08 — 20 Anos Narrando
A vida da Victória virou do avesso. Eu não queria que ela fosse só mais uma "brasinha" do morro que sabia segurar um ferro, mas não sabia assinar o nome. Se ela era minha herdeira, ela tinha que ser melhor que eu. Tinha que ter o que eu não tive.
Matriculei a menor numa escola particular lá embaixo. O povo olhou torto, os diretores tremeram na base quando viram quem ia pagar o boleto, mas ninguém deu um pio. Só que a realidade era dura: a garota tinha quase treze anos e o conhecimento de uma de seis. Ela não sabia ler, Vitor. Ela olhava pras letras e via desenho.
— É difícil, 20 Anos... as letras fogem de mim — ela dizia, com os olhos cheios d'água, debruçada sobre os cadernos.
Eu não deixei ela desistir. Contratei uma professora particular, uma coroa de confiança, pra vir em casa à tarde. Era das 7h às 11h na escola, e depois mais o reforço. Eu via o esforço dela, a testa franzida, o bico que ela fazia quando não conseguia pronunciar uma palavra. E, aos poucos, o milagre aconteceu. Onde antes tinha um borrão, começou a ter sentido.
E o corpo acompanhou. A Victória já não era mais aquele espeto de virar frango. A comida boa da Cida, o Danone, o bife acebolado... tudo isso deu sustância pra menina. Ela tava ganhando corpo, as bochechas tavam coradas, o cabelo ruivo agora batia no meio das costas, sempre bem cuidado.
Quem diria, né? O dono do complexo inteiro, o cara que os rivais tremiam só de ouvir o vulgo, sentado no sofá num domingo de chuva, dividindo um balde de pipoca com uma garota ruiva e discutindo qual filme da Disney a gente ia ver. Se os meus soldados vissem aquela cena, iam achar que eu tinha sido sequestrado e substituído por um dublê. Mas ali, com a cabeça dela encostada no meu ombro, eu me sentia mais homem do que em qualquer guerra. Era uma paz que o crime não te dá.
Mas paz no morro dura pouco. E o problema veio de onde eu menos esperava: da mulher que eu tava pegando na época.
A Bianca. Uma morena de parar o trânsito, corpo esculpido em academia de luxo, mas com uma alma que, eu comecei a perceber, era pequena demais pra Nova Holanda. Ela era minha "fiel" de fachada, ficava na casa de baixo, mas vivia rondando a minha fortaleza. E ela não gostou nem um pouco da "intrusa".
Eu não sabia de nada no começo. Pra mim, tava tudo certo. Mas a Bianca começou a aparecer mais vezes, a marcar território. Ela olhava pra Victória como se a menina fosse um bicho de estimação sarnento.
— Pra que tanto luxo com essa menina, Vitor? — a Bianca soltava, enquanto a Victória estudava no canto. — É só uma garota de rua. Tu tá jogando dinheiro fora com essa escola. Ela nunca vai ser ninguém.
— Cala a boca, Bianca — eu respondia seco, sem tirar o olho do meu jornal. — O que eu faço com o meu dinheiro e na minha casa, tu não palpita.
Eu achei que o aviso tinha sido dado. Mas mulher quando quer ser r**m, é silenciosa.
A Victória, que sempre foi de falar tudo comigo, começou a murchar de novo. Ela não sentava mais no sofá se a Bianca tivesse lá. Ela passava pela sala de cabeça baixa, se encolhendo, como se tivesse voltado a ter medo de sujar o chão. Eu achava que era fase, coisa de adolescente, de "virar mocinha".
O que eu não sabia era que, toda vez que eu virava as costas ou descia pro plantão, o veneno escorria.
— Tu acha que ele te ama? — a Bianca dizia pra ela na cozinha, quando a Cida não tava perto. — Tu é só um projeto de caridade dele. Logo, logo ele enjoa e te joga de volta pro bueiro de onde tu saiu. Olha pra tu, toda estranha, esse cabelo de fogo... Tu não combina com esse lugar.
A Victória não revidava. Ainda não. Ela guardava. E eu, cego pela correria do tráfico, demorei a perceber que o brilho que eu levei anos pra colocar nos olhos da minha pequena tava sendo apagado pela inveja de uma mulher que não valia o chão que a Victória pisava.
Eu ia descobrir da pior forma. Porque se tem uma coisa que ninguém faz, é mexer com o que é meu. E a Victória? Ela era mais minha do que qualquer carga, qualquer fuzil ou qualquer território. A Bianca tava brincando com o fogo... e o fogo da Victória não demora a queimar.
O silêncio da noite na Nova Holanda é mentiroso. Por trás da calmaria aparente, tem sempre um fuzil destravado, um rádio chiando ou uma traição sendo cozinhada. Mas naquela noite, o veneno não vinha de uma facção rival ou de um cana infiltrado. O veneno estava comendo por dentro a minha própria casa.
Eu tinha acabado de subir o morro depois de uma reunião pesada no Vidigal. Estava com a cabeça latejando, querendo apenas um banho e o silêncio da minha sala. Deixei os seguranças na contenção do portão de baixo e subi as escadas da entrada principal sem fazer barulho. Eu estava de tênis de mola, pisando leve, um hábito de quem passou a vida fugindo e caçando.
Quando botei o pé no primeiro degrau do segundo andar, eu parei.
O som não era de TV ligada. Era uma voz estridente, carregada de um ódio que eu não reconheci de imediato. Era a Bianca. Mas não era a Bianca que sorria pra mim e pedia joias. Era uma voz feia, ríspida, cuspindo palavras que pareciam facas.
— Você se acha muito esperta, não é, sua ratinha ruiva? — O grito dela ecoou pelo corredor. — Acha que porque ele te deu um teto e uns vestidos caros, você virou gente? Você continua sendo o resto que ele buscou no lixo!
Eu travei. O sangue subiu para a minha cabeça de uma vez só, mas eu não me movi. Anos de guerra me ensinaram que, para pegar o bote, você precisa ouvir o plano inteiro. Encostei na parede, na sombra perto da porta do meu escritório, e fiquei imóvel. Um bicho de pedra.
— Eu não fiz nada... — A voz da Victória veio em seguida. Estava embargada, trêmula, mas não era voz de quem estava chorando por criancice. Era voz de quem estava sendo sufocada. — Eu estava dormindo, Bianca... por que você rasgou meus cadernos?
— Rasguei porque você não precisa aprender a ler, você precisa aprender o seu lugar! — Ouvi um barulho seco. Um estalo. O som de uma mão batendo no rosto de alguém.
Meu coração deu um soco no peito. Minha mão desceu instintivamente para a pistola na cintura, mas eu me forcei a respirar. Eu precisava saber até onde aquela desgraçada ia.
— Agora você vai aprender — a Bianca continuou, a voz agora num sussurro c***l. — Você vai ficar trancada nesse quarto. Sem comida, sem luz, sem nada. E se eu ouvir um pio seu, eu vou dizer pro Vitor que você tentou me roubar. Quem você acha que ele vai acreditar? Na mulher dele ou numa mendiga que ele pegou por pena? Eu quero você fora daqui, Victória. Eu quero você de volta pro bueiro hoje mesmo!
Ouvi o som de algo sendo arrastado, e depois mais um golpe. A Victória soltou um gemido abafado.
— Vai embora! Sai da minha frente antes que eu acabe com o que sobrou desse seu rosto feio! — A Bianca gritava. — E escuta bem: se você abrir a boca pra falar um "a" pro Vitor, se você mencionar que eu encostei em você, eu juro pela minha vida que eu mando te apagarem antes de você cruzar a divisa do morro. Você morre, entendeu? Você morre!
Ouvi os passos pesados da Bianca saindo do quarto e batendo a porta com força. Ela vinha em direção às escadas, bufando, vitoriosa na sua maldade. A Victória ficou lá dentro, no silêncio que doía mais que o grito.
Eu deslizei para dentro do escritório num movimento rápido, deixando a porta apenas encostada. Fiquei no escuro, ouvindo a Bianca descer os degraus, o salto estalando no piso de madeira que eu tinha escolhido com tanto cuidado. Ela passou pela porta do escritório sem notar que o dono da casa estava ali, a poucos metros, transformado em puro ódio.
Esperei ela chegar no pé da escada, quase na porta de saída da sala.