Cap 19 — 20 Anos Narrando
Eu não sou o dono da Nova Holanda porque eu sou o mais forte. Eu sou o dono porque eu sou o que mais observa. Minha casa é uma fortaleza, mas também é um Big Brother que eu controlo na palma da mão. Enquanto eu voltava da Região dos Lagos, cruzando a estrada na madrugada, meus olhos não saíam da tela do tablet.
Eu vi quando eles chegaram.
Vi a moto do Luan encostando no portão. Vi o jeito que ele ajudou ela a descer — uma mão que demorou demais na cintura dela, um toque que não era de segurança, era de quem já tinha provado o que não devia. Eu vi eles subindo a escada. Vi a porta do quarto da Victória se fechar atrás dos dois.
E depois disso? Depois disso veio o breu.
Eu não tenho câmera dentro do quarto da minha filha. Eu sou um bandido, mas eu tenho princípios; eu queria dar a ela a privacidade que ela nunca teve no internato ou na rua. Mas naquele momento, o silêncio daquelas câmeras do corredor gritava na minha cara. Eu não precisava de imagem para saber o que estava acontecendo. Eu conheço o Luan. Conheço o cheiro de oportunidade que um vagabundo sente quando vê uma herdeira vulnerável e um pouco embriagada.
Fiquei horas encarando aquela porta fechada pela tela, enquanto o blindado cortava o asfalto. Minha vontade era ligar para o Caveira e mandar ele invadir aquele quarto com o bonde todo, mas eu me segurei. Eu precisava ver até onde a traição ia.
Quando eu estacionei no portão principal, quase onze da manhã, o Luan já estava lá fora. Postura erguida, fuzil no peito, a cara de cínico mais lavada do Rio de Janeiro. Ele achou que, saindo antes de eu chegar, ele limpava o rastro. m*l sabe ele que o rastro dele tá gravado em HD no meu servidor.
Entrei em casa sentindo o cheiro do traidor no ar. O cheiro dele misturado com o perfume dela. Aquilo embrulhou meu estômago de um jeito que nem cheiro de corpo em decomposição faz.
— Eu não quero saber de desculpa, Caveira! — gritei, descarregando a minha raiva na mesa da sala.
Eu não tava gritando por causa do rádio desligado. Eu tava gritando porque a minha pequena, a minha herdeira, tinha acabado de ser corrompida por um cara que eu pagava para proteger ela. O medo de pai é diferente do medo de chefe. Como chefe, eu sei que o Luan quebrou a ética. Como pai, eu sinto que falhei.
Eu treinei ela para a guerra, ensinei ela a atirar, a pilotar, a ser um general... mas eu não ensinei ela a se defender de um sorriso de vagabundo e de uma lábia de segurança fura-olho.
O que me preocupa não é só a virgindade dela. No nosso mundo, isso é detalhe. O que me apavora é o foco. O crime não aceita distração. No momento em que ela coloca o coração ou o desejo na mão de um soldado, ela vira refém. Ela perde a frieza. Ela vira alvo fácil para quem quer me atingir. Se o Luan machucar ela, se ele usar o que aconteceu para se crescer no morro, eu vou ter que fazer algo que vai quebrar o coração dela, mas que vai salvar o meu império.
Ouvi os passos dela na escada. Passos lentos, incertos.
Olhei para cima e vi a Victória. Blusão de gola alta? No calor do Rio de Janeiro? Ela não sabe mentir para o mestre dela. Aquele blusão era um escudo para esconder as marcas que a noite deixou.
Meu sangue ferveu, mas eu mantive a posição. Eu precisava que ela falasse. Queria ver se a "General" que eu criei ia ter a coragem de sustentar a mentira ou se ia honrar o sangue que eu dei a ela.
— Acordou, Victória? — perguntei, a voz saindo como uma lâmina afiada. — O baile rendeu, né? Dormiu tanto que nem ouviu o comboio chegar.
Olhei fixo no fundo dos olhos verdes dela. Eu queria que ela sentisse que eu estava vendo através daquela gola alta.
Eu olhei para o Caveira e para os outros dois moleques que estavam na sala. Meus olhos deviam estar transmitindo a morte, porque eles nem esperaram eu abrir a boca.
— Sai todo mundo. Quero a casa vazia. Agora! — ordenei, e o som da minha voz fez as paredes tremerem.
Eles saíram batendo em retirada, fechando a porta com um cuidado de quem não quer despertar um leão. Respirei fundo, sentindo o peso do ar-condicionado gelar o suor da minha nuca. Eu precisava de calma. Se eu agisse como o dono do morro, eu perdia a minha filha; se eu agisse só como pai, eu perdia o respeito dela.
A Victória terminou de descer os degraus. Ela veio com aquele sorriso que sempre foi o meu ponto fraco, um sorriso que tentava disfarçar a tensão que eu sabia que ela estava sentindo. Ela me abraçou, o rosto encostando no meu peito, e eu senti o cheiro do perfume dela... ainda misturado com o cansaço da noite.
— Senti sua falta, pai. Que bom que chegou bem — ela sussurrou, apertando o abraço.
Eu retribui, mas não com a mesma leveza de sempre. Beijei o topo da cabeça dela e a afastei devagar, segurando-a pelos ombros.
— Eu também senti, ruivinha. Mas a gente precisa conversar, não acha?
Ela desviou o olhar por um segundo, forçando uma risada anasalada enquanto caminhava em direção à cozinha para pegar um copo de água.
— Acho que não, pai. Foi tudo certo no baile. Ninguém mexeu comigo, eu bebi o que eu quis, dancei, e voltei pra casa com o Luan como o senhor mandou. Missão cumprida, não foi?
— Com o baile eu sei que deu tudo certo, Victória. Meus informantes e as câmeras da rua me mostraram que tu foi a rainha daquela pista — falei, seguindo ela e encostando no balcão. — O problema não é o baile. O problema é o Luan.
Ela travou com o copo na mão. O silêncio que se instalou na cozinha foi pesado. Ela respirou fundo, endireitou as costas e me encarou. A "General" estava tentando assumir o controle.
— Pai, eu não escondo nada do senhor. Eu te respeito acima de tudo, mas... eu não quero falar sobre isso agora. Foi uma noite longa, eu estou cansada.
— Tudo bem. Se tu não quer falar agora, eu respeito o teu tempo — respondi, mantendo o tom de voz baixo, o que eu sabia que a deixava mais alerta. — Mas tu me conhece. A gente sempre foi transparente um com o outro. Desde o dia que eu te dei aquele hambúrguer na calçada, a gente prometeu que a verdade era a nossa única lei. E a verdade hoje é amarga, Victória.
Ela continuou calada, olhando para a água no copo.
— Eu não gostei, e estou te falando isso pra tu ficar sabendo. O Luan é pago pra ser o teu escudo, não pra ser o teu par. Ele é um soldado, e soldado que perde a noção da hierarquia é um perigo. Eu te treinei desde os dez anos pra ser o topo da pirâmide, pra ter visão de águia, pra não deixar nada tirar o teu foco do que realmente importa: a sobrevivência desse morro.
— Um erro não muda quem eu sou, pai — ela rebateu, a voz começando a ganhar firmeza.
— Um erro desse tamanho muda tudo, Victória! Tu só tem dezesseis anos. Eu sei que tu se sente a dona do mundo, que atira melhor que muito marmanjo, mas o teu coração ainda é novo. O Luan sabe disso. Ele usou a confiança que eu dei pra ele pra chegar em ti. No momento em que tu coloca o teu foco num cara como ele, tu vira refém. Tu para de olhar pro horizonte e passa a olhar pra ele. E no nosso corre, quem se distrai, morre.
Cheguei mais perto, baixando a guarda por um momento e deixando a preocupação de pai transparecer.
— Eu tenho medo, Victória. Medo de que te machuquem, medo de que usem esse teu sentimento pra me atingir ou pra te tirar do caminho. Eu não te criei pra ser "mulher de bandido", pra ficar esperando soldado em casa. Eu te criei pra ser o comando. E o comando não se entrega pra qualquer um que te dá um beijo num baile.
Ela me olhou, e eu vi uma lágrima solitária ameaçar cair, mas ela a segurou. A marra dela era o meu reflexo, e naquele momento, eu vi o quanto doía nela me decepcionar.
— Tu é minha herdeira, ruivinha. O foco do morro tem que estar na tua mente, não entre você e um segurança fura-olho. Pensa no que eu te falei. O Luan... ele vai ter o que merece por ter quebrado a minha confiança. Mas com você, eu quero apenas que entenda: ninguém nesse mundo vale o teu legado.
Virei as costas e saí da cozinha, deixando ela ali com o silêncio e as próprias escolhas. Minha parte estava feita. Agora, eu tinha um soldado para encontrar lá fora, e o papo com ele não ia ser nem de perto tão amigável quanto esse.