20

1084 Words
Cap 20 -- Luan Narrando Eu sabia que estava assinando o meu próprio CPF de óbito. No momento em que a chave girou e a porta do quarto da Victória se fechou atrás de mim, eu não estava apenas cruzando um limite; eu estava pulando no precipício. O ar ali dentro era diferente, tinha cheiro de perfume caro, de maquiagem e daquela inocência que o 20 Anos tentou blindar com fuzil e parede de concreto. Eu sou homem, sou bicho da rua, e nunca fui de passar vontade. Mas ali, na frente daquela ruiva, eu tremi. Ela me olhava com uma mistura de medo e desafio que me deixava louco. A Victória não é uma menina qualquer; ela é a herdeira do complexo. E eu, que vi ela crescer, que ajudei o patrão a carregar os brinquedos dela anos atrás, estava prestes a tirar dela a única coisa que o crime não consegue devolver. — Tem certeza disso, ruivinha? — perguntei, a voz falhando, sentindo o peso do fuzil que eu tinha deixado encostado na parede. Ela não respondeu com palavras. Ela só me puxou pela gola. Foi intenso. Foi perigoso. Foi a primeira vez dela, e eu senti a responsabilidade disso pesar mais que qualquer carga de mercadoria que já escoltei. Cada toque meu era carregado de uma adrenalina que não era só prazer, era o medo constante de ouvir o comboio do patrão parando no portão. Eu sentia o corpo dela vibrar, a entrega total de quem não sabia onde estava se metendo, mas que queria viver aquilo como se o mundo fosse acabar no amanhecer. E eu? Eu fui um desgraçado. Porque eu sabia que o 20 Anos ia me caçar até no inferno por isso. Eu sabia que, para ele, eu não era o cara que deu carinho para a filha dele; eu era o Judas que beijou a mão de quem deveria proteger e depois apunhalou pelas costas. — Eu vou morrer por isso, Victória... — sussurrei contra o pescoço dela, sentindo o pulso dela acelerado. — Ele não vai saber — ela disse, mas nós dois sabíamos que era mentira. Naquela madrugada, eu não tirei apenas a virgindade dela. Eu mudei o destino da Nova Holanda. Quando o sol começou a clarear, eu olhei para ela dormindo e me senti o maior covarde do mundo. Me vesti rápido, limpei qualquer rastro que pude e saí dali antes que a Cida acordasse. Desci a escada sentindo minhas pernas pesadas. Saí pro portão, encostei no carro e peguei meu fuzil. Quando o Caveira me olhou, eu tive que sustentar a marra, mas por dentro eu estava em ruínas. Agora eu estou aqui, em pé na contenção, vendo o blindado do 20 Anos passar pelo portão principal. O motor roncando parece o som do meu julgamento. Eu sei que ele tem câmera. Eu sei que ele tem olho em tudo. Olho pro Luan do espelho do carro e vejo um homem morto. Se o patrão desconfiar, se ele olhar pro meu rosto e ver a marca do pecado da filha dele, eu não chego na hora do almoço. Mas quer saber? Olhando praquela janela lá no alto, onde a ruiva deve estar acordando agora... eu faria tudo de novo. O 20 Anos pode até me matar, mas ele nunca vai conseguir apagar que, por uma noite, a herdeira dele foi minha. E esse segredo, mesmo que custe meu sangue, eu vou levar pro buraco com um sorriso no rosto. O chiado do rádio no meu ombro soou como o barulho de uma sentença sendo lida. Eu já esperava, mas quando a voz do 20 Anos ecoou, seca e sem emoção, um frio percorreu minha espinha que nem o pior confronto com o BOPE conseguiu me dar. — Luan? Na escuta. Sobe aqui no escritório agora. Quero trocar um papo contigo de homem pra homem. — A voz dele tava calma demais. E no nosso mundo, quando o patrão tá calmo depois de uma suspeita, é porque o caixão já tá encomendado. — Na escuta, chefe. Tô subindo. — Respondi, tentando não deixar minha voz tremer. Olhei pro Caveira, que tava do meu lado. Ele me olhou com uma cara de quem já sabia que eu tava caminhando pro matadouro. Não disse nada, só balançou a cabeça. Eu sabia que, se o bagulho ficasse doido lá em cima, ninguém ia meter a mão por mim. No crime, traição com a família do dono não tem fiança. Peguei o celular com a mão suando. Meus dedos tatearam a tela e abri a conversa da Victória. Meu coração tava dando soco no peito. Mensagem para Victória: "Teu pai mandou eu subir agora. Se eu não descer, ou se o clima fechar, saiba que eu adorei te conhecer de verdade. Não me arrependo de nada do que a gente viveu ontem, ruivinha. Faria tudo outra vez, mesmo sabendo o preço. Fica bem." Bloqueei a tela e guardei no bolso. Dei um tapa no carregador do fuzil, só por costume, e comecei a subir os degraus daquela casa que, hoje, parecia um tribunal. Cada passo que eu dava era um flash da noite passada: o cheiro dela, o toque, a entrega... Se eu ia morrer hoje, pelo menos eu morria com o gosto da vitória na boca. Literalmente. Parei na porta do escritório. Respirei fundo, ajeitei a postura e bati duas vezes. — Entra. — A voz lá de dentro veio pesada. Abri a porta devagar. O 20 Anos tava de costas, olhando pela janela pro movimento do morro. O escritório tava na penumbra, só com a luz que vinha de fora. Ele não se virou de imediato. O silêncio ali dentro era tão denso que dava pra ouvir o ponteiro do relógio na parede. — Senta aí, Luan. — Ele disse, ainda de costas. — Tu sabe por que eu te chamei, não sabe? Tu é um cara inteligente, sempre foi meu melhor soldado... por isso eu quero ouvir da tua boca antes de tomar qualquer decisão. Eu não sentei. Fiquei em pé, na posição, esperando o bote. Eu sabia que o blindado tava armado lá fora e que o mundo dele tava desabando por causa de mim. Mas sustentei o olhar quando ele finalmente se virou. O olhar dele não era de raiva, era de decepção — e isso era muito pior. — Fala, patrão. Tô aqui pra ouvir. — Falei, sentindo que aquela seria a conversa mais curta e fatal da minha vida.
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