04

1625 Words
04 -- 20anos Sete anos. Na vida que eu levo, sete anos é uma eternidade. No crime, a gente não conta o tempo em meses ou dias, a gente conta em quantos enterros a gente foi e em quantas vezes a gente escapou de rodar. Eu já tava no topo, mandando em tudo na Nova Holanda, com o fuzil no peito e a responsabilidade de centenas de famílias nas costas. Eu achava que já tinha visto de tudo. Já tinha visto moleque virar bicho por causa de pedra, já tinha visto homem de farda vender a própria alma por um trocado e já tinha visto a maldade pura, aquela que não tem motivo, só vontade de ferir. Mas eu nunca tinha visto aquele par de olhos. Eu tava no alto da favela, num desses dias em que o sol do Rio de Janeiro parece que vai derreter o asfalto, tomando uma cerveja gelada e observando o movimento lá embaixo. Entre o vaivém de morador subindo com compras e os moleques do plantão, eu vi um clarão. No começo, achei que era o reflexo do sol em alguma coisa, mas depois vi que era cabelo. Um ruivo aceso, cor de fogo, mas todo embaraçado, cheio de nó, coberto por uma camada de poeira e descaso. Era uma menina. Miúda, magrinha demais, com uma camiseta três vezes maior que o corpo dela, tão encardida que a cor original já era um mistério. Ela andava devagar, com a cabeça baixa, mas o olho dela… o olho dela não parava. Ela não olhava pro chão como quem tem medo; ela olhava pros lados como quem caça. Era o olhar de um bicho pequeno tentando não ser devorado por um maior. — Ô, Caveira — chamei um dos moleques que tava na contenção, sem tirar os olhos da ruivinha. — Quem é aquela menor ali? Tá circulando aí tem um tempo, vi ela ontem perto da padaria também. Caveira deu de ombros, nem precisou olhar duas vezes. — Aquela ali, chefe? É uma menina de rua aí. Apareceu tem umas semanas. Ninguém sabe de onde veio, nem quem é o pai ou a mãe. Dorme ali no pé do escadão, no meio dos papelões. O pessoal chama de ruivinha, mas ela não fala com ninguém não. É bicho do mato. Eu continuei olhando. Ela parou perto de uma caçamba, viu um resto de pão caído no chão, olhou pros lados, pegou e guardou no bolso daquela camiseta imensa. Não comeu na hora. Guardou. Estratégia de quem não sabe quando vai ter a próxima oportunidade. Aquilo me deu um nó no estômago que eu não sentia há décadas. Eu também vim do nada, eu também soube o que era a barriga roncar a ponto de doer, mas ver aquilo numa criança daquele tamanho, com aquele cabelo que parecia um aviso de incêndio no meio do cinza do morro, me incomodou. — Ela é de rua mesmo? Sozinha? — perguntei, só pra confirmar o que meu instinto já sabia. — Sozinha, 20 Anos. Os moleque já tentou dar ideia, ver se ela queria um trocado pra levar recado, mas ela corre. Tem medo de sombra, aquela ali. Eu não disse nada. Mas a partir daquele dia, eu não conseguia mais ignorar. Todo lugar que eu ia, eu acabava procurando o rastro de fogo daquele cabelo. Eu via ela andando descalça, o pé preto de barro, a pele clara queimada pelo sol, descascando no nariz. Ela era um fantasma vivo dentro da minha comunidade. E na Nova Holanda, ninguém passa fome se eu puder evitar. Essa é a minha lei. No terceiro dia, eu chamei o menor do radinho. — Pega uma quentinha ali na Dona Maria. Capricha. Pede pra ela botar feijão por baixo, arroz, carne e bastante farofa. E pega uma Coca-Cola de garrafa, daquelas de vidro, bem gelada. O moleque achou que era pra mim. Quando ele trouxe, eu apontei pra baixo, onde a menina tava sentada num degrau, desenhando qualquer coisa no chão com um pedaço de telha quebrado. — Vai lá. Entrega pra ela. Diz que é presente do morro. Se ela perguntar quem mandou, tu diz que não sabe. Só entrega e sai fora. Não assusta a garota. Eu fiquei de longe, escondido atrás de um pilar, só observando. O moleque chegou, ela quase pulou de susto, pronta pra correr. Ele estendeu a marmita de isopor e a garrafa suada de tão gelada. Vi o momento exato em que o cheiro da comida bateu no nariz dela. Ela travou. Olhou pro moleque, olhou pra quentinha, e depois olhou ao redor, procurando a armadilha. Quando o moleque se afastou, ela atacou a comida. Eu nunca vi alguém comer com tanta urgência e, ao mesmo tempo, com tanto respeito. Ela sentou no chão, abriu o isopor e a primeira garfada pareceu um milagre. Ela fechava os olhos, mastigando devagar, como se tivesse medo que o gosto sumisse se ela fosse rápido demais. Quando ela abriu a Coca-Cola e o gás subiu, ela deu um pulinho, olhou pra garrafa curiosa, deu o primeiro gole e um sorriso… um sorriso que ela tentou esconder, mas que iluminou o rosto todo sujo dela. — É, ruivinha… tu é braba — murmurei pra mim mesmo. Passei a fazer isso todo dia. Mandava quentinha, mandava fruta, mandava um chinelo novo que ela usou por um dia e depois guardou, como se tivesse medo de gastar. Eu não queria que ela soubesse que era eu. Não ainda. Eu queria ver até onde a força dela ia. E ela ia longe. Eu via ela se defendendo de moleque maior, via ela subindo o morro carregando água pra morador em troca de um trocado, via o jeito que ela observava a movimentação dos carros da polícia. Ela tinha um radar ligado 24 horas por dia. Era o instinto que eu levava anos pra ensinar pros meus soldados, e ela já tinha nascido com ele, batizado na crueldade da calçada. Uma noite, caiu um temporal daqueles que o morro parece que vai descer inteiro. Eu tava na contenção, debaixo de uma marquise, quando vi o vulto. Ela tava encolhida num canto onde a água caía direto, tremendo de frio, tentando cobrir o cabelo ruivo com um pedaço de plástico rasgado. Aquilo foi o limite pra mim. Eu desci. Meus homens tentaram me acompanhar, mas eu fiz sinal pra ficarem. Fui sozinho, o fuzil pendurado nas costas, a chuva encharcando minha camisa. Parei na frente dela. Ela olhou pra cima. O rosto tava lavado pela chuva, mas as lágrimas ela não conseguia esconder. Ela não gritou. Ela só me encarou com aquela coragem suicida de quem não tem mais nada a perder. — Tu não tem pra onde ir, não é, menor? — perguntei, com a voz que eu usava pra dar ordem, mas que saiu mais mansa do que eu pretendia. Ela balançou a cabeça negativamente. O queixo tremia tanto que os dentes batiam. — Sabe quem eu sou? — O dono — ela disse, a voz rouca, quase sumindo no barulho do trovão. — Então tu sabe que aqui eu decido quem fica e quem sai. E eu decidi que tu não vai mais dormir na chuva. Eu estendi a mão. Não foi um gesto de carinho, foi um contrato. Eu vi a dúvida nos olhos dela. Ela olhou pra minha mão, cheia de calo e cicatriz, e olhou pro meu rosto. Ela tava procurando a maldade que ela conheceu na rua, mas o que ela encontrou foi um espelho. Ela viu em mim o que ela tava se tornando: alguém que a vida endureceu demais. Ela colocou a mãozinha fria e suja na minha. — Qual é o teu nome, ruiva? — Victória — ela respondeu, firmando a voz pela primeira vez. — Victória… — eu repeti, sentindo o peso do nome. — Nome de quem ganha guerra. Vem comigo. Naquela noite, eu levei ela pra minha casa. Mandei as mulheres que trabalhavam pra mim darem banho, cortarem aqueles nós do cabelo, darem comida de verdade. Quando ela apareceu na sala, limpa, com o cabelo ruivo brilhando como fogo vivo e as roupas novas, eu soube. Eu não tava só tirando uma menina da rua. Eu tava adotando um problema pro meu futuro. Porque uma garota com aquela determinação no olhar não ia se contentar em ser protegida. Ela ia querer o mundo. E eu, por algum motivo que nem Deus explicava, tava disposto a entregar a chave do meu mundo pra ela. Eu não perguntei do passado dela. O passado morre quando você entra na Nova Holanda. A partir dali, o que importava era o que eu ia fazer dela. E eu não ia criar uma boneca. Eu ia criar uma arma. — Escuta aqui, Victória — eu disse, enquanto ela olhava ao redor da casa, ainda meio desconfiada. — Aqui dentro, tu não precisa mais ter medo de ninguém. Mas tu vai ter que aprender a fazer os outros terem medo de tu. Entendeu? Ela confirmou com a cabeça. Não tinha medo no olhar dela agora. Tinha fome. Não fome de comida, mas fome de ser alguém. — Tá certa, menor. Fica esperta. O mundo é de quem toma, e a partir de hoje, tu começa a aprender como é que se toma o que é teu. Eu vi o brilho no olho dela e soube: aquela garotinha ia ser minha maior criação e, talvez, minha maior ruína. Mas naquele momento, eu só queria que ela soubesse que, pela primeira vez na vida, ela tinha um lugar pra chamar de seu. Sete anos atrás, eu dei a ela um teto. m*l sabia eu que ela ia acabar sendo a única dona daquela p***a toda.
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