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2363 Words
Dulce Edgar me tirou da cozinha às pressas e levou-me até um corredor vazio, para onde ninguém mais estava indo. Ele não me explicou nada e apenas pediu que eu não saísse dali e o aguardasse por alguns instantes, logo depois disso, ele se foi.  Poucos minutos depois, Daniel apareceu. Seu rosto iluminou-se ao olhar para mim e eu poderia imaginar que eu estava da mesma forma.  — Era você quem queria me ver? — perguntei.  — Sim. Eu preciso falar com você. — ele disse. — Estou aqui, pode dizer o que quiser. — meu coração já palpitava rapidamente e eu tinha esperanças de que esse fosse um encontro com boas notícias.  — Queria poder me despedir devidamente de você. — e o sorriso curto que eu carregava se desfez. — Quando você descobriu que eu iria me casar, ficamos tão abalados que foi impossível ter um final digno. Eu queria poder dizer adeus tendo a certeza que não existem mais mágoas entre nós.  — Confesso que eu achei que isso não fosse acabar. — desviei o olhar. — Você me pegou de surpresa.  — Você sabe que não podemos mais ficar juntos. — relutante, eu assenti devagar. — Posso te dar um último abraço?  — Não. — ele me olhou desapontado. — Você pode me dar um último beijo. — Daniel arqueou as sobrancelhas em surpresa. — Eu sei que isso pode ser inadequado, mas eu preciso de um último beijo antes que eu aceite que não haverão outros.  Ele aproximou-se de mim e eu escorreguei minha mão para dentro da sua, olhando atentamente para os seus olhos, sentindo toda a energia que nos cercava ficar ainda mais intensa.  Daniel aproximou seu rosto do meu e num toque macio e singelo, beijou-me da melhor forma que sabia fazer. Usando seus braços para envolver o meu corpo, ele mergulhou naquele beijo sem medo, com todo o vigor que havia em si.  Eu usei minhas mãos para tatear a sua face, segurando o seu rosto de forma que eu pudesse senti-lo mais de perto, me causando arrepios indescritíveis.  Quando nossas bocas afastaram-se, eu senti algo pesar em mim. Aquele foi o último beijo e eu ainda não me sentia satisfeita. Nem todo o tempo do mundo o beijando seria o suficiente para que eu conseguisse dizer adeus.  — Então, acho que é isso. — ele disse, com um semblante triste. — Você vai ficar bem?  — Por hora, não muito. — suspirei pesadamente. — Mas eu prometo que vou tentar. Nós dois tivemos bons momentos juntos e eu vou fazer com que essas boas lembranças me tragam apenas bons sentimentos.  — Eu preciso que você fique bem. — segurou minhas mãos. — Eu a amo mais do que já amei qualquer outra mulher.  — Eu também o amo e também preciso que fique bem. — pousei minha mão sobre o seu rosto. — Será difícil não tê-lo comigo.  — Dulce, você me perdoou?  — Sim. — sorri fraco. — Não guardo mais aquela mágoa. — Obrigado. — sorriu de lado.  — Daniel? — Edgar retornou. — Precisa ir agora.  — Adeus, Dulce. — abraçou-me, enterrando seu rosto em meus cabelos.  — Adeus, Daniel. — sorrimos um para o outro uma última vez, então ele deu as costas e saiu.  — Você está bem? — Edgar me perguntou.  — Por incrível que pareça, sim. Foi como tirar um peso das minhas costas. Eu sentirei muita falta dele, mas entendo que isso não possa mais acontecer.  — Não sabe o quanto fico feliz em ouvir isso. — sorriu para mim.  — Você bem que podia me levar para assistir ao casamento. — fiz bico. — De jeito nenhum.  — Mas eu acabei de dizer adeus ao amor da minha vida. Eu não mereço um pouco de mimo?  — Te dou até um colar de ouro se quiser, mas o casamento real continua sendo apenas para convidados.  — É, eu posso aceitar o colar. — brinquei.  — Engraçadinha! — ele riu. Retornei para a cozinha e na hora que a cerimônia se iniciou, mais da metade dos serviçais se retiraram para assistir ao casamento. Eu fiquei praticamente sozinha, olhando para o teto enquanto o silêncio que se instalou invadia meus ouvidos.  As horas foram passando e aquela cerimônia parecia que não teria um fim nunca. Já impaciente, eu saí da cozinha e comecei a caminhar em direção ao salão de festas onde tudo acontecia.  Assim que fiz menção de entrar no local, Edgar surgiu e impediu-me.  — O que? Estava esperando por mim? — revirei os olhos.  — Estou apenas no meu posto. — respondeu. — Eu disse que você não iria poder vir.  — Por favor, ninguém vai me ver aí dentro. A cozinha está vazia, é muito chato ficar lá sozinha.  — Dulce, se quiser eu fico lá com você. — suspirou.  — E vai abandonar a sua função? — arqueei a sobrancelha. — Que m*l há em eu assistir? — lá dentro, ouvimos ser anunciado o fim do casamento e o início da cerimônia de coroação.  — O casamento já aconteceu, agora você já pode ir. — segurou o meu braço.  — Mas e a coroação? — soltei-me do braço dele e tentei ir em direção à entrada novamente, mas Edgar segurou a minha cintura.  — Dulce, eu não quero ter que ser duro com você. Por favor, facilite as coisas e volte para a cozinha!  Ouvimos o barulho de algo cair no chão e Edgar olhou para trás, em direção às serviçais que haviam derrubado um caldeirão de ensopado cheio.  Aproveitei aquela distração e corri para dentro do salão, que estava tão cheio que eu tive que me esgueirar entre as pessoas para conseguir chegar até um local favorável.  Finalmente me vi em um lugar onde eu tinha uma boa visão da coroação que acontecia.  O príncipe e a princesa estavam de costas para o povo e eu cheguei bem no momento em que príncipe Christopher estava sendo coroado como rei.  — Em nome de Deus e com o testemunho de seus súditos, eu o consagro como rei Christopher de Seráfia. — e então, o bispo ergueu a coroa dourada e a pousou sobre a cabeça do nosso então rei.  As pessoas começaram a aplaudir freneticamente e quando Christopher virou-se para acenar, o meu coração gelou e por um momento, eu achei estar tendo uma vertigem.  Aquele rosto certamente não era o rosto que eu esperava ver. Ele não era quem eu esperava encontrar sendo coroado. Aquele era o Daniel, o nobre guarda real que eu conheci debaixo de uma macieira, o homem de quem eu havia me despedido a poucas horas, aquele que eu achei que nunca mais tornaria a me magoar.  O barulho da multidão que o ovacionava pareceu ficar cada vez mais longe e eu comecei a ouvir um zumbido alto em meu ouvido, estendendo-se cada vez mais, como se a qualquer instante minha cabeça fosse explodir.  Ele acenava para as pessoas sorridente. E apesar daquele sorriso ser sincero, em seus olhos era possível enxergar uma sombra de tristeza que pesava sua expressão. Ele não estava alegre de verdade, estava apenas fingindo. O bispo iniciou a coroação da princesa, da qual eu não prestei atenção em nenhuma palavra. Meus olhos estavam fixados em Christopher, que se mantinha sério assistindo a coroação de sua esposa.  — Dulce! — Edgar veio até mim. — Não era para você estar aqui! — ele me olhou desapontado. — Eu sinto muito por tudo isso, juro que queria que você soubesse antes e de outra forma.  Eu estava tão atônita que nem dei atenção ao que Edgar disse. A confusão em minha cabeça me deixou atordoada, sem ter muita noção do que estava acontecendo.  — Todos saúdem o rei e a rainha! — o bispo proferiu e quando os dois recém coroados começaram a andar pelo tapete vermelho no meio dos súditos, todos se curvaram.  — Dulce, curve-se! — Edgar puxou o meu braço para que eu abaixasse junto com ele.  Enquanto todos estavam com seus rostos virados para o chão, eu mantive o meu olhar nos dois que caminhavam diante de todos. Era inacreditável que eu tivesse mesmo me envolvido justamente com o príncipe. Era uma coisa tão surreal que eu m*l conseguia medir o quão errado isso era.  Quando eles passaram por mim, Christopher virou a cabeça na minha direção, como se sentisse que estava sendo observado. E então, seu rosto ficou pálido, ele ficou ainda mais sério do que já estava e um toque de pânico tomou conta do seu rosto.  Parei de me curvar e fiquei devidamente de pé, o encarando igual ele fazia comigo.  — Dulce, o que está fazendo? — Edgar segurou o meu braço e começou a me levar para fora dali.  — Edgar, por que deixou ela entrar? — Maitê saiu do salão logo atrás de nós.  — Eu não a vi entrando! — ele se defendeu.  — Vem, você precisa ficar longe de tudo isso. — ela segurou minha mão e nós três fomos até a cozinha.  Quando entrei, sentei-me em uma das cadeiras e Maitê me trouxe um copo de água que eu segurei por longos segundos até racionar direito e bebê-lo.  — Como se sente? — Edgar perguntou. — Você não disse uma única palavra. — continuei em silêncio, olhando para o nada e com a mente ainda confusa demais para decifrar como eu me sentia.  — Ela está em choque. — Maitê deduziu. — Quando se der conta de tudo, vai ser horrível, já estou imaginando. — ela pousou sua mão sobre meu ombro. — Eu vou estar aqui ao seu lado, lembre-se disso. — ergui meu olhar e a encarei bem.  — Você sabia. — eu disse. — Sabia esse tempo inteiro e não disse nada.  — Dulce... — a interrompi.  — Eu não a questionei sobre o casamento porque achei que você correu para me contar assim que soube, mas não era bem assim. Você sabia desde o início que ele estava mentindo sobre quem era, que estava me enganando! Deixou que ele prosseguisse com isso! — falei irritada.  — Não sabe o quanto me arrependo de não ter dito. É que eu criei um enorme carinho pelo Christopher e ele sempre me convencia a esperar mais um pouco antes de revelar qualquer coisa. Não estou querendo me justificar, só quero que entenda o porquê de eu ter errado com você. Perdoe-me.  — Eu tenho que pedir perdão também. — Edgar disse. — Não foi nada cavalheiro da minha parte deixar que uma moça inocente fosse tratada assim. — intercalei o meu olhar entre os dois.  — Quantas pessoas pedirão por meu perdão? Quem mais estava mentindo para mim? Christian, Angelique? — senti meus olhos encherem-se de lágrimas.  — Não, eles não sabem de nada. — Maitê falou.  — Deixe-me adivinhar... Anabel é a princesa Anahi, correto? — Edgar assentiu. — Seu nome é Edgar mesmo? — o olhei com desconfiança.  — Sim. Garanto que não menti sobre quem eu era em nenhum momento.  — Com licença? — alguém apareceu na porta e como um raio de sol, o dourado daquela coroa iluminou o ar em volta de Christopher. — Eu quero falar com a Dulce a sós. — Maitê e Edgar acenaram com a cabeça e logo depois, se retiraram.  Christopher chegou perto de mim devagar, retirou sua coroa a deixando sobre a mesa, puxou uma cadeira e sentou em minha frente, observando-me atentamente.  Mantive-me em silêncio, sentindo todo o meu desprezo pela sua imagem nascer em meu peito. Se antes eu não entendia o porquê de não conseguir odia-lo, agora essa razão estava bem clara. Eu não o odiava porque ainda precisava descobrir o pior.  — Você deve me odiar agora. — ele disse com uma calma impressionante.  — Sim. — respondi sem pensar duas vezes e ele pareceu surpreender-se, abrindo levemente a boca.  — Sim?  — Sim. — eu estava séria, com ódio demais para deixar que a tristeza me fizesse derramar uma única lágrima.  — Tudo bem, você tem esse direito. — disse de forma desconfortável. — Eu não iria contar porque queria evitar qualquer outra dor em você. Nós nos despedimos e eu estava certo de que nunca mais nos veríamos. Mas enfim, eu sou o Christopher.  — Então, você é o rei... — mordi o lábio inferior.  — Eu sinto muito por ter mentido. — fechou os olhos e respirou fundo.  — Outra grande mentira e você ainda consegue me machucar. — desviei o olhar e senti a primeira lágrima escorregar por minha face.  — Eu faria qualquer coisa para reparar o meu erro, qualquer coisa para não vê-la m*l por minha culpa. — Christopher parecia envergonhado e arrasado.  — Não há nada que possa fazer para restaurar a minha dignidade, majestade. — enxuguei meu rosto e voltei a ficar séria. — É o primeiro rei por quem não tenho respeito nenhum! — ele mirou o chão. — Espero que respeite a sua rainha e não faça com ela o que fez a mim. Se não podia ficar comigo, nem deveria ter me feito acreditar que você era o amor da minha vida!  — Eu sei... — murmurou.  — Eu sinceramente não quero vê-lo nunca mais.  — Eu compreendo. — tornou a olhar para mim.  — Eu odeio você. — falei o olhando profundamente. Vi o rosto de Christopher ficar vermelho e seus olhos encherem-se de lágrimas.  — Christopher? — Edgar entrou novamente. — A rainha está perguntando por você.  — Já estou indo. — Christopher esfregou os olhos, ficou de pé, pegou sua coroa e saiu com ela em suas mãos, sem nem sequer olhar para mim por uma última vez.  — E então? — Edgar perguntou.  — Não quero falar sobre isso. — eu disse e ele assentiu.  Ajudei Maitê na arrumação de algumas coisas na cozinha e após receber o meu pagamento, retornei para a minha casa. Lá, enfiei-me debaixo de minhas cobertas sentindo o meu corpo ser tomado por um calafrio nada comum e fechei meus olhos, com o intuito de apagar por algumas horas, podendo escapar dessa c***l realidade.
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