CRY BABY
Luciana Point Of View
Estranha...
Todos me conhecem assim. Por quê? Talvez pelo fato de eu ser a garota CDF, que usa roupas largas, óculos gigantes, cabelos presos, que não tem nenhum amigo e que nunca diz uma palavra.
Bem, meu nome? Luciana Levy.
Ah, Luciana, pelo menos o seu nome não é zoado!
Não, eu tenho um nome legal, mas... Se pelo menos as pessoas o usassem de vez em quando... Sério! Estou pensando seriamente em ir ao cartório e mudar meu nome para "A Estranha", só me conhecem assim mesmo.
Idiota!
Ah, já ia me esquecendo, esse ser que se comunica comigo em itálico é meu subconsciente e meu único amigo.
Valeu!
Não que eu tenha escolha...
Vaca!
Estou brincando!
Tá, só continua logo a história!
Tudo bem... Onde eu estava? Ah sim, estava me lembrando de como eu sou odiada na escola. Um segredo aqui e agora: Eu sofro bullying. Pensando bem, isso não é um segredo, aposto que vocês já desconfiavam.
Como puderam perceber, eu sou meio distraída, me disperso rápido das coisas. Agora mesmo, era para eu estar lendo meu livro, já que o intervalo está para acabar. Suspirei alto, peguei o meu livro que já estava aberto na mesa e comecei a ler. A história era interessante, eu estava apaixonada pelo jeitinho fofo da protagonista, ela é tão tímida e inteligente, pena que o cara que ela gosta é um i*****l!
Isso me é familiar...
Pois pra mim não! Nunca ouvi nada parecido!
Faça-me rir, Luciana!
Ignorando meu subconsciente, voltei a ler o livro, estava muito interessante, a melhor parte até agora!
— Luciana — uma voz rouca ecoou em meus ouvidos, e eu com toda certeza sabia de quem era, pelo menos ele disse meu nome — Você está mais escrota do que no ano passado! — Disse ele tomando o livro de minhas mãos, abaixei a cabeça escutando sua risada — Me diga — senti ele se aproximando — Ainda tem uma paixonite por mim?
Ops, havia me esquecido de comentar que sou trouxa pelo i****a que está a minha frente.
Pedro Collins, esse é o nome dele. É o cara mais gato e popular da escola.
— Porque se você ainda gosta de mim, pode ir perdendo as esperanças — eu já as perdi — Eu nunca ficaria com você, e acho que ninguém teria coragem — cuspiu essas palavras cruelmente.
Apesar de saber que o que ele disse era verdade, isso doía, doía muito, principalmente vindo dele, que é o cara de quem eu gosto.
Levantei minha cabeça e a primeira coisa que vi foram seus olhos verdes. Eles transmitiam dureza, frieza, desprezo e... Ódio? Sim, havia ódio ali, mas por quê? Eu nunca fiz nada pra ele, eu nunca fiz nada para ninguém! Ficamos por segundos nos encarando, sem nunca desviar o olhar. Ele me olhava de uma maneira intimidante e suas palavras ecoavam em minha cabeça.
"Você está mais escrota do que no ano passado"
"Pode ir perdendo as esperanças"
"Eu nunca ficaria com você"
Meus olhos lacrimejaram automaticamente. Eles ardiam, minha cabeça doía. Eu ia chorar, ia chorar na frente de Pedro.
— Pedro, o que você está fazendo com essa estranha? — perguntou Victória ao entrar na sala.
Victória Lins ou Vick, como a chamam, é simplesmente um demônio encarnado na terra. Ela não me deixa em paz desde a primeira série. Foi ela que me apelidou de estranha. E é ela que tem Pedro, pelo menos para diversão, pois sei que Pedro nunca a namoraria, se fosse pra ser, já teria acontecido.
— Você não está com ciúmes disso, está? — senti uma pontada em meu peito.
O sinal tocou anunciando o término do intervalo e pessoas começaram a entrar na sala. Alguns viam a cena, davam de ombros e se sentavam, outros já nos rodeavam animados, comentando e rindo.
— Teria mais ciúmes de você com um homem — falou com um sorriso cínico em seus lábios e eu tenho quase certeza que vi veneno escorrendo junto de suas palavras.
Cobra!
— Eu só estava dizendo para ela parar de se iludir... — tentou explicar Pedro, mas foi interrompido por Lins.
— Até porquê, você está comigo, não é amor?! — falou ela agarrando o garoto pelo pescoço e lhe dando um selinho.
Como assim, eles estão namorando? Não, não pode ser, o Pedro não faria isso, ele não assumiria mesmo Victória!
Mas foi o que ele fez.
Agora sim eu queria chorar, não estava mais conseguindo segurar, algumas pessoas estavam fazendo comentários cruéis a meu respeito, outras ficavam em silêncio esperando por mais e a maior parte apenas ria. Eu queria tanto dizer algo! Mas não dá, eu não consigo, sempre que tento, travo, travo de uma maneira vergonhosa.
Olhei para Pedro, esperando ele negar o que disse Victória.
Ou confirmar...
— É... Nós estamos juntos — disse desanimado e... Irritado? Eu nunca o entendo. Depois dizem que as mulheres é que são complicadas!
Senti minha vista embaçar, algumas lágrimas já escorriam por meu rosto e junto com elas minha dignidade. Abaixei a cabeça para tentar esconder minha fraqueza, mas segundos depois, ouvi gritos alvoroçados, risos e alguns suspiros surpresos. Instantaneamente levantei meu rosto e... Não! Não! Não!
Não chore, Luciana. Não chore mais!
Peguei minha bolsa e meu livro que agora estava no chão, e o mais rápido possível saí da sala esbarrando nas pessoas e sendo ofendida. Eu não ligava. Só queria sair dali. Estava com medo de tropeçar e cair, não conseguia enxergar praticamente nada devido as lágrimas.
Entrei quase correndo no banheiro e me tranquei em uma das cabines. Eles se beijaram, se beijaram na minha frente, de novo. Eu sei o que estão pensando, eu sei e concordo. Eu sou uma trouxa!
Não fala assim!
Como se fosse fácil. Como se fosse fácil contradizer a todos, eu sou "A Estranha", "A CDF", "A Trouxa", "A Feia", "A Escrota"... Eu sou uma merda.
Isso não está certo...
Então me arrume outra opção, me arrume outra resposta para todos me odiarem, para ele não me querer. Você pode me arrumar uma desculpa para ainda amá-lo?
Você ainda o ama, porque...
Porque eu sou uma otária, uma burra. Sou uma burra e sabe o que é pior? Eu sei, sei que ele nunca vai me querer, sei que ele nunca me olhará daquele jeito, sei que ele é um i****a fútil, mas isso tudo não diminui o que eu sinto por ele. Faz dez anos que eu o vi pela primeira vez, foi há dez anos que minha vida virou um verdadeiro inferno. Desde a primeira série eu sou atormentada por Pedro e principalmente por Victória, desde quando ela pôs os olhos em mim não me deixa em paz. E eu ainda não sei o porquê!
Fiquei no banheiro as aulas restantes. Sim eu matei aula, mas o que tem? Só porque eu sou CDF não posso fazer isso? Que preconceito!
Matar aula é errado!
E quebrar meu coração por acaso é certo?
O que foi, está de TPM?
Talvez... Mas isso não vem ao caso.
Fui caminhando até minha casa, que não era muito longe, gosto de caminhar, é bom para pensar na vida, bem, na p***a que eu chamo de vida. Eu pareço um pouco depressiva, não é?
Só parece?
Mas não é bem assim, até que fora da escola minha vida não é tão fodida. Dedico o meu tempo com a busca do conhecimento.
Chaatoo...
Cala a boca! Como dizia, eu gosto de fazer alguns cursos, como o de espanhol online, que foi o mais recente. Ano passado eu fiz boxe.
Sim, você não leu errado, no começo foi um tanto engraçado, mas com um tempo eu fui me adequando e posso dizer que me saí bem, pois sou uma aluna muito aplicada!
Cof, cof, exibida...
Affs. Que pena que eu estou sem nada para fazer no momento. Só o que me resta é ir para a casa e ligar para alguma amiga para me passar a lição que eu perdi, não posso ficar atrasada com a matéria logo no primeiro dia!
Ficou louca? Por acaso bebeu? Ou só se esqueceu que não tem amigos?
Obrigada, subconsciente, agora eu já posso morrer!
Disponha, sempre que precisar estou aqui!
Engraçadinho, estou chorando de rir.
Cheguei em casa em pouco menos de trinta minutos, me arrastei escada acima e ao atravessar a porta do meu quarto, tirei o tênis, joguei a bolsa em um canto qualquer e meu corpo sobre a cama. Afundei a cabeça no travesseiro e senti meus olhos arderem novamente. Eu me sentia humilhada, muito humilhada. Ouvi alguns barulhos, gritos, gemidos talvez? Meu Deus, o que meu vizinho pensa que está fazendo?
Ah, sério? O que você acha que ele está fazendo? Não reconhece mesmo essa voz irritante?
Bufei de maneira pesada e me arrastei até a janela. Ah, fala sério! Já não me basta ter que aturar isso na escola? Meu vizinho tinha seu rosto no pescoço da v********a, enquanto a mesma gemia escandalosa.
Quebra o Vidro!
Hã? Não entendi, que merda é essa?
Affs, Vidro. Victória + Pedro. Vidro. Quebre o Vidro!
Senhor, me diga que esse não é meu subconsciente, quem é b***a a esse ponto?
Adivinha... Você! Eu. Sou. Você.
O ignorem. Prestem atenção na cena. Pedro. c*****o, maldita a hora que minha mãe achou que seria legal nos mudarmos pra esse bairro. Obrigado mãe, minha vida acabou!
Ele me olhou. ELE ME OLHOU. O que ele quer? Me torturar? Nesse exato momento ele está dando vários chupões em Victória e me olhando de uma forma provocante. Por um momento me perdi em seu olhar, era tão bonito, seus olhos estavam tão escuros e brilhantes...
— Oh, Pedro — escutei Vick gritar e uma raiva intensa me atingiu. Fechei a janela e a cortina na mesma hora.
Você vai chorar de novo?
E se eu for, algum problema?
Se já está assim no primeiro dia de aula, não quero nem imaginar no resto do ano!
Não enche! Voltei para a cama e me agarrei a um travesseiro. O que tem de errado comigo? Eu sou tão r**m assim? Não achava que fosse...
E não é! Você é linda!
Sério?
É lógico! Você sou eu!
Essa foi tão boa, que me esqueci de rir...
Deixei minhas intermináveis lágrimas molharem a cama. Já ouviram Cry Baby? Não? Escutem, essa música me define no momento.
Someone's turning the handle to the faucet in your eyes
(Alguém está girando a manivela da torneira nos seus olhos)
You're pouring out where everyone can see
(Você está derramando onde todos possam ver)
Your heart's too big for your body, it's why you won't fit inside
(Seu coração é grande demais para o seu corpo, é por isso que não cabe aí dentro)
You're pouring out where everyone can see
(Você está derramando onde todos possam ver)
Me sinto um bebê chorão...
Depois de tanto chorar, acabei pegando no sono. Só acordei com a minha mãe me chamando para o jantar. Pulei da cama, tomei um banho com um tempo razoável, jantei cabisbaixa com meus pais dando a desculpa de estar cansada e fui dormir na minha cama totalmente encharcada pela minha dor e sofrimento.
Impossível ser mais exagerada...