11 -- Victória Narrando
Dos onze aos dezesseis, minha vida foi uma metamorfose constante. A Nova Holanda, que antes era um labirinto de medo, virou o meu quintal. E o Vitor... ele deixou de ser apenas o "dono" que me resgatou para se tornar a base de tudo o que eu sou.
Eu mudei. A menina que não sabia o que era um iogurte agora discutia livros com a professora particular. Eu aprendi a ler, a escrever e a entender que o conhecimento era uma arma tão potente quanto a pistola que eu limpava toda semana. Mas o que mais mudou foi o que eu sentia aqui dentro. Eu parei de chamar ele de Vitor em algum lugar no meio do caminho. Sem planejamento, sem ensaio, a palavra simplesmente saiu: Pai.
A primeira vez que eu o chamei assim, ele travou. Vi o olhar dele vacilar, uma rachadura rara naquela armadura de gelo. Ele não disse nada, não me deu um abraço meloso — porque esse não era o jeito dele —, mas ele colocou a mão no meu ombro e apertou. Aquele aperto dizia: "Eu te aceito. Tu é minha."
A partir daí, minha educação virou uma doutrina de guerra e de vida.
— Se tu vai andar no morro, tem que saber sair dele rápido — ele dizia.
Com treze anos, ele me colocou em cima de uma moto. Meus pés m*l alcançavam o chão direito, mas ele me fez domar a máquina. Me ensinou a embreagem, o tempo da marcha, a como subir ladeira de terra sem deixar a moto morrer. Depois veio o carro. Ele me levava para as estradas de terra lá no fundo da comunidade, me fazia estacionar em lugar apertado, me fazia acelerar até o talo e frear em cima da hora.
— No sufoco, Victória, tu não pode pensar. O corpo tem que agir sozinho — ele repetia.
E eu agia. Eu atirava com precisão, eu pilotava como se a moto fosse uma extensão das minhas pernas, e eu falava com a segurança de quem sabia o peso do nome que carregava. Só que tinha um detalhe que eu comecei a perceber conforme o meu corpo mudava e o mundo lá fora começava a me olhar: o 20 Anos era o pai mais ciumento de todo o Rio de Janeiro.
O crime não assustava ele, mas um garoto da escola me dando um sorvete? Aquilo fazia ele espumar.
Lembro de uma vez, aos quinze anos, que eu tava na praça da comunidade tomando uma casquinha com o Gabriel, um menino da minha sala que era filho de um morador antigo. A gente tava só rindo de uma piada qualquer. De repente, o rádio do segurança que tava na minha contenção chiou. Cinco minutos depois, o carro blindado do meu pai parou do nosso lado.
O vidro desceu devagar. O olhar do 20 Anos pro garoto foi tão pesado que eu achei que o Gabriel fosse desmaiar ali mesmo.
— O sorvete tá bom, menor? — meu pai perguntou, com aquela voz de trovão.
O moleque nem respondeu, só gaguejou um "boa tarde, chefe" e saiu quase correndo. Eu fiquei possessa.
— Pai! Você assustou o menino! A gente tava só conversando!
— Conversando, é? — ele disse, abrindo a porta pra eu entrar. — Tu não tem conversa com moleque que não sabe nem limpar o rastro. Quer sorvete? Eu te dou a sorveteria. Mas não quero tu de gracinha pelos cantos. Fica esperta.
E o celular? Quando ele finalmente me deu um, aos dezesseis, veio com o "pacote completo". Ele não escondia que vigiava.
— Eu não tô olhando tuas fofocas com as amigas — ele dizia, jogando o celular na mesa se visse alguma notificação estranha. — Eu tô olhando se tem algum engraçadinho querendo crescer o olho no que é meu. Tu é a Herdeira, Victória. O que tem de cara querendo te usar pra chegar em mim não tá escrito.
Ele era protetor, era possessivo e, às vezes, sufocante. Mas eu entendia. Eu sabia que, por trás daquela vigilância toda, tinha o medo de me perder. Eu era a única coisa pura na vida dele, a única coisa que não era movida por interesse ou medo.
Eu cresci assim: entre o carinho bruto e o treinamento pesado. Aos dezesseis, eu já não era mais uma menina. Eu era uma mulher que falava a língua do asfalto e a língua do morro. Eu era culta, mas sabia o preço de um erro. Eu era amada, mas sabia que o amor no nosso mundo vinha acompanhado de um fuzil carregado.
Eu achava que ia ser sempre assim. Eu e ele. O 20 Anos e a Herdeira. Eu achava que o tempo ia ser meu aliado para eu aprender tudo o que ele tinha pra me ensinar. Mas a vida na Nova Holanda é um sopro. E o destino não avisa quando resolve cobrar a conta.
Eu tava pronta pra tudo, menos pra ficar sem o homem que me ensinou a ser eu mesma. E o relógio, sem eu saber, já tava correndo contra a gente.
Aos poucos, a Nova Holanda deixou de ser um campo de treinamento e virou, finalmente, o meu lar. Eu fiz colegas, garotas da minha idade que moravam nas vielas e que agora não me olhavam mais com estranheza. Eu ia para o baile, eu ria, eu tomava banho de mangueira no sol de quarenta graus... eu era, pela primeira vez, uma pessoa feliz. Mas a minha felicidade tinha um peso que a delas não tinha.
O meu pai não me criou para ser apenas uma sobrevivente; ele estava me moldando para ser a mente por trás do negócio.
— Estudo é bom, Victória, te dá visão. Mas a prática é o que te mantém viva — ele dizia.
Depois que eu saía da escola, eu não ia para o shopping ou para o curso de inglês. Eu ia para a boca. No começo, eu ficava só sentada num canto, observando o movimento, vendo como o dinheiro entrava, como a contabilidade era feita, como ele lidava com os fornecedores. Mas logo eu estava com a mão na massa. Eu ajudava na conferência, organizava as planilhas (que eu mesma criei para facilitar a vida dele) e ficava por dentro de cada carga que subia o morro.
O meu pai dizia na frente de todo mundo, sem medo de causar inveja: — Eu confio mais na minha menor do que em qualquer soldado meu. Homem se vende por bumbum e por dinheiro, mas o sangue da minha filha é leal até o fim.
Aquilo inflava meu peito, mas também colocava um alvo nas minhas costas. E foi nesse meio, entre fuzis e olhares de respeito, que um problema surgiu. Um problema chamado Luan.
O Luan era um dos seguranças de confiança do meu pai, um dos moleques que viviam na nossa contenção. Ele devia ter uns vinte e poucos anos e, vou te falar... o garoto parecia que tinha sido desenhado. Tinha aquela cara de "vagabundo gostoso" que as meninas do morro perdiam a linha: pele morena, um sorriso de lado que era um perigo, o corpo riscado de academia e tatuagem, e aquele jeito de quem manda em tudo quando o chefe não tá por perto.
O problema é que ele sabia que era bonito. E ele sabia que eu tava crescendo.
Sempre que o meu pai entrava para uma reunião ou ia resolver algum corre longe, o Luan dava um jeito de se aproximar. Ele não era desrespeitoso na frente de ninguém, mas quando a gente ficava sozinho no corredor da boca ou perto do carro, o clima mudava.
— E aí, Herdeira... estudou muito hoje ou vai me dar atenção? — ele dizia, encostando no batente da porta, me olhando de um jeito que fazia meu estômago dar voltas.
— Sai fora, Luan. Vai trabalhar — eu respondia, tentando manter a pose de braba que meu pai me ensinou.
— Eu tô trabalhando, ó... cuidando do que é mais valioso pro patrão — ele retrucava, dando aquela incerta, chegando perto o suficiente para eu sentir o cheiro do perfume misturado com o metal do fuzil dele. — Tu tá ficando muito bonita, ruivinha. Perigo demais pro meu coração.
Eu nunca contei pro meu pai. Nunca.
Não era porque eu gostava das cantadas — quer dizer, eu não era de ferro, e o Luan era um espetáculo —, mas era por medo. Eu conhecia o 20 Anos. Se eu falasse que um soldado dele, por mais eficiente que fosse, tava dando em cima de mim, o Luan não ia levar só um esporro. Ele ia sumir. Meu pai ia apagar ele sem pensar duas vezes.
E eu não queria sangue nas minhas mãos por causa de um flerte. Então eu jogava o jogo: eu dava fora, eu fingia que não ouvia, eu mantinha a distância. Mas o olhar do Luan me perseguia. Era uma tensão constante, um segredo silencioso que eu carregava enquanto aprendia a gerenciar o morro.
Eu tava vivendo no limite. De um lado, o amor protetor e bruto do meu pai, que me via como o futuro do seu império. Do outro, a tentação perigosa de um mundo que ele tentava me esconder, mas que pulsava toda vez que o Luan chegava perto demais.
Mal sabia eu que essa era a menor das minhas preocupações. O destino tava preparando um golpe muito mais forte, um que ia transformar o Luan, as notas de dinheiro e os meus cadernos de escola em lembranças distantes de uma vida que tava prestes a acabar.