07

1124 Words
07 — 20 Anos Narrando Os meses foram passando e a Nova Holanda foi se acostumando com a "sombra ruiva" que andava comigo. A Victória já não parecia mais aquele bicho acuado. A pele tinha ganhado cor, o cabelo agora brilhava que nem fogo de verdade e ela já não abaixava a cabeça pra ninguém. Um dia, cheguei em casa e encontrei a Cida com um sorriso de orelha a orelha, descarregando umas dez sacolas de mercado. — Chefe, o senhor não tem noção — ela disse, rindo. — Levei a menina no mercado hoje, lá embaixo. Eu disse: "Victória, o 20 Anos falou que é pra tu pegar o que quiser". 20 Anos, aquela garota parecia que tinha entrado numa loja de brinquedos. — É? E o que ela pegou? — perguntei, abrindo uma cerveja. — De tudo que ela nunca pôde encostar. Pegou aqueles iogurtes coloridos, pegou bandeja de Danone, biscoito recheado de tudo que é marca, até cereal que brilha no leite ela quis levar. Ela olhava pros potes como se fossem joias, patrão. E o mais bonito: ela não pegou só pra ela. Me fez pegar umas caixas de bombom pra distribuir pros moleques que ficam lá no portão. Eu dei um sorriso de lado, satisfeito. O morro ensina a ser egoísta, mas a Victória tinha uma nobreza que vinha de algum lugar que a rua não conseguiu matar. Ela tava descobrindo os sabores da infância que roubaram dela, e eu não ia economizar um centavo pra garantir que aquela despensa vivesse lotada. Mas o passo seguinte foi o que realmente mudou a energia daquela casa. — Tá na hora dela ter o canto dela, né Vitor? — a Cida sugeriu um dia. Eu concordei. Chamei a Victória e dei a missão: o quarto de hóspedes ia ser dela. Mas tinha uma regra: eu não ia escolher nada. Chamei um cara que fazia móveis planejados, trouxe catálogos, levei ela em loja de decoração no shopping — mesmo comigo tendo que ficar de olho em cada canto pra não ter surpresa. Foi a primeira vez que vi ela indecisa. Ela tocava nas colchas, olhava as cores das paredes. Acabou escolhendo um quarto que era a cara dela: nada de muito "fru-fru", mas com móveis brancos, uma escrivaninha grande (porque eu fiz questão que ela voltasse a estudar) e uma cama que, segundo ela, "parecia uma nuvem". Ver ela escolhendo cada roupa, cada tênis, cada detalhe, me dava uma sensação de dever cumprido que nenhum carregamento de droga jamais deu. O tempo não perdoou. Aquela menininha de dez anos foi ficando pra trás. Os traços do rosto foram afinando, ela foi crescendo e aquela postura de criança foi dando lugar a uma mocinha. Até que um dia, a realidade bateu na porta de um jeito que eu não tava preparado. Eu tava no escritório, resolvendo uns problemas de logística, quando a Cida entrou, meio sem jeito, com aquela cara de quem tem uma notícia que homem não sabe muito bem como lidar. — Que foi, Cida? Algum problema com a menina? Ela tá doente? — Doente não, chefe... É que... a Victória virou mocinha hoje. Eu travei com a caneta na mão. Olhei pra Cida sem entender por um segundo, até que a ficha caiu. A primeira menstruação. — E aí? — perguntei, sentindo um desconforto estranho, um gelo na espinha. — O que eu faço? Tem que levar no médico? Ela tá morrendo de dor? Cida riu da minha cara de pânico. O dono do morro, que não tremia diante de fuzil, tava pálido por causa de um ciclo biológico. — Calma, 20 Anos. É natural. Ela tá assustada, tadinha. Ficou trancada no banheiro chorando, achando que tava ferida. Eu já conversei, já expliquei, já dei os remédios pra cólica... mas ela quer falar com o senhor. — Comigo? Cida, eu não sei nem o que falar sobre isso, pelo amor de Deus! — Ela não quer uma aula de biologia, Vitor. Ela só quer saber se ainda pode ficar aqui. Na cabeça dela, "virar mulher" significa que ela não é mais a "criança" que o senhor protege. Ela tá com medo de ser o fim do trato. Levantei da cadeira na hora. A raiva de quem colocou esse medo na cabeça dela voltou, mas eu respirei fundo. Fui até o quarto dela e bati na porta devagar. — Victória? Sou eu. Posso entrar? Um silêncio. Depois, um "pode" bem baixinho. Entrei e vi ela encolhida na cama, com o cobertor até o queixo. Os olhos tavam vermelhos de chorar. Aquela visão me quebrou. Sentei na beirada da cama, mantendo uma distância respeitosa. — A Cida me contou. Tá sentindo dor? Ela balançou a cabeça, confirmando. — Vitor... eu vou ter que ir embora? — a voz dela saiu quebrada. — Agora que eu não sou mais pequena... o senhor vai me colocar pra trabalhar na rua? Ou me mandar pra outro lugar? Eu senti um nó na garganta. Olhei bem pra ela, vendo como ela tava crescendo rápido demais. — Escuta aqui, ruivinha. Olha bem pra mim. Tu não vai a lugar nenhum. Esse sangue aí não muda nada entre a gente. Só mostra que tu tá crescendo, e isso faz parte da vida. Mas pra mim, tu continua sendo a minha menor. A minha protegida. — Mas agora eu sou mulher... — ela sussurrou, como se fosse um crime. — E daí? Se tu é mulher, agora é que eu vou dobrar a segurança em cima de ti. Se tu é mulher, agora é que o mundo vai ficar mais perigoso, e é por isso que tu vai continuar aqui, aprendendo a ser mais braba que qualquer homem desse morro. Eu estendi a mão e, pela primeira vez, fiz um carinho de verdade no topo daquela cabeça ruiva. — Nada muda, Victória. Tu continua sendo a minha herdeira. Só que agora, a gente vai ter que cuidar mais de ti. Relaxa, toma teu remédio e descansa. Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, tu pede pra Cida ou me grita. Entendeu? Ela deu um sorriso fraco, mas aliviado. O medo de ser descartada sumiu dos olhos dela. — Entendi. Saí do quarto e respirei o ar puro da varanda. O tempo tava passando, e a Victória tava deixando de ser uma criança pra se tornar uma força da natureza. Eu sabia que, a partir dali, os problemas seriam outros. Outros olhares, outras intenções de fora. Mas eu também sabia que eu ia quebrar a cara de qualquer um que esquecesse que aquela "mulher" que tava nascendo ali ainda tinha o nome do 20 Anos cravado no destino dela. O morro que se preparasse. Minha herdeira tava ganhando forma.
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