Noah
Existem dois tipos de sangue.
O sangue que você vê.
E o que você sente.
O primeiro escorre, gruda, seca. O outro… permanece. Cravado sob a pele, nas memórias, nos sonhos. E este último — esse maldito sangue invisível — é o que me mantém acordado noite após noite.
E hoje ele voltou a escorrer.
A missão era simples.
Patrulhar o setor externo da rede subterrânea. Observar qualquer movimentação suspeita. Voltar com informações, não com corpos.
Mas é sempre assim.
Eles mandam com palavras frias. A realidade devolve com fogo.
Lia quis vir comigo. Disse que queria aprender, se tornar útil. Disse que não tinha medo.
E, por um momento, eu acreditei que poderíamos sair juntos e voltar inteiros.
Estúpido.
Idiota.
Porque quando ouvi o estalo do primeiro disparo, o corpo dela colado no meu, o grito sufocado no ar, percebi que não importa o quanto eu tente afastá-la — o mundo vai tentar tomá-la mesmo assim.
E eu matei.
Antes mesmo de pensar, já estava sobre o primeiro invasor. Um saqueador com olhos vidrados e cheiro de morte. A faca que enterrei em seu pescoço fez menos barulho que os passos de Lia correndo para se esconder.
O segundo veio com uma marreta improvisada. Desviei. Disparei duas vezes. No peito. Na cabeça. E ainda assim, ele caiu sorrindo.
Eles não têm mais alma. Só sobrevivência.
E eu me tornei igual.
O terceiro era só um garoto.
Dezesseis, talvez. Magro. Apavorado.
Mas armado.
Ele me viu.
E hesitou.
Eu não hesitei.
A bala atravessou o peito dele como manteiga quente.
Ele caiu com um som que me perseguiu por anos.
Porque foi o mesmo som.
O som da minha mãe batendo no chão da cozinha, aos gritos. O som do meu pai gritando por silêncio enquanto eu, escondido sob a mesa, cobria os ouvidos com as mãos sujas de sangue.
Eu tinha sete anos quando descobri que amor podia matar.
Meus pais eram fogo e pólvora. Explodiam por qualquer coisa. E eu era o estopim mudo.
Lembro de uma noite em particular.
Chuva forte, trovões, minha mãe bêbada, meu pai sem emprego.
Gritaram. Sempre gritavam. Mas naquela noite ele pegou a faca.
E eu assisti.
Eu assisti meu pai enfiar a lâmina no braço dela com tanta facilidade que pareceu um ato ensaiado.
Ela gritou. E caiu.
Eu gritei também. E fui atingido.
Não com a faca.
Com a verdade.
A verdade de que eu era fraco demais pra protegê-la.
Fraco demais pra me proteger.
Naquela noite, sangrei também.
Na pele.
Na alma.
E prometi que nunca mais seria fraco.
Lia me encontrou sentado entre os corpos.
Ela correu até mim, suja, assustada, mas viva.
— Você está bem? — perguntou, ajoelhando-se ao meu lado.
Eu queria responder. Dizer que sim. Que estava tudo sob controle. Mas não estava.
Minhas mãos tremiam. Meu peito arfava como o de um animal encurralado.
Ela olhou em volta.
Viu.
Entendeu.
E mesmo assim, tocou meu rosto.
— Você me salvou.
Quis gritar com ela. Quis dizer que não havia salvação ali. Que o que ela via era um homem programado pra matar. Um homem que não hesita. Que vê ameaças até em sombras.
Mas não consegui. Porque a voz dela era como morfina no caos.
Ela me puxou pra si. Me envolveu num abraço que me quebrou.
Eu chorei.
Chorei como o garoto de sete anos que ainda se escondia dentro de mim, esperando por alguém que dissesse: “Você está seguro agora.”
Mas eu nunca estive.
Nem estarei.
Voltamos horas depois.
Suados. Sujos. Silenciosos.
Ela não me soltou durante o caminho. E eu deixei.
Deixei porque o corpo dela perto do meu era a única âncora me impedindo de afundar completamente. O perfume da pele dela — mesmo misturado a fuligem e medo — era o único cheiro que ainda me lembrava de que eu sou homem. E não uma arma.
Chegamos à ala sul da base subterrânea. Ela entrou no pequeno cômodo improvisado que dividimos desde que chegamos. Eu fiquei do lado de fora.
Como um cão sem dono.
Sem coragem de atravessar a porta.
Porque o que eu vi em mim hoje… o que ela viu… não pode ser esquecido.
Eu não quero vê-lo refletido nos olhos dela.
Quero o olhar de antes.
O olhar de desejo, de ternura contida, de confiança cega.
Mas não mereço nenhum deles.
Sinto o gosto do sangue seco nos lábios. O sangue do garoto.
Do menino que não teve chance.
Como eu.
Como tantos.
Minhas mãos ainda estão sujas.
Mesmo depois de lavá-las até rasgar a pele.
Horas depois, ela saiu.
Sem falar nada.
Só parou à minha frente.
E me olhou.
— Eu não estou com medo de você, Noah.
Tentei rir.
Saiu como um soluço.
— Devia estar.
— Você acha que é um monstro porque fez o que precisava? Porque me protegeu?
— Eu não hesitei. Nem por um segundo. — minha voz sai baixa, rouca, cansada. — Isso é o que me assusta.
Ela se aproxima.
— Não é a primeira vez que você mata.
Assinto.
— Mas é a primeira vez que eu matei por algo que importa.
Ela toca meu peito.
— Eu não quero te mudar, Noah. Só quero que você entenda que o que você fez hoje não te afasta de mim.
— Mas e o que eu sou?
Ela ergue o rosto. Os olhos dela queimam.
— Você é minha guerra. Minha paz. Meu caos e meu abrigo.
E eu… eu desabo.
Porque não sei como receber esse tipo de amor.
Não depois de uma vida inteira sendo punido por precisar dele.
— Fica comigo hoje? — sussurro.
Ela sorri. Não aquele sorriso inocente. Mas o que diz “eu já sabia que ia acabar aqui”.
Ela me puxa.
E, quando deitamos juntos naquele colchão maldito de um mundo quebrado, percebo que, pela primeira vez, alguém escolheu ver minhas cicatrizes — e ainda assim me tocar com ternura.
Mas mesmo ali, com a respiração dela no meu peito e o calor da perna dela sobre a minha, eu sei:
O sangue ainda está em mim.
E talvez nunca saia.
Mas por ela… por nós… talvez eu aprenda a viver com ele.