Alexander Blake •
— Talvez eu devesse ligar. — murmuro, sentindo a tensão começar a subir como uma maldita maré alta. — E se ela fez algo errado? Ou pior, se eles aprontaram algo ? ... e se armaram alguma das suas malditas peças? Aneliese não é exatamente o tipo de pessoa que...
— Alexander Blake, eu juro pelos céus, se você não parar de andar feito um lunático de um lado pro outro, eu te jogo por essa janela. — A voz firme de Jade me arranca dos meus pensamentos miseráveis. Respiro fundo, tentando não mandar minha adorável irmã para o inferno.
— Você deveria estar preocupado é com a sua secretária... Se ela sobreviveu à noite e claro, ao primeiro dia. Porque seus pequenos demônios de estimação estão muito bem, obrigada por perguntar. — Jade diz, tomando um gole de vinho como se estivéssemos numa conversa trivial. — Agora, Aneliese... Bom, não ficaria surpresa se tivessem amarrado ela e feito um ritual de fogo inspirado em algum tutorial tosco do Google.
— Meus filhos, seus sobrinhos, não são esse tipo de criança, Jade. — retruco com firmeza, tentando acreditar nas minhas próprias palavras enquanto tomo um gole de whisky.ð
— Claro que não... Eles são piores. — ela diz, dando de ombros, com aquele maldito sorrisinho cÃnico no rosto. — Não se preocupe, querido irmão. Se aquela garota consegue lidar com você, lidar com três cópias mirins vai ser fichinha. E, convenhamos, pelo horário, as pragas já devem estar na escola.
O primeiro dia em Manchester havia sido um verdadeiro caos. depois de um voo insuportável de quase quinze horas, em um voo que deveria ser de dez. m*l pisemos o pé em solo britanico, e já fomos jogados em uma vastidão de reuniões interminaveis, almoços de negócios e uma lista de problemas que parecia não acabar nunca. — desvio de verbas, problemas no novo projeto... Gaspar, claro, era quem deveria lidar com essa m***a, mas quem disse que a vida é justa? Eu sempre evitava viagens longas. As crianças são um pouco " dificeis de lhe dar". E encontrar uma babá disposta a cuidar deles é praticamente como encontrar unicórnios em extinção.
Mas aà meu adorável irmão achou que seria uma ideia brilhante dirigir bêbado no sábado à noite. Resultado: um carro destruÃdo, uma perna quebrada e um i****a internado. E graças à brilhante façanha dele, cá estou eu.
— Você precisa dormir, irmão. Aliás, nós dois precisamos. — Jade diz com calma, largando sua taça na mesa de centro. — Se te conforta, pode sempre ligar pra saber se a Aneliese ainda está viva.
— JADE. — Chamo seu nome em um tom de repreensão. Ela apenas sorri, satisfeita com o próprio sarcasmo.
— Boa noite, irmãozinho. — ela diz, seguindo para o quarto como se tivesse acabado de ganhar uma guerra.
Fico ali, parado, encarando o celular sobre a mesa. Pego-o com a mesma hesitação de um adolescente prestes a enviar uma mensagem patética pra primeira paixão. Será que ela vai achar que não confio nela? Será que está tudo bem? Ou será que eles transformaram a casa numa zona de guerra? Céus, são tantos pensamentos ao mesmo tempo que sinto minha cabeça prestes a explodir.
Respiro fundo, teclo o número de Aneliese e espero. Quando ela atende, sua voz doce preenche o silêncio.
— Senhor Blake, como vai? — Sua voz profissional — e estranhamente reconfortante — atravessa a linha. — Houve algum problema?
— Senhorita Moore. — repito, deixando o silêncio pairar por um segundo. — Não... Não houve nada. Só... estou ligando pra saber como você... como as crianças estão.
— Seus filhos são uns amores, senhor Blake. — responde ela com tanta calma que quase me sinto insultado. — Tomaram café, foram para a escola conforme indicado no quadro de horários. Quando voltarem, ajudarei com as tarefas, depois...
Ela segue descrevendo, palavra por palavra, o maldito quadro de organização que eu mesmo montei, detalhando cada minuto das pequenas vidas deles. Porque é isso que eu sou: um i****a que precisa preencher o dia inteiro dos próprios filhos para não ter que encarar a dura verdade — a verdade de que não sei ser pai.
Um i****a que transforma a infância deles em uma rotina militar só pra não ter que lidar com perguntas sobre a mãe... Ou pior, com o fato de que eu não tenho respostas.
— Senhor Blake. — A voz de Aneliese soa de novo, e só então percebo o silêncio desconfortável que deixei crescer entre nós. Há algo mais suave em seu tom, como se quisesse me puxar de volta para o presente.
— Sim, senhorita Moore? — respondo num esforço ridÃculo para soar tranquilo, quando na verdade estou a um passo de arrancar os cabelos.
— O senhor deveria descansar. — ela diz, gentil, quase num sussurro. — Se bem me lembro, quando estive com o senhor em Manchester para aquela conferência no ano passado, foram mais de dez horas de voo... E, considerando a diferença de fuso, aà já deve ser madrugada... — Há um toque de preocupação escondido ali, tÃmido, como quem teme ultrapassar algum limite.
— Digo... o senhor deveria descansar. Está tudo sob controle.
— Agradeço, Ane. — digo no automático... E me amaldiçoo no segundo seguinte ao perceber o apelido escapando da minha boca. — Digo, senhorita Moore.
— Tudo bem, senhor Blake. — ela responde já no tom frio e formal de sempre, apagando qualquer vestÃgio de carinho da conversa.
Desligo a chamada, jogando o celular sobre a mesa de centro como se o aparelho fosse o culpado pelo meu descontrole. Me atiro no sofá e encaro o teto escuro, ponderando sobre as decisões questionáveis da minha vida.
Eu sou Alexander Blake, o infame irmão do meio — para quem acredita que ser o do meio é "o melhor dos mundos", deixo aqui minhas risadas amargas. Jade, a caçula de 30 anos, provavelmente tramando dominar o mundo enquanto dorme, e Gaspar, o mais velho de 38, que, como todo primogênito, acha que sabe de tudo. Eu? Tenho 36 anos e carrego o peso de tocar o império de segurança e tecnologia que meus pais construÃram como se isso pudesse, de algum modo, preencher o silêncio que ficou.
Anos atrás, me casei com a mulher que pensei ser o meu "felizes para sempre", Elizabeth Vincent. A história foi linda no papel: faculdade, namoro, noivado, casamento. Lucca nasceu dois anos depois, trazendo a dose certa de caos e alegria, seguido das gêmeas, que vieram para garantir que eu nunca mais tivesse uma noite inteira de sono.
Mas o destino, esse grande filho da mãe, decidiu que a seis anos atrás era hora de testar meus limites. Elizabeth foi diagnosticada com leucemia. Lutamos. Perdemos. Fiquei com três filhos para criar e metade de mim faltando.
E foi assim que Aneliese Moore entrou na minha vida — primeiro como secretária, depois como assistente pessoal e, ironicamente, como o lembrete constante de que algumas pessoas ainda conseguem sorrir de verdade.
Não sei em que momento parei de vê-la apenas como "a eficiente senhorita Moore" e passei a enxergar a mulher que ela é. Talvez tenha sido a força inabalável dela, ou a leveza quase cômica com que ela enfrenta o mundo. Talvez tenha sido a forma como sua voz muda, suave e firme, quando percebe que estou prestes a fazer alguma besteira monumental.
A verdade é que Aneliese me atrai. Mais do que deveria. E talvez seja exatamente por isso que eu mantenho distância.
Ela tem vinte e poucos anos, uma vida inteira pela frente. E eu... bem, eu sou um monte de cacos colados com fita adesiva. Mesmo que o sorriso dela acenda algo esquecido dentro de mim, sei que seria egoÃsmo querer mais.
Ela merece alguém inteiro. Não um homem que coleciona culpas como troféus.