Pov. Izzy
Noite passada foi estranho, fui atacada por um lobo que não me feriu, meu irmão machucou o animal, Valentina apareceu e cuidou dele enquanto eu a enchia de perguntas sobre o animal enquanto ela respondia simples e de forma objetiva. Seu comportamento me pareceu estranho, afinal todas as vezes que nos encontramos ela vira a rainha do sarcasmo, porém ontem ela não foi assim em momento nenhum, na verdade ela parecia não está disposta a ter um diálogo comigo, digo isso porque depois que ela cuidou do animal, meu irmão a convidou para assistir o jogo de basquete que aconteceria hoje a tarde e ela aceitou o convite e eles conversaram por um longo tempo enquanto eu ficava com o animal inconsciente.
Isso me deixou... Intrigada ?
Acho que sim.
O que mais séria ?
Suspiro deixando meu almoço de lado e me levanto sobre o olhar atento de Nick que não diz nada, apenas observa meu estado apático. Vou em direção a porta de acesso a garagem e a abro devagar vendo o lobo levantar a cabeça, quando me vê ele rosna baixinho, porém não teria perigo, Valentina colocou uma focinheira nele e ele está com a pata machucada e a cabeça, me atacar seria pior pra ele. Me aproximo dele com cuidado e ele continua rosnando, quando me ajoelho ao seu lado ele se remexe, estico minha mão em sua direção e ele me encara alarmado, porém não faz nenhum movimento, quando toco o pelo de sua cabeça ele a abaixa assustado, porém eu não recuo, acaricio seu pelo e ele rosna um pouco mais alto, porém não recua, permite meu gesto de carinho. Acaricio seu pelo e ele parece se acostumar com minha aproximação, me sinto feliz com isso, fico com o lobo até que ouço Nick me chamar, então me levanto e ouço o animal choramingar, acaricio seu pelo outra vez e em seguida saio da garagem e dou de cara com Jensen, Henry, Sasha e Anne.
- Boa tarde minha filhotinho de elfo doméstico. - diz Jensen e eu sorrio.
- Boa tarde meu Dobby de camelô. - digo e ele abre os braços para mim e eu vou até ele e o abraço.
- Jen é tão sentimental. - diz Henry rindo.
- Você devia ser mais como ele senhor robótico. - diz Sasha e Anne ri.
- Era melhor ter ficado calado. - diz Nick e o moreno abre os braços e em seguida finge estar caindo.
Nego com a cabeça rindo da idiotice dele, afinal Henry sempre foi um pouco mais sério se comparado a Nick e Jensen, porém ele nunca negou nenhuma travessura, ele apenas tem um jeito mais calmo, comparado a agitação de Nick e Jensen.
- Está pronto para o jogo de hoje ? - Jensen pergunta com seus olhos verdes brilhando de animação e Nick assente empolgado.
- Claro capitão, vamos detonar o time de Portland. - responde sorrindo.
- Já acabaram ? - pergunta Henry se jogando no sofá.
- Depende, ainda falta uns beijinhos. - brinca Nick mexendo as sobrancelhas frenéticamente e Jensen ri.
- Não me ilude não. - brinca de volta e eu reviro os olhos.
Como são bobos.
Garotos !
- Vamos ? - pergunta Sasha olhando as horas.
- Claro, você ainda tem que se trocar e comandar seu exército da torcida. - diz Jensen empolgado.
- Quer aprender alguns passos ? - pergunta Anne e o moreno assente.
- Vamos nessa. - responde animado.
Ele arrasta Anne pra fora enquanto a gente ri, olho para Nick que pega as chaves do carro e sai andando para fora, Sasha e Henry olham para mim e em seguida fazem o mesmo que meu irmão. Pego meu casaco e faço o mesmo, mas antes fecho a porta, olho as horas no meu celular, vejo que ainda falta uma hora para o jogo e suspiro. Nick já me esperava no carro junto com Anne e Jensen, Sasha e Henry vai no carro do moreno, caminho calma em direção ao carro, em seguida entro e me sento ao lado de Jensen. Assim que meu irmão sai com o carro eu fico minha atenção na rua e nas pessoas até que Jensen quebra o Silêncio.
- Eu preciso arranjar alguém. - diz o moreno pensativo.
- Alguém ? - pergunta Nick sem desviar sua atenção da estrada.
- Sim, você tem a Anne, Henry a Sasha, agora a minha mestre Yoda tem a aspirante a mistura de Damon com Edward Cullen e eu não posso ficar segurando tanta vela assim. Daqui a pouco vou virar vendedor ambulante de vela de velório. - diz chateado e Nick e Anne riem enquanto eu fico calada pensando.
Eu também não tenho ninguém meu jovem Jedi.
Isso tudo é fachada e eu nem sei porque a minha vizinha está me ajudando a mentir.
- Você não precisa arranjar ninguém, você já tem o Nick e eu, somos um triângulo amoroso. - diz Anne divertida e Nick assente.
- Claro, somos seu prêmio de consolação, abraços e noites da bad são o nosso forte. - diz meu irmão e eu sorrio.
- Obrigada, mas eu não gosto de matemática e essa relação exigiria divisão e eu não sou bom em divisão, então. - diz e eu não consigo segurar a risada.
- Opa, levamos um fora. - diz Nick rindo e Anne assente.
Era melhor terem ficado calados.
Jensen é demais.
Seguimos rumo a escola com apenas os três conversando sobre o jogo, amor e o que fariam depois que terminarem a faculdade. Já eu estava focada demais olhando o nada e pensando em nada, não sei porque mais hoje eu acordei com um incômodo, só não sei o motivo, porém me sinto muito angustiada, acho que essa e a definição certa. Suspiro quando vejo Nick entrar no estacionamento da escola e seguir direto para a área dos universitários onde aconteceria o jogo aberto ao público. Respiro fundo quando meu irmão estaciona em sua vaga reservada e em seguida abro a porta e saio do carro acompanhada pelos três, noto os olhares encima de nós, mas faço o que sei fazer de melhor.
Ignorar.
Considerando os últimos acontecimentos, não sei se isso e mais o que sei fazer de melhor.
Tenho minhas dúvidas.
Me despeço do meu irmão e nossos amigos e vou para o ginásio onde aconteceria o jogo, arranjo um lugar bacana com uma boa visão da quadra e espero o tempo passar enquanto ouço uma playlist variada com as minhas canções favoritas, fecho os olhos e relaxo enquanto penso nos últimos acontecimentos e em algum momento a minha vizinha se tornou parte dos meus pensamentos e tudo que eu queria saber era o que teria afetado seu humor ontem a noite, ou o que fiz de errado.
Além de mentir e envolver ela no meio.
Nada demais né, Isabelle Ballard.
Super de boa isso.
Droga.
Suspiro cansada de tanto pensar, abro os olhos e me levanto vendo que algumas pessoas tinham chegado e que provavelmente já se passou um bom tempo. Não demora muito para as arquibancadas ficarem cheias, mas por sorte a fileira em que eu estava ainda não havia pessoas além de mim, então eu olho em voltar feito uma i****a em busca de Valentina que a propósito não achei, ela não tem cara de quem curte esportes desse tipo.
Ela tem cara de quem gosta de ver WWE.
Aaah, com toda certeza ela assiste isso.
Seus olhos azuis claros e indecifráveis parecem selvagens, quando ela olha pra alguém, sei que a pessoa deve ser sentir no mínimo intimidada, mesmo que essa não seja sua intenção, ela apenas tem olhos expressivos. Nossa, quando foi que eu reparei tanto assim na garota nova e porque ainda estou pensando nela.
Onde aperta o botão para esquecer o assunto Valentina ?
Droga de cérebro traíra.
Tiro meus fones e foco minha atenção na quadra vendo os times entrando para o aquecimento, meu irmão está lá no habitual uniforme vermelho do time, ele procura por mim na arquibancada e quando me acha, eu aceno e ele sorrir. Meu irmão volta a focar no aquecimento e eu observo ele, Jensen e Henry conversarem entre si, fico feliz por ver que Nick está no seu estado normal novamente, digo isso porque nos primeiros quinze dias após a morte dos nossos pais, ele não comia, não falava quase nada, apenas ficava em seu quarto ou no parque sozinho até tarde, ele ficou muito abalado, diria que ele sofreu por nós dois, porque enquanto eu não sentia, ele sentia em dobro, mas graças a Deus ele voltou a ser o mesmo bobalhão de antes, mesmo que falte uma peça importante no nosso dia a dia, principalmente hoje já que nossos pais eram seus fãs número um, sempre gritando seu nome durante os jogos e se alguém os derrubava, eles xingavam muito. Eles eram incríveis, não poderíamos ter tido pais melhores. Suspiro pensando em como as coisas vão ser diferente sem eles em todo lugar que formos, sempre vai está faltando uma parte de nós que nunca mais vai voltar, nunca mais vai encaixar e isso dói. Acho que pela primeira vez em um mês de luto, eu estou sentindo a dor da perda, eu sinto meu coração sendo esmagado por esse sentimento doloroso que faz meus olhos arderem. Respiro fundo e fecho os olhos tentando pensar em algo que não seja meus pais quando ouço uma voz conhecida, abro os olhos e vejo quatro idiotas.
- Olha só a maluca da rua dos anjos. - diz Colton e Travis, Meghan e Justice riem.
- Cuidado, ela pode tentar te m***r enquanto você dorme. - diz Justice e eu a encaro.
- Olha só, ela acha que a gente tem medo dela. - diz Travis se aproximando de mim e quando fica cara a cara comigo ele torna a falar. - Sabe, estão dizendo que não foi um acidente, que seus pais jogaram o carro em direção a floresta porque não aguentavam mais a filha problemática deles. - diz e eu trinco os dentes.
- Cala sua boca. - digo irritada.
- Achou mesmo que eles iam aguentar ter que conviver com a louca da cidade por muito tempo ? - questiona e eu sinto meu coração acelerar. - Você matou seus pais sem nem precisar tocar neles, não sei como seu irmão i****a não te odeia por ser uma assassina de m***a. - completa e eu o empurro o fazendo cair por cima do garoto sentado na fileira a frente.
- Olha a assassina tentando atacar novamente. - diz Meghan e eu ouço risadas altas.
Olho em direção a quadra vendo meu irmão confuso olhando o alvoroço e isso é o suficiente para mim sair correndo dali. Corro o mais rápido que posso esbarrando em algumas pessoas nos corredores e quando saio da escola sigo em direção a floresta para pegar um atalho para o lugar onde tudo isso começou e onde meus pais estão agora.
O cemitério de Sunset Warrior.
Entro na floresta sentindo aquela sensação sufocante de novo, meu coração acelerado e meus olhos arderem e isso é o suficiente para que eu me distraia e tropece. Caio com tudo no chão e sinto uma dor aguda na minha mão que me faz gritar, olho o local vendo um graveto afiado cravado nela, tento manter a calma e respirar fundo.
Merda.
Merda.
Merda.
Porque essa d***a de gaveto não podia tá cravado na garganta do Travis em vez da minha mão ?
E pedir demais ?
Inferno.
Me sento vendo o sangue sujar meu braço e minha blusa, olho em volta vendo apenas árvores e mato, penso no quanto foi i****a correr para uma floresta e em quanto vai ser doloroso tirar isso. Olho em volta em busca de um pedaço de graveto e quando o acho o coloco na boca e o mordo, em seguida seguro a ponta do graveto com a mão direita, conto até três e tento o puxar de uma vez, mas o maldito só sai metade, respiro fundo sentindo meus nervos a flor da pele e seguro a ponta novamente e o puxo demais cuspindo o graveto da minha boca e gritando de dor. Fico alguns minutos choramingando e em seguida tento me acalmar, recupero meu autocontrole em seguida tiro minha blusa de manga comprida ficando apenas com uma camiseta cobrindo meu corpo, amarro a blusa como posso para estancar o sangue e me levanto, continuo meu caminho em direção ao cemitério. Levo o dobro de tempo que levaria para chegar lá em uma situação normal e corro em direção a cabine do coveiro, porém par meu azar ele não estava lá. Entro no cemitério e vou até o túmulo dos meus pais, olho em volta em busca do coveiro mais não o acho, assim que estou em frente ao túmulo dos meus pais me permito cair de joelhos sobre ele e chorar tudo o que não chorei em um mês. Me sinto um lixo, meus pais morreram e eu agi friamente, como se eu fosse a assassina deles, e se Travis tiver razão, se eles estivessem com desgosto de mim. Eu fiz eles serem chamados de pais de assassina, eu nunca falei sobre o que aconteceu com Carter, nunca contei a verdade, deixei eles serem humilhados pela cidade por terem uma filha i****a como eu. Sinto raiva de mim mesma e começo a cavar seus túmulos com minhas próprias mãos ignorando a dor física, mental e o sangue que molhava a terra. Eu quero me enterrar, morrer aqui e agora, poupar Nick de ter uma irmã como eu viva, continuo cavando quando sinto braços em volta de mim e em seguida sou puxada para cima, dou uma cotovelada na pessoa e me jogo no chão para voltar ao que estava fazendo, porém sou puxada de novo, mas dessa vez a pessoa me segura firme pois quando tento me debater não consigo fazer muita coisa e nem usar os braços.
- Chega Isabelle, você não devia incomodar os mortos. - ouço a voz de Valentina e tento me virar, ela afrouxa o aperto permitindo que eu me vire para a olhar. - Não faça isso com si mesma, não vá por um caminho tão duro, você não merece isso. - diz e eu encosto minha cabeça na curva do seu pescoço para evitar o choro, mas não consigo e ela me abraça forte. - Tá tudo bem, deixa sair tudo, você não precisa desse sentimento amargo. - sussurra e eu a abraço de volta.
Não sei por quanto tempo fiquei assim chorando em seus braços, mas só notei que já estava mais calma quando ela me afastou de seu corpo e me olhou de cima a baixo.
- Você está ferida e ainda está em um cemitério, cavando com as próprias mãos para piorar tudo. - diz e eu sinto minha cabeça pesar e minha visão ficar turva.
- O que tem demais nisso ? - pergunto tentando focar minha visão em seu rosto e vejo seus olhos azuis ficarem escuros e em seguida meu corpo enfraquecer, mas ela me segura.
- Areia de cemitério faz m*l para qualquer ser vivo, mas para pessoas como nós tem um efeito ainda pior, Isabelle. - diz mais sua voz estava distante e tudo a minha volta estava escurecendo.
Até que não sobrou mais nada além disso.