*Ponto de vista de Lian*
—Me deixa quieto Lewis, não estou de bom humor.— Falei para meu irmão que estava parado em frente à minha mesa no escritório do hotel.
—E por acaso alguma vez na vida você está de bom humor, Lian? Faz uns dois anos que não te vejo sorrir, cara. Vamos, é nosso aniversário de 20 anos, vamos comemorar, nem precisa ser numa festa, pode ser um restaurante chato daqueles que você gosta, chama o pai e a mãe.
—Não tenho nada para comemorar. — Falei irritado tentando terminar uma bendita planilha cheia de macros, o que me irritava mais ainda quando não funcionava.
—E se a Helena também fosse? —Meu irmão apelou.
—Me deixa em paz, Lewis. —Respondi, mas uma pequena faísca de esperança apareceu ao ouvir o nome dela, acontece que a minha irmã estava do outro lado do oceano…ela era a única que me entendia, mas tinha me deixado há dois anos por uma aventura maluca de intercâmbio internacional.
—Só pensa no assunto, ainda é cedo, dá tempo de chamar todo mundo para um jantar, e depois é claro, vou festejar com meus amigos, mas quero comemorar com você também, você sabe que eu te amo, né cara?
—Me ame menos Lewis, esse seu temperamento artístico tão intenso as vezes me deixa maluco, sabia?
—Eu sei, mas você me ama mesmo assim. — Ele falou saindo e não consegui evitar um leve sorriso.
É claro que eu amo meu irmão gêmeo, primeiro porque olhar para ele me lembrava a pessoa que um dia eu fui, seus olhos azuis brilhantes e seu cabelo preto bagunçado o faziam parecer uma versão mais jovem de mim que agora usava o cabelo arrumado e muitas vezes óculos escuros para esconder meus olhos.
Mas ele nem imagina o segredo que guardo, será que ele ainda vai me amar se souber o motivo de eu estar sempre introspectivo e m*l-humorado? O motivo para as pessoas me temerem tanto aqui no hotel Rubi mesmo eu sendo tão jovem?
Faz dois anos que percebi o que estava acontecendo comigo, foi quando decidi trabalhar com meu pai no hotel da família, focar no curso de administração enquanto aprendia na prática com o melhor, porque sim, Lucas Montez é o homem do ano, o premiado melhor administrador de hotéis da cidade e eu quero ser como ele, em todos os sentidos. Ele é um homem justo, leal e extremamente competente além de um marido e pai amoroso.
Minha mãe trabalhava com ele, mas quando eu e meu irmão nascemos, ela optou por trabalhar de casa como consultora para poder estar mais perto de nós, depois veio a Helena e éramos três para ela cuidar, então era mesmo melhor fazer seu próprio tempo no trabalho. Minha mãe também é incrível, sempre sabe o que dizer e o que fazer, mesmo nas situações mais inusitadas.
Eu queria poder contar a ela sobre o que me consome há tanto tempo, ela ia saber o que dizer, mas tenho medo, medo da minha família ruir quando souber a verdade a meu respeito, a pessoa horrível que eu sou.
Foi melhor mesmo a Helena ir para longe, ela também ia se decepcionar comigo se soubesse, e eu não suportaria isso. Minha irmã é tudo para mim, desde que a conheci há anos na casa da Anne e do Leo, eu já era encantado com ela e olha que eu tinha uns dois anos de idade, mas minha mãe diz que foi “amor à primeira vista” que eu e Lewis adotamos Helena antes mesmo de meus pais a adotarem.
O silêncio persistia no escritório, apenas o zumbido do computador quebrava a quietude daquele ambiente. Suspirei passando a mão pelos cabelos. Eu sabia que precisava resolver meus problemas, mas a ideia de confrontá-los era paralisante. Talvez, só talvez, se eu pudesse encontrar uma maneira de se abrir com alguém, mesmo que fosse apenas um pouco, o peso em meus ombros diminuiria. No entanto, a insegurança me dominava, e me prendia em minha própria mente.
Eu vivia em uma constante escuridão enquanto Lewis era a luz, onde ele chegava havia uma alegria contagiante e eu, parecia carregar o peso do mundo nas costas o tempo todo. Não tinha amigos, trabalhava muito e quando não estava trabalhando ou estudando, estava com meu violão em algum lugar isolado, normalmente algum parque.
A música era a única coisa que me fazia sentir um pouco mais leve, e na música eu extravasava todo o meu sentimento pois, embora eu jamais pudesse colocar em palavras, eu conseguia colocar nos acordes do meu violão tudo o que estava dentro de mim. Algumas vezes até deixava algumas lágrimas caírem enquanto eu tocava.
Eu estava ali refletindo quando a tela do meu celular acendeu, era chamada de vídeo da minha madrinha Clara, que era a verdadeira mãe da Helena… digo… deixa para lá, isso é uma longa história. Mas, antes de tudo, Clara trabalhava aqui mesmo no hotel Rubi junto com a minha mãe, elas se tornaram amigas e minha mãe pediu para Clara ser minha madrinha, a e a tia Anne, melhor amiga da minha mãe, é a madrinha do Lewis, o que tem tudo a ver, já que o casal lá é tão movido à arte quanto meu irmão, deve ser por isso que ele e Will, o filho deles, se dão tão bem apesar de Will ser um pouco mais velho, artistas se entendem, não é mesmo?
Atendi a chamada e vi minha madrinha diante da câmera com o rosto abatido, ela estava pálida e parecia estar com alguma dor aguda que tentada disfarçar com um sorriso quando atendi.
—Filho! Eu queria te desejar um feliz aniversário. —Ela tossiu um pouco após o esforço de falar e comecei a ficar preocupado com o que estava acontecendo do outro lado da chamada.
—Obrigado Madrinha, você está bem? —Não consegui disfarçar a preocupação.
—Filho… preciso te pedir uma coisa…cuida da Helena, ela vai precisar de você. — Ela disse enquanto lágrimas escorriam.
—Mas… por que está dizendo isso, o que está acontecendo? — Comecei a me desesperar. — Por que eu? Porque não os meus pais ou o Lewis, eles se dão tão bem.
—Você sabe por que Lian, pode não querer aceitar, mas eu estava lá há dois anos, e eu sei de tudo. — Ela falou e eu fiquei estático olhando para a tela enquanto processava a revelação que ela acabara de fazer.
—Meu Deus, você sabe… e ainda assim me pede para cuidar dela? Não me acha uma pessoa horrível? — Perguntei incrédulo.
—Escuta aqui Lian. — Ela pareceu reunir as últimas forças para me dar aquela bronca, olhou séria pela câmera e parecia estar olhando no fundo dos meus olhos quando continuou — Eu conheço pessoas verdadeiramente horríveis e você não é uma delas, aliás, sabe por que eu estava lá aquela noite?
—Por quê? — Perguntei num sussurro.
—Porque se você não tivesse chegado antes, eu teria feito exatamente o mesmo que você fez. Só não deixe isso escurecer seu coração, filho, se não ele terá vencido. — Ela voltou a tossir e depois continuou falando com voz mais fraca. — Promete cuidar dela?
—Mas…
—Eu sei do que você está com medo…eu ouvi o que ele te falou aquela noite, Lian, mas não é verdade e a Helena precisa de você, mais do que nunca.
—Por favor, madrinha, o que está acontecendo? - Eu a vi perder o restante da cor, fechar os olhos e depois o celular caiu no chão.
Comecei a chamar por ela de forma desesperada, mas só passei a ouvir passos de pessoas entrando naquele lugar que parecia uma sala, algumas pessoas conversando e dizendo que ela ia ser levada para a UTI da base, o que será que isso significava? Que base era essa? O que estava acontecendo com minha madrinha e porque Helena ia precisar de mim tanto assim?
Eu ia desligar quando ouvi uma voz do outro lado da linha.
—Lian?
—Quem é? —Respondi preocupado.
—Eu não deveria estar falando com você então, essa conversa nunca aconteceu, certo?
—Certo— Me limitei a responder.
—Ela está ferida e perdeu muito sangue, por isso desmaiou enquanto falava com você, está fraca, mas ficara em observação em uma UTI, não precisa se preocupar.
—Obrigado, mas…quem é você?
—Giovanni, trabalho com ela e com o André, agora escuta, a Helena está voltando para o Brasil, vou te enviar uma mensagem com um número que você só deve usar em caso de alguma emergência com ela, caso contrário, apenas a mantenha longe de confusão e teremos alguém sempre por perto também.
—Eu não estou conseguindo entender, me desculpa. — Falei um pouco nervoso.
—O André está desaparecido, e como Clara está hospitalizada, precisamos que você se responsabilize pela Helena, você pode fazer isso?
—Posso, mas… por que eu?
—Porque Clara te escolheu, Lian, ela deve ter suas razões.