🥀Capítulo 8🥀

1306 Words
● Anelise Moore ● A ligação fica muda. Respiro fundo por alguns segundos e deixo o celular sobre a cama. Passam das 19h50, e eu agradeço aos céus por mais um dia estar chegando ao fim — principalmente depois de um dia tão… como posso dizer… incomum. Primeiro foi a cola nas cadeiras da sala de jantar, armadilha que por pouco — e só por causa de Vivian — não teria me deixado grudada ali feito um papel de parede humano. Depois disso, as crianças entraram em um turbilhão de atividades que faria qualquer adulto pedir arrego. Após a escola, eles almoçam, fazem os deveres e… pronto, começa a maratona. As gêmeas tiveram balé, enquanto Lucca foi para a aula de raciocínio lógico. Logo depois, foi álgebra para as meninas e esgrima para o Lucca, seguidos de natação para os três. E mais uma lista infinita que eu honestamente já desisti de decorar. Há pouco, terminamos o jantar. Foi quando recebi a ligação do senhor Blake. Sua voz soava cansada, quase suplicando por descanso. Mas, teimoso do jeito que é, duvido que tenha ido dormir. Ele sofre com insônia, e quando há diferença de fuso horário, a coisa piora. Posso apostar que agora está estendido no sofá da sala, encarando o teto como costuma fazer. Deixe-me reorganizar essa informação: por preferência dele — e para conforto de quem viaja junto — o senhor Blake aboliu hotéis. Sempre que precisa ir para algum lugar distante, aluga uma casa ou um apartamento imenso por temporada. É mais prático, confortável e, segundo ele, “menos impessoal”. Oque de certa forma me proporcionou essa informação sobre sua insônia, já que é impossível andar por dentro de uma casa ou apartamento enorme na madrugada, para ir até a cozinha e não enxergar o homem de quase dois meses, estirado sobre os sofás ou algumas vezes sentado em alguma cadeira da cozinha. Não era um acontecimento raro de acontecer, apesar de ninguém da equipe que normalmente viaja com o senhor Blake, nunca comentar sobre. Foi ele mesmo quem comentou sobre sua insônia, em um episódio qualquer onde por acaso acabei dando de cara com ele em uma noite qualquer, em uma viagem a Bali na indonésia. Foi estranho sentar com meu chefe, em plena madrugada tomando café e conversando sobre a vida. Estranho mas revelador de certa forma, algumas pessoas conseguem enxergar o senhor Blake como um homem imponente, controlador e de temperamento complicado. Ele pode ser realmente, na maioria das vezes conseguindo me tirar do sério com seus inúmeros pedidos e exigências. Mas naquela noite eu vi um lado que poucos conhecem, o lado humano de Alexander Blake. Não o CEO que todos comentam, mas o homem por trás da máscara, e por um instante isso me fez admirá-lo ainda mais. Não apenas como meu chefe, mas como um exemplo a ser seguido. É claro, isso não o torna perfeito, ele ainda tem defeitos que me tiram do sério diariamente naquele escritório. Perfeccionista até a alma, autoritário, ranzinza, cabeça dura, dramático, irritante e por vezes completamente s*******o. Mas injusto ou desumano? Nunca. Por mais que me irrite em vários níveis, Alexander Blake é um dos homens mais corretos que já conheci. Pego minha mala, ponho-a em cima da cama e separo um conjunto para dormir. Sim, estou exausta — mesmo sem ter feito um esforço físico digno de maratonista. Só preciso colocar as crianças na cama até as 20h30 e então poderei ter meu merecido descanso. Enquanto isso, Sirius está na varanda do quarto, uivando para a lua como o verdadeiro lobo de apartamento que é. Deixo minhas roupas na cama e sigo para a porta. m*l cruzo a soleira e… plash! Um líquido frio e pegajoso despenca sobre minha cabeça, junto com o recipiente que o continha. — AAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHH! Meu grito ecoa pela mansão com força suficiente para, provavelmente, chegar até os seguranças do portão. Arremesso o recipiente para longe, passo as mãos pelos olhos tentando afastar o líquido antes de abri-los, e sinto o cheiro azedo subir. — EU VOU m***r QUEM FEZ ESSA m***a! — berro, enquanto risadas abafadas soam em algum ponto do corredor. — EU VOU m***r VOCÊS, SUAS PESTES! O cheiro enjoativo daquilo que foi despejado sobre mim sobe pelas minhas narinas como uma onda tóxica. É pegajoso, viscoso, e o fedor é tão forte que sinto o estômago revirar. A mistura gruda na minha pele e no meu cabelo, escorrendo em filetes grossos, mas meu corpo parece congelado, como se ainda estivesse tentando entender o que, diabos, acabou de acontecer. Ao longe, reconheço a voz de Vivian ecoando pelo corredor, chamando atenção das pestes que, pelo visto, ainda não se recolheram às camas. Sua bronca vem acompanhada de passos firmes, cada vez mais próximos. Então, ouço o tom mudar — um grito abafado de susto — e, logo em seguida, ela corre na minha direção. — Aneliese, meu Deus, menina, o que aconteceu?! — a voz dela mistura horror e preocupação, enquanto suas mãos, firmes e cuidadosas ao mesmo tempo, me arrastam para dentro do quarto. — Foram aquelas pestes com cara de anjo, Vivian. — resmungo, ainda tentando controlar a náusea. Ao passar diante do espelho, a imagem que me encara é quase cômica: um perfeito cosplay do Homem de Lama do Scooby-Doo. — Eu devia saber que eles estavam aprontando alguma coisa. — ela suspira, cansada, os ombros ligeiramente caídos. — Por Deus, essas crianças ainda vão m***r alguém do coração. — Isso não vai ficar assim. — minha voz sai mais calma agora, mas carregada de determinação. Continuo encarando o reflexo, como se minha imagem fosse um lembrete do desafio que acabei de receber. — Vou mostrar aos pequenos Blakes como se brinca de verdade. — Aneliese… — o tom de Vivian é grave, quase maternal. — O que vai fazer, menina? — Não vou machucar ninguém, Vivian. — asseguro, virando-me para encará-la. — Só vou provar que, para cada novo brincalhão, sempre existe alguém mais esperto. Ela balança a cabeça, contrariada. — Desde que ninguém se machuque… Mas, por favor, lembre-se: são apenas crianças. — Se não for pedir muito, pode, talvez, colocá-los para… — Eu verifico se já estão nas camas. — interrompe, firme, mas com aquele tom acolhedor que só ela tem. — Tome um banho e descanse. Você vai precisar, querida. Vivian não só se certifica de que eu tenha tudo à mão para me limpar, como também insiste que eu deixe a bagunça do corredor para ela resolver. Tento protestar, mas é como discutir com um muro de concreto envolto em carinho: inútil e até reconfortante. Ela é daquele tipo de mãe raiz que dá bronca dizendo para o filho não correr, mas é a primeira a passar pomada no ralado do joelho, só para, depois, incentivá-lo a sair correndo de novo. Uma mulher de sessenta e poucos anos, pele marcada por rugas que contam histórias, um sorriso acolhedor e olhos que carregam a sabedoria de quem já viveu mais do que poderia caber em palavras. Entro no banheiro privativo do quarto e ligo o chuveiro no mais quente possível. A água escorre, lavando aquela gosma nojenta que mais parece uma mistura de geleia com corante barato e um cheiro que poderia m***r qualquer um de enjoo. Esfrego a pele até ficar levemente avermelhada, como se pudesse apagar, junto com a sujeira, a lembrança do ataque surpresa. Depois de um banho longo e quase terapêutico, saio enrolada no roupão. Visto o conjunto confortável que havia separado mais cedo e me jogo na cama, afundando no colchão com um suspiro. Sirius, com a agitação que só ele tem, surge do nada, pulando sobre a cama como se ainda fosse um filhote, antes de se enroscar junto a mim, satisfeito com seu lugar de honra.
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