03

748 Words
03 — Victória Narrando E foi ali que eu comecei a entender de verdade quem ele era, porque até então eu só sabia que tinha sido ele que me tirou da rua, que tinha sido ele que olhou pra mim diferente dos outros, mas dentro da Nova Holanda, o nome dele não era só nome, era respeito, era silêncio quando precisava, era ordem que ninguém discutia, e foi assim que eu descobri que o homem que tinha me acolhido não era qualquer um, ele era o dono de tudo aquilo, o cara que mandava no morro inteiro, o cara que resolvia, que decidia, que fazia acontecer, e ao mesmo tempo, era o único que, no meio daquele caos todo, tinha parado pra me enxergar. Vitor… mas quase ninguém chamava assim. Era 20 ANOS. E quando falavam esse nome, não era alto, não era de qualquer jeito, era no respeito, no cuidado, porque ali todo mundo sabia quem ele era e até onde ele podia ir. Ele nunca foi de ficar falando muito comigo, nunca foi de ficar cheio de palavra bonita, de carinho, dessas coisas que eu nem sabia como era direito, mas o jeito dele comigo sempre foi diferente, era seco, direto, mas tinha atenção, tinha cuidado nas entrelinhas, e eu fui aprendendo a entender isso com o tempo, porque quem cresce sem nada aprende a reconhecer quando alguém tá te protegendo, mesmo sem dizer. — Fica esperta, menor… — ele falava às vezes, sem nem olhar direito, mas eu sabia que era comigo, sempre era. E eu ficava. Porque ali, se tu vacila, tu roda. E ele não precisava repetir. Ele me ensinou tudo sem nunca sentar pra ensinar, não tinha aula, não tinha explicação bonitinha, era no dia a dia, era no olhar, era no erro dos outros que eu assistia e guardava pra não fazer igual, era na forma que ele resolvia as coisas, na postura, na calma quando todo mundo tava em choque, no jeito que ele chegava e o ambiente mudava, porque presença ali valia mais que arma, e ele tinha isso, tinha moral, tinha história, tinha peso. E eu fui colando. Quieta, na minha, mas sempre perto o suficiente pra ver, pra ouvir, pra entender. Ele deixava. Nunca falou “vem”, mas também nunca mandou eu sair. E isso, pra mim, já dizia muita coisa. Teve uma vez que eu fiz merda, coisa pequena, mas ali dentro nada é pequeno, eu me atrapalhei num corre, passei informação errada e quase deu r**m, não deu porque os caras que tavam comigo conseguiram segurar, mas podia ter dado, e quando ele ficou sabendo, não veio gritando, não veio fazendo cena, ele só me chamou, daquele jeito dele, calmo demais pra situação. — Tu acha que isso aqui é brincadeira, Victória? Eu não respondi, nem tinha o que falar. — Aqui, erro custa caro… e às vezes não é tu que paga. Aquilo bateu diferente. Porque na rua eu só respondia por mim. Ali não. Ali eu podia f***r com os outros também. E foi ali que eu entendi que não era só sobreviver mais, era responsabilidade. Depois disso, eu nunca mais vacilei daquele jeito. Porque se tinha uma coisa que eu não queria, era decepcionar ele. E eu nem sabia explicar direito o porquê. Com o tempo, eu fui crescendo ali dentro e as pessoas começaram a me olhar diferente, não só como a menina que ele trouxe, mas como alguém que tava aprendendo de verdade, que não tava ali de enfeite, e foi ele que começou com isso, porque mesmo sem falar muito, ele soltava umas coisas no meio dos outros que mudava tudo. — Deixa com a menor… ela resolve. E eu resolvia. Nem sempre perfeito, mas resolvia. E isso foi virando respeito. Foi virando nome. Foi virando espaço. Até que um dia, sem ninguém precisar anunciar nada, já tinha gente me ouvindo, já tinha gente esperando minha palavra, já tinha gente me chamando não só de Victória… Mas de Herdeira. E quando eu ouvi isso pela primeira vez, não foi de qualquer um. Foi dele. — Fica ligada, Herdeira… — ele soltou, como se não fosse nada. Mas pra mim foi tudo. Porque ali eu entendi. Eu não era só mais uma. Eu era a que ele tava preparando. Mesmo que ninguém soubesse. Mesmo que ele nunca tivesse dito em voz alta pra todo mundo. Eu sabia. E isso bastava. Ou pelo menos… Era o que eu achava.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD