Lia
A entrada para a cidade subterrânea fica atrás de um túnel coberto por escombros e ferrugem, no que restou de uma antiga estação de metrô. Noah encontrou o caminho. Ou melhor, ele farejou. Como se soubesse que algo — ou alguém — estava ali embaixo esperando.
E estava.
Gente.
Muita gente.
Mais do que eu pensei que ainda existisse neste mundo estéril e doente.
Corpos em movimento. Olhos atentos. Mulheres armadas. Crianças em silêncio. Homens com cicatrizes profundas demais para serem recentes. Uma sociedade improvisada debaixo do solo, movida a geradores, esperança e uma liderança tão firme quanto autoritária.
Noah se encaixou. Como se já tivesse pertencido. Como se estivesse voltando para casa.
Eu tentei sorrir, fingir alívio. Tentei parecer grata, participativa, útil. Mas por dentro, um buraco começou a se abrir.
Porque assim que os olhos dele se cruzaram com os de Reena, eu soube. Ela também já o conhecia. Ou pelo menos, queria que ele se lembrasse.
Reena era tudo o que eu não conseguia ser nesse novo mundo.
Alta, ágil, cheia de presença. Olhos cortantes, cabelos raspados de um lado, tatuagens do outro. Usava uma calça de couro preta que fazia suas pernas parecerem armas. E ela falava com Noah com uma familiaridade que me deixava doente.
— Acha que foi sorte nos encontrarmos aqui de novo? — ela disse, os olhos brilhando.
— Sorte ou castigo. Ainda não sei. — Noah respondeu, com aquele meio sorriso que ele raramente usava comigo.
Meu estômago virou.
A parte infantil e ferida dentro de mim queria gritar. A parte treinada e fria tentou racionalizar. Mas ambas ficaram em silêncio enquanto eu observava os dois conversando na ala norte, perto do depósito.
Ela tocou o ombro dele. Ele não recuou.
Aquilo foi pior do que se tivessem transado na minha frente.
Porque era permissão.
E ele nunca me deu isso. Nem mesmo depois da noite em que meu corpo se abriu pra ele. Depois da noite em que ele me teve como se eu fosse o último pedaço de humanidade que lhe restava.
E desde então... silêncio.
Frio.
Afastamento.
Não em gestos bruscos, mas nos detalhes.
No jeito como ele evita meus olhos quando conversamos. No modo como responde só o necessário. Na falta do toque.
Ele me deixou nua naquela noite. E seguiu como se nada tivesse sido real.
Mas eu sou real. E eu senti.
— Você parece tensa. — disse Mari, uma das mulheres do grupo, enquanto separava grãos e frutas secas em potes reaproveitados. — E não é só por causa do abrigo novo.
A encarei de lado.
— Está tão óbvio assim?
— Não precisa ser óbvio. Todas aqui estão observando. E todas conhecem Reena.
— Ela é... próxima dele?
Mari suspirou.
— No antigo grupo, sim. Eram parceiros. De missão. De cama. Às vezes dos dois ao mesmo tempo.
Fechei os olhos por um instante. Fazia sentido. Ele não me devia explicações. Mas minha pele queimava mesmo assim.
— Ele mudou muito? — perguntei, engolindo a própria insegurança.
— Mudou. Ficou mais... calado. Mais solitário. Depois que perdeu um dos garotos que estavam com ele... Ele nunca mais foi o mesmo.
A culpa. Sempre ela. Assombrando Noah como um amante ciumento que nunca larga o osso.
— Você gosta dele? — Mari perguntou, direta.
— Não sei o que é gostar nesse mundo. Mas ele... — respirei fundo — ele faz meu corpo lembrar que ainda estou viva. E isso tem um preço.
Mari assentiu. — Então cobre o que é seu.
Encontrei os dois mais tarde, perto da entrada de ventilação, em uma sala improvisada com lanternas e mantas jogadas no chão.
Reena estava rindo. Noah sorrindo. Me senti invisível. De novo.
Mas não dessa vez.
Entrei sem bater. Sem hesitar.
— Noah. Precisamos conversar.
Ele me olhou. O sorriso se desfez. As costas se endireitaram.
Reena ergueu uma sobrancelha, mas se afastou.
— Tudo bem, Lia? — ele perguntou, como se fosse só mais uma noite comum. Como se ele não tivesse me feito gozar com o corpo inteiro e depois me abandonado no vazio.
Me aproximei. Cada passo um insulto à minha própria dignidade. Mas não importava. Eu não ia me calar.
— Você me olhou diferente naquela noite. Me tocou como se eu fosse a última coisa boa nesse mundo fodido. Me tomou como se nunca mais fosse soltar.
— Lia...
— Não. Agora você escuta.
Ele ficou em silêncio.
— Desde então, você me trata como uma estranha. E agora está aqui, com uma mulher que claramente conhece seus ossos e sua pele, sorrindo como se fosse fácil esquecer.
— Não é isso...
— Então me diz o que é.
Ele passa a mão pelos cabelos, os olhos escurecendo.
— Eu estou tentando te proteger.
— Da Reena?
— De mim.
Dou uma risada amarga.
— Que conveniente. Me tem. Depois se arrepende. Depois finge que é pra me proteger.
Ele se aproxima. Os olhos brilham com fúria. Com culpa. Com algo entre desejo e desespero.
— Você não entende, Lia. Você é o que resta de bom em mim. E eu não sei amar o que é bom. Eu quebro. Sempre quebro.
— Então tenta não quebrar. Tenta ser meu, p***a. Nem que seja só por enquanto. Porque, se você não for, eu preciso saber. Agora.
O ar entre nós se torna estático.
Ele me encara por longos segundos.
Depois, baixa os olhos.
— Eu quero você. p***a, como eu quero. Mas não sei se consigo ficar.
— Então não prometa. Mas não fuja.
Ele respira fundo.
— Eu vou tentar. Por você.
— Por nós.
Ele me puxa para um abraço. Rígido. Quente. Necessário.
E pela primeira vez em dias, sinto que talvez... só talvez... eu ainda tenha algum controle sobre o meu destino.
Mesmo embaixo da terra. Mesmo cercada por escuridão.
Mesmo com uma mulher como Reena esperando na curva.
Porque o que eu tenho com Noah pode não ser eterno. Mas é real.
E isso... Isso é mais do que a maioria de nós pode pedir.