12 -- Victoria Narrando
Sábado na Nova Holanda tem um som próprio. É o som das caixas de som sendo montadas, o teste do grave que faz a janela de casa tremer e o burburinho das meninas passando para lá e para cá, já com o cabelo feito e a unha pintada. Ia rolar o "Baile do Egito", o maior do mês, e a comunidade toda estava num frenesi que parecia eletricidade no ar.
Minhas amigas — a Juju e a Rayane — não paravam de mandar mensagem. Elas iam com tudo: shortinho curto, cropped, salto. E eu? Eu estava trancada dentro de casa, andando de um lado para o outro como um bicho enjaulado.
O problema tinha nome, vulgo e idade e era meu pai.
Ele tinha viajado para a Região dos Lagos para fechar um carregamento grande de fuzil e carga de pó. Negócio sério, coisa de milhões. E o recado dele antes de entrar no blindado foi curto e grosso: "Victória, tu não pisa no baile. Eu não tô aí, o clima tá tenso com a milícia da favela vizinha e eu não quero minha herdeira dando mole em meio de multidão. Fica em casa estudando."
— Estudar no sábado de baile, pai? É s*******m! — eu gritava no celular pela décima vez naquela tarde.
— s*******m é eu ter que descer pra te buscar em delegacia ou no IML porque tu levou um tiro perdido, Victória! — a voz dele no rádio era um trovão. — Tu só tem dezesseis anos, garota. Sossega o facho.
— Pai, pelo amor de Deus! Eu sei me cuidar! Eu sei atirar melhor que metade dos teus soldados, eu piloto moto, eu conheço cada beco desse morro! Deixa eu ir, eu juro que não fico até de manhã. Vou com as meninas, fico na área VIP e volto cedo. Por favor!
Ouvi um suspiro pesado do outro lado. Ele estava cedendo, eu sentia. O 20 Anos podia ser o dono do morro, mas ele era refém dos meus pedidos.
— Se... e eu disse SE eu deixar, tu vai armada. E vai com o Luan no teu pé o tempo todo. Vou falar com ele. Se ele me der garantia de que consegue segurar a tua onda, eu penso. Mas não fica feliz não, que eu ainda não decidi. Agora me deixa trabalhar que o bagulho tá doido aqui.
Ele desligou. Meu coração disparou. Eu sabia que a palavra final dependia do Luan. E o Luan era um perigo de outro tipo.
Saí correndo de casa, descendo os degraus de dois em dois, e fui direto para a contenção da entrada. Lá estava ele, encostado num Corolla preto, com o fuzil atravessado no peito, rindo de alguma coisa que um radinho dizia. Quando me viu, aquele sorriso de "vagabundo gostoso" se alargou.
— Que isso, Herdeira? Tá fugindo de quem com essa pressa toda? — ele perguntou, me medindo de cima a baixo.
— Luan, o meu pai vai te ligar. Ele vai perguntar do baile. — Cheguei perto dele, recuperando o fôlego. — Pelo amor de Deus, fala pra ele que você cuida de mim. Fala que tá tudo calmo, que não tem risco. Convence ele a me deixar ir!
Luan deu uma risadinha debochada, ajeitando o boné. Ele se inclinou na minha direção, diminuindo a distância até eu sentir o cheiro do fumo e do perfume caro dele.
— E por que eu faria isso? Tu sabe que se der m*rda, é o meu pescoço que vai pra guilhotina do teu pai. Cuidar de ti no baile é trabalho dobrado, ruivinha. Tu é marrenta, não obedece ninguém...
— Luan, por favor! Eu faço o que você quiser. Eu fico do teu lado o tempo todo, não saio de perto. Só não me deixa ficar em casa ouvindo o som de longe.
Ele me olhou de um jeito diferente agora. Um olhar lento, que queimava.
— O que eu quiser, é? — Ele deu um passo pra frente, me prensando de leve contra a porta do carro. — Olha só, Victória... o 20 Anos depende da minha palavra. Se eu disser que a pista tá salgada, tu não sai. E eu tô querendo muito ir pro baile curtir, não ficar de babá.
— Você não vai ser babá, você vai ser minha segurança! É diferente!
— Tá bom... eu posso falar com ele. Posso dizer que assumo a responsabilidade e que tu fica na minha vista o tempo todo. — Ele baixou a voz, chegando bem perto do meu ouvido, o que me fez arrepiar inteira. — Mas tudo tem um preço, Herdeira. Se tu me der um beijo agora, eu ligo pra ele e garanto a tua diversão. Se não... tu fica aí lendo teus livros enquanto eu vou pra pista.
Eu travei. O coração parecia uma bateria de escola de samba. Eu olhei pros lados, desesperada. Os outros soldados tavam longe, distraídos.
— Luan, você tá louco? Se o meu pai sonha com isso, ele te mata!
— Ele não vai sonhar se tu não contar. — Ele deu aquele sorriso de canto, confiante demais. — E aí? O beijo ou o quarto escuro? Decide rápido que o rádio vai tocar a qualquer momento.
Eu olhei para aquele rosto abusado, pros lábios dele que pareciam um convite pro desastre. Eu queria muito ir no baile. Mas acima de tudo, tinha aquela faísca que ele acendia em mim desde os meus treze anos. Era errado, era perigoso, era pedir pra morrer... mas o perigo sempre foi o meu oxigênio na Nova Holanda.
Eu puxei a gola da camisa dele, trazendo ele pra mais perto.
— Se você abrir a boca pra alguém, eu mesma te dou um tiro, Luan. — ameacei, mas minha voz saiu falha.
— Eu adoro quando tu faz a braba, ruivinha — ele sussurrou.
E antes que eu pudesse pensar nas consequências, ou na cara do meu pai se descobrisse, eu fechei os olhos e deixei o Luan cobrar o preço. Foi rápido, mas foi o suficiente para eu entender que, a partir daquela noite, nada mais seria igual na minha vida. Eu estava brincando com fogo dentro da minha própria casa, e o baile do Egito estava só começando.