Capítulo 2

2939 Words
- Você não pode sair hoje? – exclamou Lia, indignada, pelo telefone. - Não posso. Minha mãe disse que estou em recuperação do meu desmaio – riu Helena, enquanto fazia carinho no seu gato persa, Jimmy. Segurava o telefone no viva voz para escutar a amiga. Estava deitada em sua cama, vendo o pôr do sol laranja. Seu quarto tinha suas vantagens. Tinha uma sacada, que ficava em frente à árvore favorita de seu pai. Eles sentavam no pé daquela mesma árvore há anos, sempre buscando constelações no céu. – Será que você não pode vir aqui? É meu aniversário ainda, pelo menos até meia noite. -Há! Eu ir ai? Qual é, e a festa? Hoje é sexta, sabe o que isso significa? – brincou Lia. - Significa que amanhã não tem aula. - Isso mesmo, mocinha. Você nunca saiu escondida de casa, não? - Eu? Bem vejamos, nunca. - Bem, está na hora de fazer algo fantástico. Sair de noite sem ninguém ver. Eu te espero na outra quadra de carro... - Nem pensar! - Pense bem garota, é seu dia. Qual é o m*l de ir à praia? - Bem, minha mãe disse... - Já entendi. Eu estarei aqui esperando até as oito. Vê se não demora – falou isso e encerrou a chamada. Helena ficou indignada. Não poderia simplesmente sair assim, sem permissão. Ela não fazia isso, era algo que somente Lia faria. Helena sentiu que nunca aproveitou a vida de verdade, somente ficou no seu quarto, trancada, desenhando ou pintando. Isso era sua vida, enquanto Elliot, James e Lia aproveitavam a vida. Talvez era por isso que James nunca viu nada de diferente em Helena, só via uma garota pacata da Califórnia. Não corria riscos. Ela fitou seu quadro pendurado a cima da escrivaninha. Era o melhor que ela já tinha feito, em anos. “O oceano em movimento” era como ela chamava. Pinceladas de laranja e azul claro no fundo, imitando ao pôr do sol que ela presenciava todos os dias. O mar parecia estar realmente em movimento, lambendo a praia. Era o melhor que ela podia fazer, era seu ingresso para universidade. Cursar artes era sua vida e nada mais. Se saísse por aquela porta, não teria mais volta. Seria uma adolescente normal, como os outros. Não seria a pintora que nasceu no século errado, mas uma garota normal, como Alexia ou Lia. Sentiu um arrepio percorrer por sua espinha e sua barriga embrulhar. Correu até a cama e pegou o celular. Digitou: Helena: Ok! Eu irei, mas não me faça perder tempo nessa festa. Cinco segundos depois, o celular estava apitando. Lia: Por favor, vai ser a festa da sua vida! Te pego as oito, ali no Simon. Helena pensou que seria difícil sair e ir até Simon, outro amigo do grupo. Era muito perto da casa e se a mãe de Simon, Sra. Young visse, já ligaria diretamente para sua mãe. Teria que ser cuidadosa. Pegou seu celular e digitou: Helena: Simon, é a Helle. Sua mãe está em casa? Simon: Sim, é a Lia já avisou. Vamos nessa festa? Helena: Até você? Achei que não gostasse dos populares. ¬¬ Simon: Não gosto, mas gosto da Lia, então, você sabe... Helena: Okay! Me encontre na frente da sua casa as oito e não diga a sua mãe que vai me encontrar. Simon: Okay! Te vejo lá. Sair da sua casa seria o mais difícil, pois sua mãe não dormiria tão cedo. Teria que pensar em um plano. E rápido. Não precisou muito, pois sua mãe já estava a chamando do corredor: - Helle! Venha aqui, a Lia está na porta. Ela desceu correndo as escadas correndo, tentando não tropeçar no próprio pé. Quando chegou, se deparou com Lia e James. Lia estava numa versão diferente, o cabelo longo presos em um coque, pintado recentemente de rosa choque. James estava com roupas normais, jeans, camisa flanela e All Star. - Vão sair hoje, meninos? – Perguntou a Sra. Morgan, olhando com advertência para a filha. - Ah! Não, só James. Eu vou dormir com Helle, não é mesmo? – Lia buscava o olhar de Helena, tentando mostrar que o que estava dizendo fazia parte do plano – Helle não contou para a senhora? - Claramente que não... eu – tentou falou a Sra. Morgan, mas foi interrompida por Helena – Não falei, mãe. Desculpa, é que estava combinando com ela agora. Só que ela veio tão rápido. Não é, Lia? - Ah, sim! O James queria me deixar logo aqui para poder encontrar Alexia – disse Lia, entrando no recinto sem ser convidada. - Ah! Claro, pode entrar. Mas, hoje Helle não vai sair, não é querida? – Sra. Morgan advertiu com o olhar a sua filha. - Claro, mãe! – Respondeu Helena, sentindo-se culpada. - Bem a gente se vê amanhã meninas! – acenou James, saindo. As duas correram para o quarto e trancaram a porta. - Agora me diz, como vamos sair dessa fortaleza? – Indagou Helena, sentando na cama, ao lado de do seu gato. - Vamos sair pela janela, eu acho – respondeu Lia, jogando-se na cama. - Ah, e me diga, como vou sair oito da noite pra ir numa festa? – Helena estava indignada. - Bem, vejamos, Simon vai passar aqui as 23h00... - O quê? – Exclamou Helena. - Sim, é única saída, sua mãe vai estar dormindo e então podemos sair tranquilamente. Helena encarou Lia, sem acreditar em sua ideia. Estava quase se arrependendo, mas pensou na sua longa vida sem fazer nada mais ousado. Não custava fazer algo diferente, somente aquela vez. Então, as duas mataram o tempo assistindo a um filme de terror até dar o horário da festa, mas sem imaginar o que poderia acontecer nessa festa. ** - É só agarrar o galho, Lia – Helena tentou falar baixo do gramado. Lia nunca havia pulado uma janela, não como Helena, que fazia sempre que podia, só para ver o céu à noite. Lia estava com o corpo todo tremendo, e não se movia da sacada. - Vamos Lia, por favor! – Chamou Helena, tentando falar o mais baixo possível. Já sentia que estaria encrencada, se continuassem ali no jardim. Sua mãe poderia sair em breve e vê-las tentando fugir para uma festa – Vou desistir dessa festa. - Ok! Vou pular – Lia tomou um impulso e se agarrou ao galho, tentou ir para frente, e conseguiu chegar à base da árvore, porém, não contava que poderia se desequilibrar e cair. - Ai! - exclamou Lia. Ela havia caído de costas no chão. - Vamos Lia, você gritou alto demais. Sempre acontece isso na primeira vez que se desce – Helena tentou puxar Lia do chão. - Você é louca? Quase quebrei minhas costas. E se ficar paraplégica ou quem sabe pior – Lia se levantou e tirou a sujeira de barro e folhas do vestido preto – Não paguei barato nesse vestido, é o último da coleção... - Tá! Já entendi, vamos agora – interrompeu Helena. Puxou Lia pelo braço e saíram pelo portão dos fundos. Olhando de fora, a casa era comum, como todas do bairro. Grande e de dois andares. Mas aquela era a casa onde Helena cresceu, onde deu seus primeiros passos, onde sua mãe cozinhava as melhores tortas de maça e seu pai mostrava as estrelas para ela com o telescópio da família. Eram seus melhores dias. - E aí, sua mãe está escrevendo aquele novo livro... do que é mesmo? – indagou Lia, enquanto as duas davam a volta na quadra. - De receitas, Lia, receitas. As famosas receitas dela, você não viu ela na TV? – respondeu Helena. - Ah, não vejo tv. Você sabe como é – Lia deu de ombros. As duas apressaram o passo e chegaram na casa de Simon. Ele já estava na sua picape velha, esperando por elas. - Lia, venha, pode sentar do meu lado – Simon falou, tentou jogar seu charme. - Nem pensar, nerdizinho - Lia empurrou Helena antes dela para entrar no carro. - Tudo bem então. Vou ficar com Helle, ela gosta mais de mim – Simon tentou fazer um cara de cachorro pidão. - Não vem com essa! Vamos sair daqui agora – disse Lia, com sua voz de megera. Esse era o seu melhor. Os três caíram na gargalhada. Simon ligou o rádio, deixando tocar músicas pop. - Isso é horrível, por que está deixando rolar esse som? - perguntou Lia, indignada. - Para ficarmos no clima de festa – Simon deu de ombros. - Pode ir mais rápido? – perguntou Helena, enquanto passavam por sua casa. Seu estomago estava se revirando. O mau estar por mentir para sua mãe estava a consumindo como febre de 40 graus. - Não esquenta, gata. Já saí escondido de casa e ninguém me pegou – tranquilizou Simon – Se andar comigo, vai dar tudo certo pra você. - Oh, loiro azedo, para de se achar a última bolacha do pacote – Lia disse com sarcasmo – Tira esse óculos, você está estranho. - Okay, querida ! – ele tirou, entregando para Helena, que guardou dentro do porta luva. - Por que vocês não podem ser normais? – indagou Helena, rindo. - Nós não somos normais, somos incríveis – disseram juntos. A viagem transcorreu tranquila. Os três chegaram à praia e estacionaram perto do aglomerado de carros que estavam no acostamento. - Isso que é festa! – exclamou Simon, saindo do carro. Tentou ajudar Lia sair, mas ela só o empurrou para o lado. Helena nunca virá algo parecido com isso, só em filmes. Era uma festa cheia de adolescentes, tanto do colégio onde ela frequentava e pessoas que ela nunca tinha visto. Alexia havia organizado uma grande festa, com um bar com bebidas e mesas com para poder sentar e comer. Havia também uma fogueira, onde a maioria das pessoas estava na fogueira tocando violão e ao fundo estava tocando música eletrônica. Era digna festa de um rei. Rei esse que era pai de Alexia, Steven Mason. Ele era um dos empresários mais influentes daquela região. - Provavelmente foi o Sr. Mason que fez essa festa toda. Precisa aumentar sua popularidade em mil – zombou Simon, enquanto caminhava até o bar. - Lógico que foi. Com o dinheiro que é dado para a presidente e a vice do conselho estudantil, impossível fazer isso tudo - acompanhou Lia. - Pessoal, vocês vieram! – exclamou alegre uma voz atrás deles. - Oi Alexia – disse Lia. - Sério, estou feliz. Queria incluir todos aqui, apesar dos protestos de Alicia – comentou Alexia, enquanto ajeitava seu cabelo platinado atrás da orelha. Alta e esbelta, tão bonita como a Sra. Mason era no colegial. Tinha o tom de pele artificialmente bronzeado e os olhos azuis esverdeados. Era a deusa em pessoa. - Claro, claro, a gente entende – ironizou Simon. - Pessoal, por favor, sirvam-se a vontade, é open bar hoje – disse Alexia, ignorando a alfinetada. Ela se virou e foi se juntar ao um grupo de atletas e garotas de torcida. - Sério – disse Lia, enfiando o dedo na boca – Ela é uma enjoada. A voz dela irritante. É de matar. - É de matar mesmo – disse Simon, com malicia. Lia bateu na cabeça dele. - Por que fez isso? – reclamou Simon, massageando a cabeça. - Isso é pra você parar de ser tão pervertido. Helena riu de canto, indo até o bar improvisado debaixo de uma tenda. Pegou uma soda para tomar. - Só uma soda? – perguntou o garçom. Ele era alto e moreno, assim como os surfistas da praia. - Só isso, tem algo errado? – perguntou Helena, com inocência. - Bem, e que você está em uma festa – ele comentou, se encostando ao balcão para ficar mais perto de Helena – Devíamos colocar um pouco de vodca nessa soda. - Eu não gosto de vodca – disse Helena, confusa. - Você nunca experimentou para saber – enquanto falava, brincou com uma mecha castanha do cabelo de Helena. - Ei, Pierce, não tem o que fazer? – exclamou Lia. - Oi Lia! Você está espetacular hoje – Pierce se endireitou e sorriu para ela. - Obrigada, agora para de aliciar minha amiga aqui – Ela pegou o braço de Helena e já estava se afastando do bar quando se lembrou de algo importante – Cadê o James e Elliot? - Eles estão com um rapaz estranho – respondeu Pierce, apontando para a multidão de gente na fogueira – O cara estava vestido de esporte fino na praia. Qual é a dele? - Não sei, mas vamos descobrir agora – disse Lia, com um olhar diferente do usual. Parecia gostar de desvendar mistérios e se isso envolvesse garotos, era algo que se deliciava. - Cuidado com a garota fatal – brincou Helena. - É hoje ela está para matar – Simon entrou junto na brincadeira. - Vocês dois, fiquem calados – Lia levou o indicador aos lábios - Temos que entrar com classe. Os dois riram, enquanto Lia desmanchava o coque e deixava seus cabelos caírem em ondas acinzentadas com rosa choque sobre os ombros. Ela era de uma beleza exótica. Olhos igualmente claros igual do irmão, mas de um tom verde água. A pele bronzeada do sol da Califórnia se destacava como os cabelos. Tão diferente de Helena e Simon, que eram quase transparentes devido a excessiva vontade de fugir do sol. - Boa noite pessoal – cumprimentou Lia, indecorosamente para os três rapazes um pouco afastados da fogueira. James levantou os olhos de sua bebida cor âmbar e encarou sua irmã com descrença. - Lia – James se dirigiu até ela. - Oi mano. Oi Elliot – ela acenou para o irmão e Helena. Ele sorriu e foi até ela para abraça-la. - Você veio. Achei que não ia conseguir tirar Helle de casa – ele olhou para sua irmã – Helle, não beba nada do que eles servirem aqui sem que alguém esteja junto com você. Aqueles barmans são muito esquisitos. - Ah! Alguém podia ter me avisado antes – ironizou Helena, cansada de estar naquele lugar. - Calminha nervosa – Lia apertou o ombro da amiga, olhando com advertência – Olha, o que temos aqui. – Ela deu uma boa olhada no rapaz a sua frente. Era de altura mediana, com cabelos escuros, quase pretos, jogados para trás em um topete moderno. Os olhos eram igualmente escuros, pareciam pretos naquela noite. Ele era o rapaz das roupas de esporte chique que Pierce havia mencionado. Ele estava vestido com uma camisa preta e blazer igualmente preto. A calça era de lavagem escura com botas de couro preto. Lia deu alguns passos para frente e falou: - Veio de onde, rapaz? - Londres, mi lady. Você é? – ele se aproximou e beijou sua mão. Os lábios eram tão frios que congelaram o calor que vinha de Lia. - Me chamo Lia Spencer, irmã de James Spencer – Lia respondeu sem parecer desconsertada. - Ora, vocês dois são bem parecidos. Diria que tem o mesmo senso de humor – ironizou, com um leve sotaque britânico. - É, somos muito parecidos– James falou com sarcasmo, indo para cima do rapaz. - Calma rapazes, vamos curtir a festa. Não é necessário violência – interrompeu Simon, entrando entre James e o rapaz misterioso. - Elliot, não vai me apresentar a essa jovem? – O rapaz perguntou, tomando a mão de Helena, sem parecer afetado com a raiva de James. - Ah, claro, essa é Helena, minha irmã, como havia falado. Mas pode chamar de Helle, é apelido dela – respondeu Elliot, tranquilamente. Ele parecia alheio as farpas que James soltava com os olhos. - Prazer Helena – o rapaz se inclinou para beijar a mão dela. Helena sentiu uma onda elétrica percorrer seu corpo, pelo simples toque dos lábios em sua pele. – Meu nome é Ward, Daniel Ward, mas pode me chamar de Daniel. - Prazer Daniel – respondeu ela, desconsertada, sem entender o motivo da onda elétrica que passou por seu corpo. - Okay! Podemos agora ir para fogueira, está ficando frio aqui – comentou Simon, sem jeito. - Você não devia estar aqui Helle. Nem você Lia – disse James, ignorando o pedido de Simon. - Calma, eu cuida da minha irmã. Estava na hora de Helle sair, a vida atrás das cores não é melhor do que a real – brincou Elliot apertando o ombro de James. - Soube que você é uma grande pintura, Helena – comentou Daniel. - Ah, sim, eu p***o e desenho – respondeu Helena. Ela tentou olhar nos olhos de Daniel, mas parecia difícil, eram tão escuros como a noite – Contudo, não acho que eu seja uma grande pintura como você diz. - Eu não diria isso – ele disse, oferecendo o braço para ela. Helena aceitou, pois o magnetismo dele parecia impedi-la de recusar – Vamos caminhar e ver essa noite maravilhosa e você me conta um pouco mais. James cerrou os punhos, mas não pode fazer nada, pois Helena já estava indo com o rapaz. - Deixa-a viver, James – falou Lia, apertando o braço dele – Ela quase não sai de casa para fazer algo assim. - Ah! Claro – falou rispidamente – Vou deixa-la para os lobos da noite. - Chega de briga e vamos à fogueira, pelo amor dos deuses? – disse Simon, tremendo de frio. - Vamos, loiro azedo – Lia puxou Simon pelo braço, com James e Elliot em seu encalço.
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