09 — 20 Anos Narrando
Eu saí do escritório. Não caminhei, eu deslizei. Quando cheguei no topo da escada, eu não era mais o Vitor que comia pipoca vendo filme. Eu era o 20 Anos, o homem que não perdoava erro, o homem que comandava o inferno.
— Já vai cedo, Bianca? — Minha voz saiu num tom tão baixo e tão frio que parecia vir debaixo da terra.
Ela deu um pulo que quase a fez cair. Virou para trás, com a mão no peito, o rosto pálido instantaneamente. Ela tentou montar a máscara de novo, mas os olhos dela me entregaram: ela estava vendo a morte de perto.
— Vi-Vitor! Que susto, meu amor... Eu não vi você chegar. Eu... eu só estava dando uma lição na menina, ela estava sendo desobediente e...
Eu desci os degraus devagar, um por um. Cada passo meu era uma sentença.
— Uma lição? — Perguntei, parando no último degrau, ficando cara a cara com ela. Eu sou muito mais alto, e fiz questão de usar cada centímetro para sufocar o espaço dela. — Eu ouvi a lição, Bianca. Ouvi cada palavra. Ouvi o estalo da tua mão no rosto dela. Ouvi tu ameaçar de morte a única coisa que importa pra mim nessa casa.
A cor fugiu totalmente do rosto dela. Ela começou a tremer.
— Amor, não é isso... ela te manipula, ela é uma cobra, ela quer o meu lugar...
Eu não deixei ela terminar. Minha mão disparou como uma mola e fechou no pescoço dela, não para sufocar até matar, mas o suficiente para ela entender que o ar dela agora pertencia a mim. Eu a empurrei contra a porta de entrada, o impacto fazendo o vidro vibrar.
— Teu lugar? — Sibilei, o rosto a centímetros do dela. — Tu não tem lugar aqui, Bianca. Tu era uma diversão. Um passatempo. A Victória? A Victória é meu sangue sem ser parente. Ela é o meu futuro. Tu encostou a mão no que é sagrado pra mim.
— Vitor... por favor... — ela tentou falar, as lágrimas de medo borrando a maquiagem cara que eu tinha pago.
— Tu disse que ela ia voltar pro bueiro? — Eu dei um sorriso sem nenhum humor, o tipo de sorriso que faz os soldados rezarem. — Quem vai sair daqui agora é tu. E tu não vai levar nada. Nem a bolsa, nem o celular, nem as joias que tá no teu corpo. Tu vai sair com a roupa do corpo e a marca da tua covardia.
Eu a soltei com um solavanco. Ela caiu de joelhos, tossindo.
— Se tu aparecer na minha frente de novo, se tu pisar em qualquer território da Nova Holanda, ou se eu souber que tu abriu a boca pra falar o nome da Victória na rua... eu não vou te mandar embora. Eu vou te enterrar onde ninguém nunca vai te achar. Tá me ouvindo?
— Tô... tô... — ela soluçou, desesperada.
— Sai. Agora! — O meu grito fez a casa tremer.
Ela nem olhou para trás. Abriu a porta e saiu correndo, descalça, tropeçando, sumindo na escuridão do morro. Eu fiquei ali, respirando fundo, tentando controlar a fera que queria descer e acabar o serviço.
Mas eu tinha algo mais importante para fazer.
Virei e subi as escadas de novo. Meus passos agora eram pesados, reais. Parei na frente da porta do quarto da Victória. Estava trancada por fora. Eu girei a chave e abri devagar.
O quarto estava um caos. Os cadernos que ela tanto suava para preencher com as letras que estava aprendendo estavam rasgados no chão. A luminária estava caída. E ela... ela estava encolhida no canto da cama, abraçada aos próprios joelhos, com o rosto escondido.
— Victória. — Chamei baixo.
Ela deu um sobressalto. Quando levantou o rosto, meu coração se despedaçou. O canto da boca estava cortado e tinha a marca vermelha dos dedos daquela infeliz na bochecha clara dela.
— Vitor... — ela sussurrou, a voz sumindo. — Eu não ia falar nada... eu juro. Por favor, não me manda embora. Eu limpo tudo, eu não como hoje, eu...
Eu atravessei o quarto em dois passos e a puxei para um abraço. No começo, ela ficou rígida, esperando o golpe, mas depois ela desmoronou. Ela agarrou minha camisa com as mãos pequenas e chorou. Foi um choro que parecia estar guardado há meses, um choro de quem achou que tinha perdido o único porto seguro que já teve.
— Shhh... calma. — Eu disse, passando a mão pelo cabelo ruivo dela, que estava todo bagunçado. — Ela já foi. Ela nunca mais vai entrar aqui. Nunca mais ninguém vai levantar a mão pra ti, entendeu? Eu tô aqui. Eu vi tudo. Eu ouvi tudo.
— Ela disse que eu era lixo... — ela soluçou contra o meu peito.
— Ela é o lixo, Victória. Tu é a dona dessa p***a toda. Tu é a minha herdeira. Tu acha que eu ia acreditar nela?
Eu a afastei um pouco, segurando o rosto dela com as duas mãos, limpando as lágrimas com o polegar, tomando cuidado com o corte no lábio.
— Olha pra mim. — Esperei ela focar aqueles olhos verdes em mim. — Eu te tirei da rua porque vi em ti algo que não tem em ninguém. Tu é forte. Tu é braba. E hoje tu aprendeu uma lição, mas não a que ela quis te dar. Tu aprendeu que, no nosso mundo, a inveja mora do lado. Mas também aprendeu que ninguém mexe com o que é do 20 Anos.
Fui até o banheiro, peguei uma toalha com água gelada e voltei, começando a limpar o rosto dela. Eu, que já tinha limpado sangue de ferimento de bala em soldado meu, estava ali, com a mão tremendo de leve para não machucar aquela menina.
— Amanhã eu vou te comprar cadernos novos. Os melhores que tiver. E tu vai estudar o dobro, só de raiva. — Eu disse, tentando aliviar o clima.
Ela deu um sorrisinho triste, limpando o nariz na manga da blusa.
— Ela rasgou a parte que eu tinha aprendido a escrever seu nome sem olhar no papel... — ela disse, baixinho.
Aquelas palavras foram pior que um tiro de fuzil no meu peito. Eu puxei ela pra perto de novo e dei um beijo no topo da cabeça dela.
— Não tem problema. Tu escreve de novo. Tu tem todo o tempo do mundo agora. E ninguém, Victória... escuta bem o que eu tô te falando... ninguém nunca mais vai te calar.
Naquela noite, eu não dormi. Fiquei sentado na poltrona do quarto dela, observando ela pegar no sono de exaustão. Eu olhava para as mãos dela e pensava no Peppa, nos rivais, no mundo que estava lá fora esperando por ela. Eu sabia que a Bianca era só o primeiro teste. O mundo ia tentar tirar tudo dela o tempo todo.
Mas enquanto eu estivesse respirando, a Nova Holanda seria o reino dela. E eu seria o monstro que guardaria o portão.
— Dorme em paz, Herdeira — sussurrei no escuro. — Teu nome ainda vai ser o mais respeitado desse Rio de Janeiro. Eu vou garantir isso.