uma lágrima.
Pai: — Hoje a gente comemora.
Olhei ao redor.
Não havia champanhe.
Nem restaurante caro.
Nem festa.
Minha mãe abriu a geladeira.
Sorriu.
Mãe: — Ainda tem um pudim que fiz ontem.
Meu pai começou a rir.
Pai: — Então hoje esse pudim virou sobremesa de campeão.
Ri junto.
Talvez aquilo fosse felicidade.
A verdadeira.
Naquela noite, antes de dormir, entrei no site da Academia Imperial.
Fiquei observando as fotos do campus.
A biblioteca.
Os dormitórios.
O teatro.
Os jardins.
Os corredores.
Embaixo de uma das imagens havia uma frase.
"Bem-vindo ao lugar onde o futuro começa."
Passei os dedos sobre a tela do celular.
Sem perceber, sorri.
Mal sabia eu...
Que por trás daqueles muros existia um mundo muito diferente daquele mostrado nas propagandas.
E que a maior lição da Academia Imperial não seria aprendida dentro de uma sala de aula.