15° Capítulo: Batismo de Fogo

940 Words
​PG (Matheus) ​Tirei meu tênis e deitei ao lado dela, acariciando sua bochecha. Ela abriu os olhos devagar, com aquele olhar de quem ainda estava em outro mundo. ​— Estava exausta... — murmurou, com a voz rouca de sono. — Vamos tomar um banho? — Tenho que ir para casa, Matheus. — Dorme aqui hoje. Só essa noite. ​Ela hesitou, mas acabou cedendo. Levantou, foi ao banheiro e depois correu até o quarto da Luana para pegar um pijama emprestado. Voltou vestida e eu não conseguia tirar os olhos dela. Ela saiu para fazer um lanche e eu aproveitei para entrar no banho. ​Geovanna ​Fui à cozinha, preparei um sanduíche e voltei para o quarto. PG ainda estava no banho. Arrumei a cama, liguei a TV e coloquei Supernatural. Estava concentrada quando aquele ser gato e gostoso apareceu na frente da TV, bloqueando minha visão. ​— Sai da frente! Você está me atrapalhando — reclamei. Ele simplesmente pegou o controle e desligou tudo. — Eiii! Eu estava assistindo! — Tadinha da minha gatinha... — ele debochou, rindo. — i****a. ​Peguei meu celular, ignorei ele por uns minutos mexendo nas redes sociais e logo o cansaço venceu. Virei para o canto e apaguei. ​PG ​Terminei meu banho, vesti apenas uma box e vi que ela já estava dormindo encolhida, sem edredom. Cobri seu corpo, dei um beijo na sua testa e apaguei a luz. ​03:00 da manhã ​O barulho do rádio cortou o silêncio do quarto como uma faca. ​Rádio: Patrão, eles estão invadindo! É a Rocinha! PG: Droga! Chama todo o reforço, estou descendo agora! ​— Amor, acorda! — chamei, sacudindo-a de leve. — Ai, que fofo... me chamando de amor... — ela resmungou, ainda tonta de sono. — Escuta bem: preciso que você chame a Luana e vá para o lugar seguro agora! ​Ela despertou num pulo. Vesti uma bermuda, peguei meu fuzil no escritório e vi a Luana na sala com os olhos cheios de lágrimas. Dei um beijo na testa da minha prima e um beijo rápido na Geovanna. — Não saiam de casa até eu mandar! ​Geovanna ​— Luana, vai para o lugar seguro. Agora! — ordenei. — E você? O que vai fazer? — Eu sei me virar. Vai! ​Assim que ela correu, eu entrei no escritório do PG. Meus olhos brilharam ao ver o arsenal. Peguei duas .40 e um fuzil. Pendurei o fuzil nas costas e saí de casa determinada. O barulho dos tiros já ecoava por todo o morro. ​Me escondi atrás de um carro e comecei a descarregar nos invasores. Eu nunca tinha visto aqueles caras, mas eles iam aprender a não pisar aqui. Avancei com cautela, usando latões de lixo como cobertura. Vi quatro homens passando distraídos; mirei nas pernas e, quando caíram, finalizei com tiros precisos. ​No meio do tiroteio principal, vi PG e PK tentando acobertar o KG, que estava caído no chão, baleado. Corri até eles sob fogo cruzado. — PK, leva ele para o hospital agora! Os batimentos estão fracos! — Mas... — VAI LOGO! — gritei com uma autoridade que o fez obedecer na hora. ​Fiquei ali, dando cobertura para o PG. O combate foi intenso, mas em pouco tempo o silêncio começou a voltar ao morro. — Você ficou maluca? Quer morrer? — PG gritou comigo assim que paramos de atirar. ​Antes que eu respondesse, vi um invasor aparecendo atrás dele com uma faca. Peguei a arma da mão do PG num reflexo e acertei o cara em cheio. — Agora eu sei por que te amo — ele disse, ofegante, me puxando pela cintura para um beijo rápido no meio do sangue e da fumaça. ​PG ​Mandei a Geovanna para casa enquanto eu fazia a limpa no morro com os meninos. Tiramos os corpos, cuidamos dos estragos e reforçamos a segurança. Quando finalmente entrei no escritório para guardar as armas, ela apareceu na porta. ​— Até que enfim chegou — ela disse, sentada na minha mesa. — Onde você aprendeu a atirar daquele jeito, Geovanna? — Meu avô serviu o Exército. Ele me ensinou tudo. — Já vi que não posso chegar perto de você quando estiver com raiva ou na TPM — brinquei, parando entre as pernas dela. — Como eu fui me apaixonar tanto por você? ​— Você mesmo disse que eu sou um doce... — Acabei de lembrar de uma coisa — falei, mudando o tom. — O quê? — Você não pode mais entrar ou sair do morro. Sua entrada não será mais permitida. ​O rosto dela empalideceu. — O quê? Por quê? O que eu fiz, Matheus? — ela perguntou, nervosa. Eu não aguentei e comecei a rir da cara dela. — O que foi, seu palhaço? — ela me deu um tapa no ombro. — Tinha que ver sua cara! — segurei a coxa dela. — Você não vai entrar como visitante... vai entrar como moradora. ​Ela relaxou, mas logo fechei a cara ao olhar para a roupa dela. — Você saiu lá fora assim? Com esse pijama curto? — Não deu tempo de trocar, ciumento! Esse papel não combina com o meu favelado. — Lógico que estou com ciúmes! Saiu com uma mini roupa para matar os caras da Rocinha... ​Ela bocejou e encostou a cabeça no meu peito. O cansaço da batalha finalmente bateu. — Vamos dormir, gatinha. Amanhã a gente resolve o resto. Peguei ela no colo e fomos para o quarto, finalmente em paz.
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