Duas semanas atrás

1186 Words
*Ponto de vista de Helena* — Bom dia, diretor, o senhor mandou me chamar? — Perguntei ansiosa sabendo que se fui chamada na sala do diretor, só poderia ser a respeito de eu ter terminado os dois anos de curso e quais seriam meus próximos passos. O programa de intercâmbio dessa escola era mesmo incrível, pude aprender de tudo um pouco além de aperfeiçoar o inglês e aprender Italiano, já que a instituição tinha sede na Itália. Meu sonho desde pequena era vir para cá e ter uma conexão com meus pais que estudaram aqui, quem sabe seguir a profissão da família me fizesse mais próxima deles, fizesse eles ter orgulho de mim, me querer levar junto em suas missões. Eu não sou uma garota carente, não me entenda m*l, não me faltou amor na casa dos meus padrinhos, os Montez, eu até chamo Lucas de Pai e Lana de mãe, os meninos eu chamo de irmão ou de qualquer outro apelido que irmãos deem uns aos outros, eu tive uma ótima família, minha infância foi cercada de amor tanto pelos Montez quanto pelos Garcia, mas eu também sinto falta do meu pai André e da minha mãe Clara com quem fiquei tão pouco tempo até que eles percebessem que eu corria perigo novamente. Ah sim, digo que eu corria perigo novamente porque... fui sequestrada pela máfia albanesa quando eu era bem pequena, foi a Clara que me salvou, mas essa é uma outra história, para um outro momento. O fato é que eles preferiram renunciar à minha guarda pela minha própria segurança. Resumindo, eu vim para essa escola na esperança de estar com André e Clara, e agora era a hora da verdade, o diretor ia me dizer qual seria minha função na agência, para onde eu seria designada...essas coisas, pelo menos era o que eu imaginava. — Sente-se Helena. —Ele disse me olhando sério. O diretor da escola era um homem mais velho chamado Roger, dizem que ele foi um grande agente, que esteve envolvido em tantas missões que conhece praticamente todo mundo do meu círculo de amizades, e isso inclui até os mais distantes como a Anne, o Leo, a Carol e o Edu que moram em Curitiba enquanto eu, cresci em Belo Horizonte... eu queria muito saber essas aventuras todas... afinal, parecia que todos estávamos conectados de alguma forma. A sala era até aconchegante apesar dos móveis escuros e da pouca luz, não sei por que sala de diretor tem que parecer sempre escura e opressiva, talvez seja para deixar os alunos pouco confortáveis mesmo. Logo ele começou a falar e seu tom não me agradou. — Vou ser direto, Helena, você é uma ótima garota, inteligente, altruísta, gentil... —Mas? — Eu o interrompi sabendo que aquele não era um bom início de conversa quando se trata de trabalhar com espionagem... afinal essas não são bem as características principais de um espião. — Mas exatamente por isso, você não se encaixa no nosso programa, você é digamos... boa demais para nós. — Ele foi tão gentil que não consegui ficar com raiva, mas a frustração tomou conta de mim. — O que isso significa então. —Deixei os ombros caírem demonstrando toda a decepção que eu estava sentindo. — Ah querida, você vai voltar para o “mundo real” e vai poder fazer a diferença a seu modo, você tem muito a oferecer. — Ele falou com gentileza e logo uma professora bateu na porta e entrou. A Elissa era excelente professora, perspicaz e direta, ela era filha de uma grande agente chamada Hanna, conhecida como a rainha do café (longa história), sabe aqueles agentes de quem a gente só ouve falar? Eu tinha ouvido muitas histórias, e respeitava Elissa ainda mais por isso, ela e Giovanni eram meus professores favoritos, e juro que os dois combinam, na verdade tenho quase certeza que fora daqui eles são um casal, só não contam pra ninguém. — Pois não? — O diretor olhou de um jeito para Elissa que me fez desconfiar que eles não eram apenas colegas de trabalho, desconfiei mais ainda quando ela falou direta. — O senhor pode reconsiderar sua decisão? — Eu não sabia se era a meu respeito que ela estava falando. —Você sabe que não posso, querida. — Ele respondeu, escorregando com esse “querida”, mas minha curiosidade foi saciada quando ela insistiu. —Por favor vovô. —Ela fez uma carinha daquelas de criança quando pede sorvete. Arregalei os olhos e os dois me olharam, Elissa fez que não com a cabeça, sinal de que era para eu esquecer aquilo que tinha ouvido e eu concordei com a cabeça também. — Não Elissa, já está decidido, agora pode ir. — Ele falou apontando para a porta e ela me olhou com tristeza antes de sair. Pareceu que ela havia tentado interceder a meu favor, para que eu fosse aceita e serei sempre grata por essa atitude dela, mas parece que acabou mesmo. — Então é isso? Arrumo minhas coisas e vou embora? — Perguntei com tristeza. —Sim Helena, foi um prazer te conhecer, Clara e André devem ter muito orgulho da pessoa que você se tornou. — Mas não sou boa o bastante. — Falei frustrada. — Pelo contrário, como eu disse, você é boa demais. — O Diretor disse estendendo a mão para mim, eu apertei sua mão e fui para meu quarto arrumar minhas coisas. Acho que esqueci de mencionar, essa escola funcionava em um antigo castelo, era enorme, dava para se perder dentro dela, o que aconteceu muitas vezes no começo, mas agora eu conhecia até as passagens secretas, e foi uma delas que usei para chegar até a área dos quartos sem esbarrar em ninguém. Arrumei minhas coisas e quando eu já estava terminando, Giovanni apareceu para me buscar. —Vou te levar até seus pais. — Ele disse com semblante triste. Assenti com a cabeça e o segui em silencio. Viajamos horas, eu até dormi, perdi a conta na verdade de quanto tempo demorou, mas no fim, chegamos em uma casa no sul da França, curiosamente eu tinha memórias daquela casa, eu já havia estado ali quando era bem pequena. ­—Chegamos. —Giovanni disse me tirando dos meus pensamentos, onde eu tentava resgatar aquela memória. —Obrigada Professor Giovanni. — Falei e ele assentiu com a cabeça, ele não conversava muito, era o jeito dele e eu já havia me acostumado. Desci do carro, me aproximei da casa e então vi meu pai na varanda, não consegui conter as lágrimas quando corri para ele largando as malas pelo caminho, me senti uma criança novamente, ansiando pelos braços do pai. Ele me abraçou com todo amor do mundo, e sentir seu abraço, junto com o cheiro característico do seu perfume me fez sentir em casa, mesmo que no final das contas, minha verdadeira casa, há muito tempo, fosse no outro lado do oceano, junto com os Montez. — Precisamos conversar, querida. — Ele disse quando se afastou do abraço, seus olhos também estavam marejados.
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