13

1868 Words
13 — 20 Anos Narrando Eu tava aqui em Cabo Frio, de frente pro mar, mas minha cabeça não saía da Nova Holanda. O negócio aqui na Região dos Lagos era pesado — descarga de fuzil vindo por mar, logística que exige silêncio e olho vivo —, mas o que me tirava o sono não era a polícia nem os atravessadores. Era uma ruivinha de dezesseis anos que eu deixei pra trás. Fiquei me martirizando o caminho todo. Eu devia ter levado a Victória. Ela já tá treinada, p***a. Ela é "turbo", como os moleques dizem. Sabe entrar e sair de uma situação de risco melhor que muito marmanjo que ostenta fuzil no morro. Ela respira o crime desde novinha, entende de calibre, de estratégia, de como se portar. Ela não é uma adolescente normal, nunca foi. A rua e eu tiramos a normalidade dela há muito tempo. Mas o medo... o medo é uma desgraça. Eu posso encarar uma tropa do choque de peito aberto, mas quando o assunto é ela, eu viro um covarde. Eu tenho medo de não estar perto quando o bicho pegar. Tenho medo dela ser o alvo só porque é o meu ponto fraco. Eu tava no hotel, com o tablet na mão. Eu não sou bobo. Minha casa é monitorada por câmeras que só eu e o meu TI de confiança temos acesso. De vez em quando, eu abro só pra ver se ela tá estudando, se tá bem, se a Cida tá cuidando das coisas. Abri o aplicativo. O sinal demorou a carregar por causa da maresia. Quando a imagem estabilizou, vi a entrada da minha fortaleza. Vi a Victória descendo as escadas. Ela tava inquieta. Vi ela chegando perto do Corolla preto. Vi o Luan. O Luan é um bom soldado. Eficiente, frio, desenrolado. Mas eu conheço o tipo. É o tipo de moleque que se acha o dono do mundo porque tem um porte bonito e um fuzil na mão. Eu sempre vi ele olhando pra Victória com um brilho que eu não gostava, mas achava que ele era inteligente o suficiente pra não cruzar a linha. Eu vi quando eles se aproximaram. Vi a Victória falando, gesticulando — provavelmente implorando pra ir pro baile. E vi o Luan se crescendo. Ele prensou ela contra o carro. Meu sangue começou a borbulhar. Eu tava a quilômetros de distância, mas minha vontade era de atravessar a tela e estourar a cara dele. Aí aconteceu. Ela puxou a gola dele. E eles se beijaram. Eu senti como se tivessem descarregado um pente de .40 no meu peito. Fiquei parado, olhando pra tela, sem respirar. A Victória... a minha pequena, a menina que eu vi suja de barro comendo um hambúrguer como se fosse a última coisa do mundo... escondendo isso de mim. A traição dói, mas o que dói mais é o medo. Por que ela não me contou? Será que ela acha que eu sou o monstro que ela via no internato? Ou será que ela sabe exatamente o que eu faria com o Luan? Eu conheço o Luan. Ele é um vagabundo. Ele é o tipo de cara que vai usar o fato de ter a "filha do chefe" na mão pra se sentir poderoso. Ele não tem carinho por ela. Ele tem ganância. E a Victória... ela tem dezesseis anos. Por mais que ela saiba atirar e pilotar, o coração dela ainda é de uma menina que quer viver o que nunca teve. Fechei o tablet com força, o barulho ecoando no quarto vazio. O ódio tava me cegando, mas a decepção tava me matando. Ela é minha herdeira. Ela deveria saber que no nosso mundo, um beijo nunca é só um beijo. É uma fraqueza. É uma ponta solta. Liguei pro rádio do Luan na mesma hora. Esperei ele atender. A voz dele veio com aquele tom de quem tá ganhando o mundo. — Fala, chefe! Tudo tranquilo por aqui. — Luan — eu disse, e minha voz tava tão calma que até eu tive medo. — A Victória me ligou querendo ir pro baile. Eu disse que ia pensar. Tu acha que a pista tá tranquila pra ela circular? Houve um silêncio do outro lado. Eu sabia que ele tava sorrindo. — Tá sim, 20 Anos. Eu fico na contenção dela. Pode deixar que eu não tiro o olho da ruivinha um segundo. Garanto a segurança dela com a minha vida. "Com a tua vida, é?", eu pensei, sentindo o gosto amargo na boca. — Tá certo. Ela vai armada. E se acontecer um arranhão que seja nela, Luan... se alguém encostar onde não deve... tu sabe o que acontece, não sabe? — Sei sim, patrão. Pode confiar. Desliguei. Joguei o rádio na cama. Eu não podia descer agora, os caras do carregamento tavam chegando. Mas a minha cabeça tava em chamas. Ela me enganou. O Luan me traiu. E o pior de tudo: eu ia ter que deixar ela ir pro baile sabendo que ela tava indo pros braços de um cara que eu ia ter que matar mais cedo ou mais tarde. O amor de pai é uma desgraça no crime. Ele te faz fraco onde tu deveria ser pedra. Mas o Luan ia aprender que mexer com a herdeira do 20 Anos tem um preço que nem a alma dele paga. E a Victória... a gente ia ter uma conversa muito séria quando eu voltasse. Ou eu criava ela pra ser a dona da p***a toda, ou eu perdia ela pro primeiro vagabundo com cara de galã que aparecesse. E perder a Victória não era uma opção. Preparei meu fuzil pra reunião da noite. Mas meus olhos não tavam no mar. Tavam na imagem daquela câmera, se repetindo na minha mente como um pesadelo. As horas se arrastavam aqui em Cabo Frio. O carregamento estava atrasado e o meu humor estava no rodapé. Eu não conseguia tirar aquela imagem da câmera da cabeça. A traição do Luan e a mentira da Victória tavam me corroendo. Mas eu precisava manter a postura; se eu descesse o morro agora, no meio do nada, ia parecer fraqueza pros meus sócios. No crime, tu não pode demonstrar que teu coração tá na mão de uma garota de dezesseis anos. Perto das onze da noite, o som do baile lá na Nova Holanda já devia estar estourando. Eu peguei o celular e liguei por vídeo. Eu queria ver a cara dela. Queria ver se ela ia conseguir sustentar a mentira olhando no meu olho. Ela atendeu no terceiro toque. — Oi, pai! — O rosto dela iluminou a tela. Meu peito deu um solavanco. Ela tava linda... e isso me apavorava. O cabelo ruivo tava solto, brilhando pra caramba, e ela tava toda arrumada. Tinha passado uma maquiagem que destacava aqueles olhos verdes, um cropped preto e um shortinho que, se eu tivesse lá, ela não saía nem no portão. Ela tava com um sorrisão de orelha a orelha, uma felicidade que me doeu, porque eu sabia que parte daquilo era por causa do beijo daquele vagabundo. — Já vai pro baile, Victória? — perguntei, tentando manter a voz firme, sem deixar transparecer que eu sabia de tudo. — Vou agora! As meninas estão passando aqui na porta. O senhor deixou, né? Então eu vou aproveitar! — Ela deu uma giradinha, me mostrando a roupa. — Calma aí, herdeira. Tu não vai pra desfile de moda, tu vai pra pista. Me mostra a peça. Ela sorriu, sabendo que eu ia cobrar. Ela esticou o braço, pegou a pistola em cima da penteadeira e segurou com a firmeza que eu ensinei. — Tá aqui, pai. Limpa e alimentada. — Me mostra ela. Destrava aí pra eu ver se tu ainda lembra o tempo da mola. Ela me olhou com aquele jeito debochado de quem sabe o que tá fazendo. — Pai, pelo amor de Deus... o senhor me ensinou isso quando eu era um cotoco de gente. Eu sei isso aqui de cor e salteado. De olho fechado, quer ver? Eu fiquei olhando, hipnotizado. Ela fechou os olhos, a expressão ficando séria, concentrada. As mãos dela se moveram com uma memória muscular impressionante. Ela tirou o carregador, conferiu, encaixou de volta, puxou o ferrolho, travou e destravou. Tudo num movimento fluido, sem errar um milímetro, com os olhos bem fechados. — Tá na agulha, pai. Pronto pra qualquer imprevisto — ela disse, abrindo os olhos e dando um piscar de lado. — É... tu aprendeu bem. — Senti um orgulho amargo. Eu criei uma máquina, mas essa máquina agora tava começando a ter vontades próprias que eu não controlava. — Bota na cintura. Atrás, pra não dar volume. Ela encaixou a arma no cós do short, na parte de trás, e ajeitou a blusa por cima. Ficou perfeito. Quem olhasse de longe via uma menina bonita indo se divertir; quem chegasse perto demais ia sentir o aço. De repente, começou a tocar um funk proibidão lá no fundo, o grave batendo forte na casa. A Victória começou a dançar na frente da câmera, rindo, fazendo um passinho, com a mão na cintura onde tava o cano. — Ó, pai! Vou ser a rainha do Egito hoje! — ela brincou, descendo até embaixo e subindo com aquela energia que só a juventude tem. Eu fiquei ali, olhando pro celular, com um misto de "meu Deus do céu" e um aperto no coração. Por um lado, eu tava vendo a mulher poderosa que eu construí; por outro, eu tava vendo a minha garotinha se jogando num mar de tubarões, sendo escoltada por um traidor. — Victória, escuta bem — interrompi a dança dela, ficando sério. — O Luan vai estar contigo. Não sai de perto dele. Se alguém estranho encostar, se o clima mudar, tu me liga na mesma hora. E não bebe nada que não seja tu que abriu. Tá me ouvindo? — Eu sei, pai. Eu sei de tudo. Relaxa, eu sou sua filha, esqueceu? Ninguém mexe comigo. — Eu não esqueço nunca, menor. Vai lá. Se diverte... mas fica com o radar ligado. — Te amo, pai! Beijo! Ela desligou. A tela ficou preta e eu fiquei encarando meu reflexo no vidro do celular. "Eu sou sua filha, esqueceu?" Não, eu não esqueci. Mas ela esqueceu que eu sou o dono do morro. Ela acha que o beijo no Luan foi um segredo, mas ela não sabe que cada passo dela tá gravado na minha mente. Liguei pro meu segundo em comando, o Caveira. — Caveira? Fica de olho no Luan e na menor no baile. De longe. Se o Luan tentar levar ela pra algum lugar reservado ou se ele se esquecer que é segurança e achar que é namorado, tu me avisa na hora. Eu quero relatório de cinco em cinco minutos. — Entendido, chefe. Pode deixar. Desliguei. Agora era esperar. O Baile do Egito ia ser histórico, mas talvez não pelo motivo que a Victória esperava. O fogo dela era bonito, mas o meu era o que mantinha o morro em pé. E eu não ia deixar ninguém apagar a minha luz.
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