Murilo Costa
O relógio marcava quase meia-noite, mas eu não estava nem perto de encostar a cabeça no travesseiro. No meu apartamento no centro do Rio, cercado por relatórios, mapas e um laptop que brilhava na penumbra da sala, eu fazia o que sabia fazer de melhor: caçar informações.
A mesa estava cheia de arquivos. Fotos, relatórios de operações antigas, anotações que fiz ao longo dos anos sobre o homem que se tornou meu principal objetivo: o Barão. Durante muito tempo, ele foi só um nome nos corredores do batalhão, mas agora era pessoal. Minha investigação particular estava avançando, e cada nova peça que encaixava me aproximava dele.
No laptop, abri um dossiê que compilei nas últimas semanas. Tinha detalhes sobre a movimentação dele, seus contatos e, principalmente, sua base na Rocinha. O morro era praticamente uma fortaleza, com armamento pesado e seguranças que não vacilavam. Entrar lá seria suicídio... a menos que eu encontrasse uma forma diferente de atingir o coração dele.
Foi quando encontrei uma foto que ainda não tinha visto. Uma garota, no máximo uns 23 anos, de cabelos ondulados e longos, pele morena e tatuagens que apareciam no braço e no ombro. Estava de vestido branco e óculos escuros, saindo de um carro importado. A legenda ao lado da imagem não deixou dúvidas: Luana Monteiro, 23 anos. Filha única do Barão. Estudante de Enfermagem na UFRJ.
Olhei para a foto por alguns segundos, absorvendo a informação. Uma filha. Não era algo que eu esperava. Sempre imaginei que o Barão fosse o tipo de homem que não arriscaria criar uma família, vivendo no mundo sujo em que vive. Mas lá estava ela, vivendo uma vida de luxo apesar do caos ao redor.
Comecei a pesquisar mais sobre ela. Redes sociais, notícias, qualquer coisa que pudesse me dar um panorama da vida que levava. Era surpreendente como ela conseguia ter uma rotina aparentemente normal. Estudava em uma das melhores universidades do país, tinha amigas, um carro caro e, pelo que parecia, evitava se envolver diretamente nos negócios do pai.
Mas havia algo mais que eu percebi ao ler as entrelinhas. Luana era a chave. Não apenas por ser filha dele, mas porque, talvez, se eu conseguisse me aproximar dela, poderia abrir brechas no império do Barão.
Fechei o laptop, me recostando no sofá. Era arriscado, pra dizer o mínimo. Eu sabia que cruzar a linha entre meu trabalho e minha vingança era perigoso. Mas era algo que eu já tinha decidido há anos: eu faria o que fosse preciso.
Peguei a foto dela novamente. Aqueles olhos não tinham culpa do que o pai era, mas eu não podia me dar ao luxo de sentir empatia. O Barão precisava cair, e se ela fosse o meio mais rápido pra isso, eu usaria sem hesitar.
— Talvez seja por você que ele vai perder tudo... — murmurei, deixando a foto sobre a mesa.
Era uma ideia que ainda precisava amadurecer, mas eu sabia que estava no caminho certo. Quanto mais próximo eu chegasse dela, mais perto eu estaria de destruir o homem que destruiu minha família.
Recostei no sofá novamente, o notebook ainda aberto na mesa. O plano começava a ganhar forma na minha cabeça. Me aproximar de Luana parecia ser a brecha que eu precisava. Mas, pra isso, eu teria que ser cuidadoso. Qualquer movimento m*l calculado poderia colocar tudo a perder.
Peguei o celular e abri o i********:. O perfil dela era aberto, o que facilitava as coisas. Comecei a rolar pelas publicações, analisando cada detalhe. Fotos com amigas, algumas na faculdade, outras em festas ou almoços de família. Parecia ter uma vida normal, quase como se fosse só mais uma garota carioca aproveitando a juventude.
— Quase — murmurei, lembrando de quem ela realmente era.
Era impressionante como ela conseguia equilibrar duas vidas. Filha do maior traficante do Rio de Janeiro, mas, ao mesmo tempo, uma estudante que parecia alheia a tudo isso. Algo nela chamava atenção, além do óbvio. Talvez fosse o jeito descontraído nas legendas ou o sorriso genuíno em algumas fotos. Não dava pra negar: ela sabia esconder o peso da vida que levava.
De repente, me deparei com os stories do dia. Toquei para avançar pelas postagens: uma foto da faculdade, uma selfie no carro... e então veio uma foto dela de corpo inteiro. Ela usava uma saia jeans curta e uma blusa mostrando a barriga e tomara que caia, revelando mais tatuagens espalhadas pelo corpo e um piercing no umbigo.
Por um momento, me peguei analisando o quão bem desenhado era o corpo dela. Ela tinha uma postura confiante, algo que transparecia em cada detalhe, ela é gostos@, não dá pra negar. Balancei a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Não podia me deixar levar por isso.
— Foco, Murilo — murmurei para mim mesmo.
Voltei para o perfil dela, olhando as postagens mais antigas. Era curioso como ela não parecia ter medo de expor sua rotina, mesmo vivendo na sombra de alguém como o Barão. Talvez ela estivesse tão acostumada ao perigo que já não via razão para se esconder.
Resolvi tomar um passo adiante. Peguei meu celular de novo, mas, dessa vez, usei uma conta pessoal. Um perfil que criei anos atrás, desvinculado da polícia ou de qualquer coisa oficial. Segui Luana por lá, esperando não chamar atenção.
Depois de passar mais algum tempo analisando as redes sociais dela, fechei o notebook e fui até o banheiro. A água quente do chuveiro caía sobre mim, e enquanto lavava o rosto, minha mente continuava girando em torno do plano. Era arriscado, mas a chance de pegar o Barão valia qualquer risco.
Terminei o banho e me enxuguei rápido. O relógio já marcava quase meia-noite. Peguei uma bermuda e uma camiseta qualquer e me joguei na cama, cansado. Antes de tentar dormir, peguei o celular mais uma vez.
Abri o i********: e enquanto olhava alguns stories. Para minha surpresa, havia um novo story de Luana, postado há poucos minutos. Uma foto do balcão de um bar — garrafas de bebida ao fundo, copos espalhados, e uma legenda despreocupada:
"Só os fortes aguentam."
Observei os detalhes. Não era difícil reconhecer o lugar. O bar ficava a menos de dez minutos do meu apartamento, um desses botecos mais sofisticados que viraram febre no Rio.
Parei por alguns instantes, pensando. Essa poderia ser minha chance de começar uma aproximação. Não seria fácil, mas se eu aparecesse lá, poderia criar alguma conexão, puxar assunto de forma casual. Ela não precisava saber quem eu realmente era.
Sentei na beira da cama, avaliando as possibilidades. Seria arriscado, mas parecia um sinal. Eu estava cada vez mais convicto de que me aproximar dela era o caminho mais rápido para atingir meu objetivo.
Levantei, voltei ao armário e peguei uma calça jeans mais alinhada e uma camisa preta. Não queria chamar atenção, mas também precisava parecer o mais natural possível. O coração batia acelerado enquanto me preparava. Essa era a primeira etapa de um jogo perigoso, e eu sabia que não haveria margem para erros.
— Vamos ver onde isso vai dar — murmurei, saindo do apartamento em direção ao bar.