Capítulo 1
Ele colocou um lenço de seda escuros, para vendar os olhos dela e a empurrou para a cama, com a mão espalmada nas costas dela. Ela estava rígida, é claro. Não era algo que sua amante estava acostumada a fazer.
- Robert, o que você está tentando fazer? - ela perguntou, receosa - Sabe que não gosto de brincadeiras desse tipo. Eu gostaria de poder vê-lo.
- Shh - ele pediu, colocando os dedos sobre os lábios dela. Eram carnudos, pintados de vermelho sangue - Quero que você fique quieta e me obedeça.
- O quê? - ela exclamou, indignada e se levantou, desamarrando a venda e jogando-a no chão. Seus olhos verdes estavam chispando de raiva - Eu não vou fazer isso. Nem pense que gosto dessas coisas estranhas que você faz, Robert. Você vai a essas festas, cheias de depravação. Sou uma amante, mas tenho meus limites.
Ele suspirou, cansado. Não era como se ele fosse bater nela, ou praticar algum ato sadomasoquista, mas, havia gostado de usar a venda com outra mulher, em uma festa que seu amigo havia promovido, no campo, em Sussex. O conde de Ashbourne era um homem peculiar. Todos os chamavam por Ashbourne, mas só ele poderia chamá-lo de amigos e por seu nome. Tristan gostava de ler poesia de Byron, além de ter gostos exóticos, incluindo promover festas onde todos poderiam usar máscaras, sem se reconhecer. Ele sabia selecionar seus convidados para essas festas, para o caso de uma mulher casada cruzar com seu marido. Fora em uma dessas festas que Robert encontrou lady Cavendish. A viúva de Cavendish gostava de usar o lenço e parecia gostar muito mais de restringir o toque dele em seu corpo. O que era algo que Robert apreciava.
Mas, pelo rosto constrito de Anne Marie, sua amante loira e exuberante, ela não havia apreciado nada.
- Eu vou embora Robert. Eu acho que você precisa se tratar - ela disse com a voz cortante - Eu sei que sua mãe está doente, mas desde que ela piorou, você vem tendo ideias estranhas e não vou mais querer sua proteção dessa maneira.
Ela se afastou e ele segurou o braço dela, com raiva.
- Não se atreva a falar de minha mãe, Anne, ou juro que será a última coisa que você irá dizer - ele ameaçou.
Ela arregalou os olhos verdes claros, receosa e depois deu um sorriso cínico.
- Você é um depravado, lorde Klyne. É isso que você é. Sua mãe deve ter ficado doente, pois sabia o que você se tornaria - ela provocou.
Ele a empurrou com força e ela cambaleou para trás, sentando-se sobre a cama de dossel. Riu sarcasticamente, sem se abalar, mas havia medo nos olhos de Anne Marie. E ele percebeu o que havia feito. Nunca ferira nenhuma mulher em sua vida, nem ao menos empurrara, ou segurara com força. Havia passado dos limites naquele momento e estava disposto a pedir perdão a ela, mesmo Anne tendo o irritado muito. Mas, não precisou. Ela se levantou, altiva, ajeitando suas saias de seda verde.
- Eu nunca mais quero vê-lo, milorde. Espero que não me procure - ela disse, com a voz ríspida e passou por ele.
- E muito menos eu, Anne Marie Petit - ele dissera, enquanto escutava os saltos dela batendo sobre o piso.
Ele se deitou sobre a cama, em seus lençóis de seda branco, mas sentia o corpo inteiro dolorido e tenso. Aquele dia estava pior. Havia começado péssimo e agora perdera uma amante preciosa. Não a amava, é claro. Mas, Anne Marie sabia que nunca seria mais nada para ele, a não ser uma amante. E sabia como agradá-lo. Fazia dois anos que estavam juntos e ela não o cobrava, nem havia se apaixonado por ele. O que era bom. Não iria querer uma mulher o infernizando, tentando pedir seu amor, pois ele não tinha um coração para dar. Não quando seu coração pertencia a outra mulher.
- Anne - ele sussurrou, apertando a seda escura entre os dedos, sentindo um cheiro floral, aproximando o tecido do rosto, sentindo a fragrância dela.
Era seu perfume. Ele sabia qual era a essência favorita dela. Jasmim e violeta. Combinava com a delicadeza dela. Com seus olhos azuis primaveris e com seus cabelos loiros e sedosos. É claro que a tola o escurecera. Para que, ele não compreendia. Anne Williams era uma puritana, que não desejava ser vista. Ela presava pelos bons costumes e não tinha um fio de ganância em si. Uma mulher que ele nunca vira, em nenhum lugar. Talvez, por isso, ele se apaixonara. Pois, Anne o havia visto. Trocado cartas com ele, durante tanto tempo. Havia sido dele por um dia. Não imaginava que ao se deitar com ela, poderia sentir tantas emoções dentro de si e ser surpreendido. Nada o surpreendia mais. Nenhuma mulher lhe despertava interesse real e nunca sentiu seu corpo clamando por uma daquela maneira, nem seu coração e mente. Não conseguira dormir, depois que ela se fora. E passou a procurar moças volupiosas, de cabelos loiros, de preferência com olhos azuis e com um olhar inocente. Não encontrou o que buscava com elas, enquanto Anne trabalhava na casa de sua prima, Loreta. Por isso, a troca de cartas incessante, durante aqueles dois anos.
E bem, agora ela já estava casada com seu primo, Henry Collins. Maldito e sortudo Henry, que conseguira o coração da única mulher que havia despertado Robert, para o que, ele ainda não sabia. Não poderia ser amor, pois não acreditava nisso. Nunca acreditou. Mas, paixão, sim. Anne despertara a fome dentro de si, a paixão insaciável.
Tentara fazer algo novo com as mulheres que se deitara, para obter prazer o máximo possível, inclusive usando vendas ou as vendando, amarrando-as em suas camas ou ordenando que elas o obedecessem sem questionar. Era algo que Ashbourne havia dito que seria agradável e poderia tirá-lo de seu enfado quanto as relações carnais. Robert não tentara com muitas, pois temia ficar doente, ou contrair uma doença. Ele não era t**o. Seu pai havia morrido por sífilis, não sem antes enlouquecer. Não, ele não queria, muito obrigado.
Por isso, perder Anne Marie era um problema. Sua amante era confiável e tinha lealdade para com ele. Não que ele tivesse por ela. Mas, ele pensava muito antes de se encontrar com outras mulheres. Preferia sempre uma mulher casada, ou viúva. E que pelo menos garantisse que não havia se deitado com outro homem. Ele não poderia afirmar, é claro, que isso era verdade, quando elas insistiam que nunca haviam se entregado a mais nenhum outro homem a não ser seus maridos. E até o momento, Robert passou ileso. Contudo, não teria tanta sorte assim, se continuasse com suas depravações. Ele sabia disso. E Anne Marie o fez rever sua vida. Cheia de prazeres e belas mulheres, que o desejavam por sua aparência e riqueza. Pelo que ele poderia oferecer. Nunca pelo que tinha dentro de si. E ele fazia as escolhas iguais, quanto a elas. Não desejava uma conversa franca, apenas um instante de prazer, para entorpecer sua mente, assim como Devon fez com o ópio, morrendo pelo uso excessivo.
Jenkins era um dos fornecedores de ópio, que fornecera a Douglas o que ele queria, o matando no processo. E isso o fez perder seu clube, além de ser extraditado por ser estrangeiro na Inglaterra. Um homem irlandês, que conseguira enganar a todos, com suas origens. Pembroke, irmão de Douglas, havia feito o favor a Robert de retirar Jenkins da jogada. Ninguém iria ameaçar sua família. Ele amava Henry e gostava do garoto selvagem, Erik. Fizera isso por eles, para que pudessem ficar seguros. Até mesmo pela maldita Anne, que não saia de sua mente. E então, os dois se casaram. Henry e Anne. Era um casal bonito, realmente eram o par perfeito. Eles tinham um bom coração, eram generosos e se amavam. E Robert percebeu, no dia do casamento deles que nunca teria aquela relação singela, onde um daria a vida pela outro. Não, de jeito nenhum aquilo iria acontecer. Quem iria querer um homem com uma mãe problemática e com um passado obscuro pairando sobre si?
Tolices, eram tolices apenas. Robert se levantou da cama, esperando que a noite acabasse rapidamente. Ele não iria se embebedar de novo. Não quando já havia feito isso na noite anterior e quase cometera o pior erro de sua vida. A senhorita Harrison estava lá para zombar dele. E ela até que era encantadora sobre o luar, nos jardins privados da mansão do seu primo Jasper. Sussex era belíssima na primavera. E a senhorita Harrison parecia ter desabrochado aquela noite, como uma rosa inglesa. Não era loira, de fato, mas ruiva. Seus olhos castanhos eram expressivos e enérgicos e apesar disso, o rosto em formato de coração dela suavizava sua expressão severa. Ela era adorável, de fato. E por ele ter tomado uma garrafa de whisky sozinho o dia inteiro, para aguentar aquele maldito casamento, fingindo que tudo estava bem. Por que não estaria? Henry maldito montara um hospital psiquiátrico com a ajuda dele e com a de Jasper, até outros amigos deles estavam apoiando a causa filantrópica. E sua mãe teria um tratamento digno. Era bom. A vida era boa.
Mas, de fato, não era, não para Robert.
♫
1 de março de 1855, casamento de Anne e Henry Collins.
Se havia algo Robert não apreciava era um whisky de má qualidade. Ele buscava o melhor em tudo. Seu dinheiro poderia comprar muitas coisas que desejasse. É claro que ele não poderia ter tudo, como comprar a Inglaterra, mas seus negócios eram rentáveis, o que lhe proporcionava ter quase tudo que desejava. E no momento, era apenas um bom whisky. Mas, ele se contentou em entrar na adega de Jasper e pegá-lo emprestado. Ele iria devolver depois, é claro.
Ele estava mergulhando em autopiedade, nos jardins, pois sabia que os convidados estavam se retirando e teria como ficar tranquilo, sem ser interrompido. Suas divagações iam de acabar com o casamento de Anne, a envergonhando e levando um soco de Henry, o que seria excitante. Ele queria brigar. Desejava sentir o gosto do sangue em sua boca e acertar o rosto de Henry, até ficar deformado. Mas, seu primo não deveria sofrer sua ira. Como ele poderia ser culpado pela paixão que Robert sentia por Anne? Ela havia deixado claro que nunca poderia retribuir seus sentimentos por ele. Estava muito claro. Sempre esteve. O problema era que Robert havia fechado os olhos para a verdade. Ele acreditou que poderia conquistá-la, depois manipulá-la e por fim, separá-la de Henry, para que ela fosse infeliz. Percebeu que nenhum dos seus planos havia de fato funcionado. E que era um bastardo.
Ele entornou a garrafa pelo gargalo, sem usar um copo. Sentiu a bebida queimar sua garganta e seu estomago, amortecendo sua boca, depois o restante do seu corpo. Estava relaxando. E gostava disso. Sentou-se em um banco de pedra e começou a fitar o céu pontilhado de estrelas. Queria poder estar morto, assim não teria que estar ali. Mas, a visão do céu era algo reconfortante. Era algo que fazia com sua mãe ficasse calma, quando ela estava lucida. E feliz. Antes que seu pai trouxesse a vergonha para a família deles, morrendo de sífilis e ela descobrisse que havia sido traída por tanto tempo, ela era muito feliz. Ele não sabia se o colapso nervoso dela havia sido causado por isso. Mas, a partir daquele dia, ela havia se tornado alguém distante. Não respondia mais a ele com racionalidade e dizia ver seu pai, andando pelos corredores, chorando e protestando por estar morto. E que sua cova era fria e gelada. Além de reclamar de dores insuportáveis. Robert ficara tão preocupado na época com estado mental de sua mãe, que não sabia o que fazer por ela. Tentou vários médicos, até que não pode mais rete-la em casa. Ela havia simplesmente fugido, apesar da supervisão que os criados tinham sobre ela. Ele a encontrou, depois de dias, vagando perto das margens do rio Tamisa. A partir daquele dia, ele precisou interná-la e fora sua pior decisão, pois ela não era tratada com respeito naquele hospital. Então, Henry, se empenhou em ajudá-lo, até mesmo conseguiu trabalhar no hospital e descobrir como eram as condições dos pacientes. Infelizmente, Robert e Henry sabiam que as condições de um hospital psiquiátrico sempre seriam insalubres. Ninguém parecia disposto a mudar isso. Era o que se acreditava que seria de melhor na medicina. Mas, Robert estava convencido de que não. Não para sua mãe. E ter ajudado Henry a construir outro hospital para ajudar essas pessoas com problemas mentais era algo que estava ajudando de fato a todos os envolvidos. Henry cuidava de tudo com diligência. E sua mãe estava segura. Era isso que importava. Robert só desejava que ela pudesse voltar para casa. E não sofresse mais.
Passos foram escutados sobre o cascalho. Alguém estava vindo e ele não pode se esconder mais. Ele olhou para trás e pode ver por cima do ombro uma sombra se aproximando, contornando a mansão e passando por entre as árvores. Era uma figura miúda, coberta por uma capa. Robert largou a garrafa sobre o banco e se esgueirou por entre as arvores próximas e ficou olhando qual seria o próximo passo daquela figura misteriosa. Ela se afastava mais e a touca que cobria a cabeça dela caiu entre os ombros, revelando longos cabelos cacheados. Ele não sabia dizer a cor, mas sabia que tinha cabelos indomáveis. Ou era Janet ou a senhorita Harrison. Ele não sabia o que estava fazendo, quando se moveu rapidamente para interceptar quem quer que fosse, que estava indo em direção ao lago, há quinhentos metros da propriedade. Se aproximou da figura, segurando-a por trás e sussurrou:
- O que uma criatura como você está fazendo aqui fora?
Era uma mulher. Ele sentiu sobre o aperto do seu braço, abaixo dos s***s dela. E ficou estranhamente e******o. O cheiro de laranjeira invadiu suas narinas, o inebriando. Ele conhecia aquele perfume. A senhorita Harrison recendia a aquele perfume, mais cedo. Robert queria se afastar dela, pois sabia que a jovem era irritante, opiniosa e diabolicamente bonita. Era demais para ele enfrentar, em um dia péssimo como aquele. Mas, não se afastou. Seu corpo estava gostando da proximidade do corpo dela. E adoraria tê-la debaixo de si e provar seus lábios rubros e pequenos.
- Milorde? – ela murmurou, com o corpo retesado – Me solte.
Ele deveria fazer isso, é claro. Mas, algo naquela noite o estava deixando selvagem, sem quaisquer modos cavalheirescos. Além do fato de ser improprio uma jovem sair a noite, com os cabelos soltos e caminhando para algum lugar que não deveria ir. Ela era uma dama, afinal. E deveria preservar sua reputação. E ele nunca estivera com uma dama virginal, nem ao menos sequer cogitou isso, nem se aproximou. Era algo que não desejava de maneira alguma, pois não queria problemas, nem casamento.
- E se eu não soltar? – ele sussurrou no ouvido dela.
Sentiu que ela estremeceu sobre seus braços.
- E vou gritar se não soltar – ela respondeu, em tom cortante.
- Ó, mas se gritar, vai chamar a atenção de todos que estão hospedados essa noite na casa de lorde Bedford. E não queremos chamar a atenção? Queremos?
Ela bufou. Sabia que não poderia cumprir a ameaça. Se alguém os visse, pensaria o pior. Pensaria que ela fora maculada, que sua reputação fora destruída. Ele teria que se casar com ela e se não fizesse isso, a senhorita Harrison seria uma paria. Todos em Londres iriam saber o que havia acontecido naquele jardim, mesmo não tivsse acontecido nada, de fato. A reputação era algo importante para todos, inclusive para Robert, que zelava pela sua. Não era um libertino declarado e gostava de ter sua imagem impecável. Mas, era impossível, devido ao seu pai e seu passado. Todos o veriam como um homem depravado, mesmo ele tentando provar que não era. Apenas gostava de ter prazer, como todos os cavalheiros. Qual era o problema daquela sociedade puritana que via tudo com maus olhos todos seus passos?
- O que você quer? – ela perguntou, insolente.
Ele a virou para si, encarando o rosto dela, em formato de coração. Ela era adorável sobre o luar. Tão pura e virginal. Queria provar seus lábios e manchá-la. Assim como ele já estava manchado. E não negava, ela o irritava tanto, sempre que se encontravam, que desejava calar sua boca com um beijo possessivo.
E fora exatamente isso que fizera. Aproximou os lábios dos dela, testando, primeiro. Sentindo-a enrijecer sobre seus braços, depois relaxar. Ele passou a língua por entre os lábios dela, fazendo-a entreabria-los e vasculhou sua boca com sua língua, avido para sentir o sabor dela. Para sentir algo que não fosse sua própria dor e desespero. Ela ofegou e retribuiu o gesto, timidamente, tremula sobre seus braços. Ele gemeu em sua boca, sentindo que estava no paraíso, pois o gosto dela era algo que nunca havia provado. Era inocência pura. E gostava disso. Queria ensiná-la a se soltar, ser desinibida, como ela já se mostrava, quando era insolente com ele. Sentiu algo estranho em seu peito, uma vontade de protegê-la de tudo. E isso o fez abraçá-la e acariciou os cabelos indomados delas, aprofundando seu beijo, tornando o mais íntimo possível. Seu corpo doía de desejo por ela e aproximou-a mais dele. Ela ofegou novamente, mas permitiu, passando os braços por seu pescoço. Era isso. Ele a queria e iria tomá-la ali mesmo. E esse pensamento o fez refrear seu ato.
Separou-se abruptamente dela. Ela tropeçou para trás, com o rosto assustado. Os lábios inchados. Com certeza vermelhos devido ao beijo. Ele a queria muito mais agora, vendo a bagunça que fizera dela. Os cachos delas estavam desarrumados e sua roupa amarrotada. Mas, ele não queria fazer isso, de fato. Mesmo que seu corpo traidor quisesse. Não iria tomar a inocência de uma jovem. Não como seu pai já fizera tantas vezes e se vangloriava de dizer isso a ele, enquanto ele fingia não ouvir. Não era esse tipo de homem.
- Eu... – ela balbuciou.
- Esqueça o que houve aqui – Robert disse, com a voz rouca. Não se lembrava como falar, mas precisava colocar seus pensamentos em ordem – Eu peço seu perdão. E peço que volte para dentro da casa.
Ela enrijeceu. E cruzou os braços. Era visível que não faria o que ele estava pedindo. E teria que forçá-la a fazer.
- Eu não vou a parte alguma, senhor – ela recusou, irritada – Eu vou aonde quiser e o senhor não irá me impedir. Mas, antes de ir, quero saber o que diabos tinha em sua cabeça por me beijar dessa maneira.
Ela perguntava isso? Como poderia perguntar, se também se entregou com prazer a ele?
- A senhorita estava aqui no momento errado e a na hora errada. Eu só fiz o que tinha vontade, quando vi que é uma mulher que pode me dar o que desejo – ele estava sendo um crápula, mas era isso que precisava passar a ela. A ideia de que apenas fizera isso, pois estava saciando uma vontade carnal. Na verdade, ele jamais faria isso com outra mulher, se a visse em um jardim, a não ser que ela pedisse e se ela despertasse seu interesse. O que ele não queria admitir era que a senhorita Harrison mexia com ele. E que ele queria beijá-la há muito tempo – Agora, volte para dentro, antes que sua reputação seja realmente danificada. E não pense que eu irei salvá-la disso.
Ela bufou. Um som adorável, ele pensou. E pensou que a bebida deveria estar fritando seus miolos por pensar que ela era adorável.
- Eu não vou a parte alguma. O senhor é um homem odioso – ela cuspiu as palavras, com a voz tremula e irritada – Eu não sei por que me permiti beijá-lo. Eu devia estar em um acesso de loucura. Deveria saber que não poderia me aproximar de um depravado e libertino, como o senhor.
Sempre escutara aquilo e nunca se abalara. Mas, sentiu que isso o abalou, mesmo não querendo admitir.
- Pouco me importa o que a senhorita pensa de mim. A senhorita veio até os jardins de forma sorrateira, sem pensar nas consequências. E se não tivesse me encontrado aqui? Eu ao menos tenho a decência de não a macular, como outros homens poderiam fazer. Poderiam forçá-la e deflorá-la.
Ela engoliu seco, apertando os punhos.
- O senhor me enoja – ela disse, com rispidez – Nenhum homem que está residindo aqui hoje faria isso.
Ele deu três passos até ela e segurou pela cintura.
- É muito tola – ele disse, fitando-a nossos olhos e sentindo o olhar dela queimá-lo. Estava o julgando severamente. Mas, isso não importava para ele, talvez, só um pouco – Acha que um homem não pode sucumbir a você? Eu duvido muito que esses convidados não anseiem e pôr as mãos em uma belezinha como você. Tem sorte de ter sido eu, mas nem todos os cavalheiros pensam como eu – estava exagerando, é claro. Sabia que qualquer cavalheiro convidado por seu primo não faria isso. Apesar de que existiam homens assim. E ele sabia disso, muito bem. Homens que tinha atitudes deploráveis, que tomavam a força mulheres que não queriam suas atenções – Tenha claro em sua mente, minha querida, que nem todos os homens são honrosos com as damas, inclusive aquelas que saem sorrateiramente a noite de suas casas.
Ela se soltou do aperto dele, o empurrando pelo peito. Ele permitiu, pois não iria segurá-la a ali. O que queria dizer, já estava dito. Iria erguer um muro entre eles, para que ela o odiasse e não desejasse sua presença. Além de não repetir a loucura de sair a noite, sozinha, para sabe-se Deus aonde.
- Pode ter certeza, milorde, que guardarei suas informações – ela disse, com sarcasmo – E que jamais me esquecerei de que homens como você são crápulas.
Ela se afastou e voltou para dentro da mansão. Robert pode ficar calmo. Mas, não se sentia assim. Algo desconfortável se formava em seu peito. Um sentimento de que não queria que ela o desprezasse. E isso era estranho.