Marcela Narrando
Dormir foi uma coisa que eu simplesmente não consegui fazer. Virei de um lado pro outro a noite inteira, com a cabeça a mil, pensando em como ia ser daqui pra frente sem emprego, nas contas acumuladas, no tratamento, na faculdade trancada, em tudo que parecia desabar ao mesmo tempo. Mas ficar ali deitada, murmurando pensamento r**m, não ia me ajudar em nada.
Levantei e fui pro banheiro e encarei meu reflexo no espelho. Olhos inchados, nariz vermelho, rosto abatido, o retrato exato de uma noite sem dormir e de muito choro. Respirei fundo, lavei o rosto com água fria, como se isso pudesse lavar também o medo que estava grudado em mim. Tomei um banho rápido, mais pra acordar o corpo do que pra relaxar, e me vesti com qualquer coisa confortável.
Arrumei a cama, por hábito mesmo. Gosto de deixar tudo no lugar, como se isso me desse a sensação de que ainda tenho algum controle sobre a vida.
Desci com o celular na mão e encontrei minha mãe já de pé. Pra minha surpresa, ela tava com uma carinha melhor. Não ótima, mas melhor. O sorriso fraco que ela me deu já foi suficiente para aliviar um pouco o peso no meu peito.
— Bom dia, filha — ela disse.
— Bom dia, mãe.
Fiz café, coloquei pão que sobrou de ontem pra assar, depois de pronto, a gente sentou juntas. Aquele momento simples, de duas xícaras fumegando e silêncio confortável, me deu uma paz estranha. Mas eu sabia que não dava pra fingir que nada tinha acontecido.
Contei da demissão.
Ela ficou preocupada na hora. Os olhos marejaram, a mão tremeu levemente segurando a xícara.
— Meu Deus, Marcela… — ela começou.
— Mãe, calma — interrompi rápido. — Eu vou resolver. Não é o fim do mundo. Eu vou atrás de outro emprego, vou dar um jeito. A senhora não precisa se preocupar com isso agora.
Ela não pareceu convencida, mas assentiu. Eu conheço aquele olhar. É o olhar de quem se sente culpada por algo que não tem culpa nenhuma. E isso me dói mais do que qualquer conta atrasada.
Depois do café, lavei a louça, organizei a pia e abri a geladeira pra ver o que tinha pra fazer pro almoço. Só tinha um frango, legumes e verduras.
Peguei minha bolsa e resolvi ir na mercearia do seu Zé. Lá as coisas são um pouco mais caras, mas ele me vende fiado. Sempre vendeu. Ele conhece a gente desde que eu era criança, sabe da nossa história, sabe que eu pago.
No caminho, senti aquele aperto conhecido no peito. Não gosto de comprar fiado. Nunca gostei. Mas também não posso deixar faltar comida em casa.
Quando cheguei na mercearia, seu Zé me recebeu com aquele sorriso cansado de sempre.
— Bom dia, menina.
— Bom dia, seu Zé.
Comecei a pegar as coisas básicas: arroz, feijão, óleo, um pacote de macarrão, uma massa pra fazer bolo, peguei peixe e carne pra fazer um assado de panela. Nada além do necessário. Cada item parecia pesar mais do que devia na minha mão.
Enquanto ele anotava tudo no caderninho, senti um arrepio estranho percorrer meu corpo. Uma sensação r**m, como se algo estivesse prestes a acontecer. Ignorei. Ando ignorando muita coisa ultimamente.
Peguei com um sorriso agradecido, coloquei as sacolas nos braços e comecei a subir o morro de volta pra casa.
Sem saber que, enquanto eu tentava manter a rotina funcionando… minha vida já estava sendo puxada para um caminho do qual eu ainda não fazia ideia.
Eu já estava quase chegando na minha rua quando vi a moto encostar do meu lado. Na mesma hora, meu corpo inteiro entrou em alerta. Não sei explicar, mas aquele pressentimento r**m voltou, o mesmo frio na espinha que eu vinha sentindo desde o dia anterior. Quando olhei direito, vi que era o Galego. Ele me encarava meio sem jeito, coisa rara pra quem sempre anda com postura de dono do mundo.
— E aí, Marcela, beleza? — ele perguntou, diminuindo a velocidade da moto. — Queria trocar uma ideia contigo, pode ser?
Meu primeiro pensamento foi a Lara. O coração apertou na hora.
— Aconteceu alguma coisa com a Lara? — perguntei, já parando.
— Não, não — ele respondeu rápido. — Ela tá bem, tá no salão fazendo o cabelo. Fica tranquila.
Suspirei aliviada, mas a sensação estranha não passou.
— Então fala — eu disse.
Ele balançou a cabeça devagar.
— O assunto é sério. Não é coisa pra conversar aqui na rua.
Aquilo só me deixou mais nervosa. Galego não era de mistério. Se ele tava assim, tinha coisa grande por trás.
— Você pode ir lá na antiga casa da Lara pra gente conversar melhor? — ele perguntou. — Eu te espero lá.
Estranhei. Muito. Mas acabei concordando. Ele deu meia-volta e subiu o morro, me deixando ali, parada, olhando a moto se afastar.
Continuei andando, mas agora com a cabeça a mil. Que assunto era esse que não podia ser falado na rua? Não podia ser coisa boa. Cheguei em casa, guardei as compras da mercearia, deixei tudo organizado e avisei à minha mãe que ia sair rapidinho.
— Mãe vou aqui rapidinho. Coisa rápida.
A antiga casa da Lara ficava na rua de trás, dava nem cinco minutos andando. Quando cheguei, o Galego já estava lá, encostado na moto, olhando o celular. Ele levantou a cabeça quando me viu.
— Bora entrar logo — ele disse. — Daqui a pouco a surtada da sua amiga fica sabendo que a gente tá aqui e vai pensar besteira.
Eu ri, sem conseguir evitar. A Lara era exatamente assim. Capaz de chegar dando voadora.
Entramos. A casa estava vazia, silenciosa, com aquele cheiro de lugar fechado há tempo. Sentei no sofá, meio tensa, e o Galego sentou na minha frente. Ele passou a mão na nuca, respirou fundo, visivelmente nervoso. Nunca tinha visto ele daquele jeito.
Galego respirou fundo, olhou pra mim de novo e começou devagar, como quem pisa em chão minado.
— Marcela, vou ser direto porque enrolação só piora — ele disse, cruzando as mãos. — Eu tô com um grande problema pra resolver… e esse problema atende pelo nome de Pesadelo.
Meu estômago gelou na hora. Quando aquele nome é dito assim, seco, nunca vem coisa boa.
— O que foi que eu fiz? — perguntei sem perceber, a voz saindo mais fina do que eu queria.
— Nada. Justamente por isso que eu tô aqui — ele respondeu rápido. — Tu nunca fez nada de errado.
Ele levantou, começou a andar pela sala pequena, como se falar sentado fosse difícil demais.
— Tu sabe que o Pesadelo tá preso há cinco anos, né? — continuou. — E agora a justiça inventou uma regra nova: visita íntima só se for esposa. Casamento no papel.
Eu senti meu corpo inteiro travar.
— E… o que eu tenho a ver com isso, Galego? — perguntei, já desconfiada demais pra fingir normalidade.
Ele parou na minha frente, me encarou sério.
— Você é a solução.
Meu coração começou a bater tão forte que parecia que ele ia pular pela boca. Eu me levantei num pulo.
O Galego só podia estar usando droga vencida pra me oferecer uma proposta dessas.
— Você tá achando que eu sou essas putas do morro, Galego? — falei sem nem perceber que tinha me levantado do sofá. — Que eu vou me vender assim? Você tá maluco?
Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, carregada de raiva, vergonha e incredulidade. Meu coração batia forte no peito, como se quisesse fugir dali antes de mim.
— Porque ele não casa com uma das milhares de mulheres que vão ver ele no presídio? — continuei, sem dar espaço pra ele responder. — Mulher é o que não falta pra esse homem. Todo mundo sabe disso.
Galego levantou as mãos, num gesto de calma, como quem tenta apartar a briga.
— Calma, Marcela. Não é isso que você tá pensando — ele disse, sério, sem o tom de deboche que eu imaginava que viria. — Ninguém tá te chamando de nada. Muito menos de p**a.
— Então explica — rebati, cruzando os braços, sentindo o rosto queimar. — Porque do jeito que você falou, parece exatamente isso.
Ele respirou fundo, passou a mão no rosto e apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Isso aqui não é sobre sexo. É sobre papel. Documento. Assinatura — explicou. — O sistema mudou a regra. Visita íntima agora só entra esposa registrada. No papel. No cartório.
Eu fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando processar.
— E o que eu tenho a ver com isso? — perguntei, desconfiada.
— Você é limpa — ele respondeu direto. — Não tem ficha, não tem problema com justiça, não se envolve com nada errado. É conhecida no morro, respeitada. E… — ele hesitou — …você precisa de dinheiro.
Aquilo doeu mais do que eu esperava. Não porque fosse mentira, mas porque era verdade demais.
— Isso não te dá o direito de me usar como solução — respondi, com a voz mais baixa agora.
— Eu sei — Galego disse rápido. — Se você disser não, acabou. Ninguém vai te ameaçar, ninguém vai te pressionar. Eu não funciono assim.
Olhei pra ele tentando encontrar uma mentira. Não encontrei.
Ele levantou o olhar na mesma hora.
— Não é caridade, Marcela. É um acordo.
Meu estômago revirou.
— Acordo com o Pesadelo nunca é só acordo — sussurrei.
— Com ele não — Galego concordou. — Mas comigo, sim. Você assina o papel. Casamento civil. Nada muda na sua vida. Você não vai morar com ele, não vai largar sua vida, não vai virar propriedade de ninguém. É só pra constar.
— E em troca? — perguntei, mesmo já sabendo.
Ele não desviou o olhar.
— Dinheiro suficiente para sua mãe se tratar direito. Sem faltar exame, remédio, nada. E mais um valor mensal enquanto durar o contrato. E quando isso acabar… quando ele sair ou a regra mudar… esse casamento acaba. Tu segue tua vida. Faculdade, teus sonhos.
Meu peito apertou. Forte.
Fiquei andando de um lado pro outro da sala, sentindo a cabeça girar. Aquilo era loucura. Era errado. Era perigoso. Mas também era… a única saída concreta que tinha aparecido até agora.
— E se eu disser não? — perguntei.
— Você continua sendo a Marcela de sempre — ele respondeu. — Nada muda. Mas eu precisava tentar.
Sentei de novo, passando as mãos no rosto.
— Eu não quero. — falei, com a voz trêmula. — Isso é coisa grande demais.
— Eu sei — ele disse, levantando. — Pensa. Só pensa. Eu te dou um tempo.
Ele foi até a porta, parou antes de sair e completou:
— Só lembra de uma coisa: isso aqui não te faz menos mulher. Não te suja. Você não tá se vendendo. Você está tentando salvar quem ama e realizar seu sonho.
A porta fechou atrás dele.
Olhei em volta, aquela casa vazia, simples, tão parecida com a minha. Pensei na minha mãe, fraca, mas sorrindo no café da manhã. Pensei na faculdade trancada, nos sonhos guardados.
Eu fiquei ali, sozinha, com o coração em guerra com a razão… sabendo que, pela primeira vez, dizer “não” talvez fosse o caminho mais fácil e o mais c***l.