06

1213 Words
06 — 20 Anos Narrando Eram quase quatro da manhã. O morro tava naquele silêncio tenso que precede o amanhecer, só o som dos radinhos chiando longe e o vento batendo nas telhas. Eu tinha acabado de voltar de uma operação de contenção na divisa; o clima tava quente, os canas tavam rondando a entrada e a adrenalina ainda corria como veneno nas minhas veias. Entrei em casa esperando encontrar tudo escuro. Mas a luz da TV tava ligada, sem som, iluminando a sala com aquele brilho azulado e frio. E lá estava ela. Victória não tava mais no chão. Tava sentada bem na ponta do sofá, com os pés balançando, as mãos apertando as coxas. Quando a chave girou na fechadura, ela deu um pulo, os olhos verdes arregalados como se tivesse visto um fantasma. — Que que houve, menor? — perguntei, tirando o boné e jogando em cima da mesa. — Por que tu tá acordada essa hora? Teve pesadelo? Ela me olhou de cima a baixo, conferindo se eu tava inteiro, se tinha sangue, se eu tava mancando. — Eu tentei ir na rua — ela disse, a voz fininha, mas decidida. — Mas os homens lá na porta, de fuzil, não deixaram. Falaram que era ordem sua. Que criança não sai de madrugada. Eu soltei uma risada curta, rouca de cansaço. — E os meus seguranças estão certos. O que tu queria na rua uma hora dessas, Victória? Tá querendo comprar doce às quatro da manhã? Ela não riu. Ela continuou séria, o olhar fixo no meu. — Eu ia atrás de você. Eu travei. O riso morreu na garganta. Olhei praquela garotinha ruiva, que não batia nem no meu peito, querendo encarar a madrugada da Nova Holanda pra me procurar. — Atrás de mim? Pra quê? — Pra ver se tinha acontecido alguma coisa — ela deu de ombros, como se fosse óbvio. — Você demorou. O barulho lá embaixo tava estranho. Eu achei que... achei que você não ia voltar. Aquilo me atingiu em cheio. No meu mundo, as pessoas se preocupam se o chefe vai voltar porque, se ele cair, o esquema cai, o dinheiro para, a proteção acaba. Ninguém se preocupa com o Vitor. Eles se preocupam com o 20 Anos. Mas o jeito que ela falou... ela não tava pensando no "dono do morro". Ela tava pensando no homem que deu um prato de comida e um teto pra ela. Pela primeira vez em muito tempo, senti um aperto no peito que não era o peso do colete. Caminhei até o sofá e me sentei do lado dela. O estofado afundou e ela inclinou o corpo levemente pro meu lado, como se eu fosse um para-raios. Olhei pra ela de canto e dei um sorriso de lado. — E se tivesse acontecido? Tu ia fazer o quê, ruivinha? Ia trocar tiro com o Bope com esses teus bracinhos de canivete? Ela baixou o rosto, pensativa. — Eu não sei. Mas eu não ia deixar você lá. Ficamos em silêncio por um tempo. Aquela garota tinha uma lealdade que não se compra, que não se treina. Ela vinha de fábrica. — Eu não quero ficar só aqui dentro — ela soltou, mudando de assunto, a inquietação voltando. — É bom, é quentinho... mas parece que eu tô presa de novo. Quero ir pra rua um pouco. Ver o movimento. — Amanhã tu vai — eu disse, relaxando o pescoço no encosto do sofá. — Amanhã tu pode sair, pode ir brincar, tomar um sorvete lá na praça, fazer o que quiser. Vou mandar um dos moleques te acompanhar de longe, só pra garantir que ninguém vai crescer o olho. Tu é livre, Victória. Só não é boba de dar mole pro azar. O sorriso que ela me deu foi o pagamento de dez cargas de fuzil. Ela encostou as costas no sofá também, imitando a minha pose, tentando ser gente grande. — E os teus pais, menor? — perguntei, tentando manter o tom casual, mas a curiosidade tava me matando. — Tu nunca falou deles. De onde tu veio antes de parar na calçada? — Eu não tenho pais — ela respondeu seco. — Como não tem? Ninguém nasce de árvore, Victória. Cadê tua velha? Teu pai? — Não sei. Eu tava no internato lá pro lado de fora. Um lugar feio, com muro alto e grade. — E por que tu fugiu de lá? Ela apertou as mãos com força. A expressão dela mudou; a doçura do sorriso sumiu e deu lugar a um brilho de ódio que eu conhecia bem. — Porque eles maltratavam a gente. Batiam por qualquer coisa. Deixavam sem comida se a gente não limpasse o chão direito. Uma vez, uma das mulheres lá me trancou num quartinho escuro porque eu não queria cortar o cabelo... dizia que esse ruivo era "cor do pecado". Eu não aguentei. Esperei o portão do lixo abrir e corri. Corri até meu pé sangrar e eu não saber mais onde eu tava. Eu senti o sangue ferver. Minha mão fechou em volta do apoio do sofá com tanta força que o couro rangeu. No crime, a gente faz muita coisa errada, mas maltratar criança é uma linha que homem de verdade não cruza. Pensar naquelas "autoridades" de internato batendo e deixando essa garota com fome me deu uma vontade absurda de descobrir o endereço daquele lugar e passar com o bonde por cima de tudo. — Eles te batiam, é? — minha voz saiu baixa, perigosa. — Às vezes. Mas eu batia de volta quando podia. Por isso me trancavam. Eu olhei pra ela e vi as pequenas cicatrizes nos braços, marcas que o banho agora deixava bem claras. A raiva em mim era tanta que eu tive que respirar fundo pra não quebrar nada na sala. — Pois escuta bem — eu disse, virando o corpo pra ela. — Ninguém nunca mais vai encostar o dedo em ti pra te machucar. Se alguém tentar, seja quem for, tu me fala. Eu acabo com a raça de qualquer um que ousar levantar a mão pra ti. Entendeu? Ela assentiu, e dessa vez, não tinha dúvida. Ela viu no meu rosto que eu tava falando a verdade. — Dorme aqui — eu falei, fechando os olhos por um segundo. — Pode dormir no sofá mesmo, se quiser ficar perto da TV. Eu vou ficar aqui um pouco. Ela não disse nada, só se ajeitou, deitando o corpo miúdo no sofá e, sem pedir licença, encostou a cabeça no meu braço. Aquilo me pegou de surpresa, mas eu não saí. Fiquei ali, sentindo o calor daquela herdeira que o destino jogou no meu colo. Eu tava puto com o passado dela, mas ao mesmo tempo, agradecido. Se não fosse por aqueles covardes do internato, ela nunca teria fugido. E se ela não tivesse fugido, eu nunca teria encontrado a única pessoa no mundo que, às quatro da manhã, estaria disposta a descer o morro pra ver se eu ainda estava vivo. Ali, eu decidi: a Nova Holanda ia ser o inferno pra muita gente, mas pra Victória, ia ser o paraíso que ninguém nunca deu pra ela. E ai de quem tentasse mudar isso.
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