14

1151 Words
Cap 14 — Victória Narrando Eu olhei no espelho uma última vez. Aquele shortinho que eu mostrei pro meu pai por vídeo? Era só pra não ouvir sermão. Assim que desliguei, joguei ele na cama e peguei a minha peça-chave: uma saia preta justa, daquelas que valorizam cada curva que o corpo de dezesseis anos estava ganhando, mas que tinha o caimento perfeito para esconder o que precisava. Soltei o cabelo ruivo, que agora batia na cintura, uma cascata de fogo que eu fiz questão de deixar bem volumosa. Passei meu perfume importado — aquele que o rastro fica no ambiente por meia hora — e ajeitei a pistola na lateral da cintura, bem firme contra a pele. Olhei pro meu reflexo e dei um sorriso de lado. Eu não era uma menina indo pro baile; eu era a dona da p***a toda. Quando abri a porta de casa e pisei na varanda, o som do grave lá embaixo parecia que ia deslocar meu coração. O Luan estava encostado na pilastra, já com o fuzil a postos e um rádio no ombro. Quando ele me viu, os olhos dele quase saltaram. Ele me mediu de cima a baixo, demorando na parte onde as pernas ficavam de fora. — Caramba, Victória... — ele soltou o ar, impressionado. — Tu quer me matar do coração ou quer que o morro inteiro entre em guerra por tua causa? — Menos, Luan. Bem menos — falei, passando por ele e sentindo o cheiro do meu próprio perfume dominar o espaço. — Ó, o papo é sério — ele disse, entrando no passo atrás de mim enquanto eu descia a escadaria. — Teu pai me ligou agora. O homem tá com o cão no couro, Victória. Ele deixou o recado bem dado: não é pra tu sair de perto de mim nem um milímetro. Se tu sumir da minha vista, ele me apaga antes de eu explicar o que houve. Eu parei no meio do degrau e virei pra ele, com a mão na cintura, bem em cima da coronha da arma. — Ai, Luan, se enxerga! — dei um fora, revirando os olhos. — Meu pai fala demais. Eu sei me cuidar. Se você ficar no meu pé igual um chiclete, eu mesma te dou um perdido. Eu voltei a andar na frente, rebolando um pouco só pra provocar, sentindo o olhar dele queimando nas minhas costas. Eu sabia o efeito que eu causava, e na Nova Holanda, beleza misturada com perigo era uma droga viciante. — Tu tá impossível hoje, hein? — ele riu, acelerando o passo pra ficar do meu lado. — Toda linda, cheirosa... e armada. Combinação perigosa. Eu parei na entrada da rua principal, onde o movimento já estava insano. Olhei pra ele com um brilho de deboche nos olhos verdes. — Meu melhor acessório é esse aqui, Luan — falei, batendo de leve na pistola na cintura. — Tá aqui pra eu dar um tiro na cara de qualquer babaca que tentar mexer comigo ou achar que eu sou carne fresca. Inclusive você, se passar da conta. Luan soltou uma gargalhada alta, batendo a mão no peito, admirado. — Não tem jeito... é cria do 20 Anos mesmo! — ele disse, balançando a cabeça. — Sangue frio e língua afiada. Bora, Herdeira. O Egito tá te esperando, mas lembra: eu tô de olho. Eu não respondi, só segui em direção às luzes e ao paredão de som. O baile estava começando, e eu sentia que aquela noite ia ser o divisor de águas na minha vida. Eu tinha a beleza, tinha a arma e tinha o nome do meu pai... o que poderia dar errado? A entrada principal do Baile do Egito estava um formigueiro. O cheiro de lança, o vapor do asfalto quente e o grave do DJ batendo tão forte que eu sentia os fios do meu cabelo ruivo vibrarem. Assim que eu apontei na barreira, acompanhada pela Juju e pela Rayane, o mar de gente se abriu. Não era só porque eu era bonita; era o respeito. No morro, todo mundo sabe quem é a herdeira do 20 Anos. O Luan vinha logo atrás, com o fuzil alto e aquela cara de quem ia morder quem olhasse torto. As meninas estavam eufóricas, gravando Stories, rebolando enquanto andavam, mas eu mantinha a postura. Queixo alto, olhar firme. — Olha o camarote como está, Victória! — Juju gritou no meu ouvido por causa do som. — Hoje a gente não desce pra pista nem por decreto! Subimos os degraus de metal do VIP. Lá de cima, a vista era outra. Dava para ver o mar de cabeças, as luzes de neon refletindo no suor da multidão e os fogos que estouravam de cinco em cinco minutos. O lugar estava lotado de "frentes" de outras comunidades, caras com correntes de ouro grossas e mulheres montadas no luxo do crime. Assim que pisei na área reservada, o garçom já veio com um combo de whisky caro e energético. Eu nem precisei pedir. — Cortesia da casa pra filha do patrão — ele disse, colocando os baldes de gelo na nossa mesa. — Valeu — respondi, sentando no estofado de couro e cruzando as pernas. A saia preta subiu um pouco mais, e eu senti a frieza do metal da pistola contra a minha pele da coxa. Era um lembrete constante de que, no meio daquela festa toda, eu nunca podia baixar a guarda. O Luan se posicionou estrategicamente atrás de mim, encostado na grade, de onde ele conseguia ver quem subia a escada e quem passava na pista lá embaixo. Ele não pegou bebida. Ele estava em serviço, mas o olhar dele... o olhar dele não saía de mim. — Bebe devagar, Victória — ele disse, se inclinando sobre o meu ombro, a voz quase sumindo no meio do batidão do funk. — Teu pai me mata se tu ficar alterada. — Relaxa, Luan. Eu sei o meu limite — falei, virando um copo de uma vez só, sentindo a garganta queimar. — Hoje eu só quero esquecer que eu tenho que ser a "menina perfeita" por algumas horas. A música mudou para um proibidão que era o favorito da Nova Holanda. A Rayane me puxou pela mão. — Bora, ruiva! Para de ser marrenta e dança com a gente! Eu levantei. A cada movimento que eu fazia, eu sentia os olhares do camarote inteiro em mim. Eu era o prêmio, a herdeira, o troféu. Mas enquanto eu descia até o chão, com a mão apoiada na cintura perto da arma, eu só conseguia pensar em uma coisa: se o meu pai visse o jeito que o Luan estava me secando agora, o baile ia acabar em tragédia antes da primeira hora. O problema é que o perigo me deixava ainda mais acesa. E a noite estava só começando a esquentar.
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