06

2472 Words
Christopher Retornei ao castelo e tive que ouvir um discurso interminável de meu pai sobre como um rei era responsável e não faltava aos seus compromissos. A essa altura, eu já estava cansado de rebater todas as críticas, eu só ouvia tudo em silêncio.  Quando Edgar retornou, meu pai me obrigou a treinar com ele o dobro do que era comum. Já era tarde da noite quando acabamos. Eu estava morto de cansaço e só desejava atirar-me em minha cama sem hora prevista para levantar. Estava indo em direção aos meus aposentos quando vi minha irmã, Anahí, apoiada em uma das varandas do castelo, olhando para o seu com uma expressão vaga.  — Irmã? — a chamei me aproximando.  — Ainda acordado?  — Papai me obrigou a treinar até tarde.  — Eu ouvi ele gritar com você na sala do trono. Tem que parar de ser tão rebelde.  — Eu só precisava sair. Além disso, não quero passar as minhas horas vagas lutando ou decorando o mapa econômico do reino.  — E o que mais você tem pra fazer? Faz meses que parou de caçar, já não se interessa por arco e flecha, nem quer viajar para fora.  — Eu não sei se deveria te contar. — olhei em volta, me certificando de que ninguém estava ouvindo.  — Eu sou a sua irmã, você deveria me contar tudo. — cruzou os braços. — O que está acontecendo? — Você sabe que eu não amo a princesa Eliza.  — Sei e nós já conversamos sobre isso. Você pode vir a amá-la depois da convivência.  — Pelo pouco que conheci dela, eu duvido muito. Mas essa não é a questão agora. Como não tenho nenhum sentimento por minha noiva, eu acabei me interessando por outra mulher.  — O que? — ela arregalou os olhos. — Quem?  — Uma aldeã.  — Enlouqueceu? — me olhou em choque. — Se fosse alguém da nobreza eu até entenderia, mas uma aldeã? Essas mulheres não são sujas?  — Não! — revirei os olhos. — Nunca esteve na aldeia. As coisas que ouviu dos nobres não são reais. Dulce é encantadora, tem cheiro de flores e uma beleza única. Eu daria tudo para poder investir nela.  — Mas não pode! Se realmente importa-se com essa moça, deve parar de vê-la!  — Eu sei... — mirei o chão. — Amanhã será o último dia que a verei.  — É melhor para todos que seja assim. — Olha, o que você faz acordada? — mudei de assunto.  — Eu dormi o dia inteiro e não consigo pegar no sono agora. Não há nada que uma princesa possa fazer aqui! — bufou.  — Amanhã vai haver um festival na aldeia. Quer ir comigo e com o Edgar?  — Está me perguntando se eu quero ir numa festa de aldeãos? — riu.  — Assim você pode ver que eles não são sujos e deixaria esse pensamento errado de lado.  — Vai despedir-se da mulher por quem está interessado nessa festa?  — Acho que vai ser uma boa forma de dizer adeus.  — Eu acho que ela está muito errada nessa história também. O reino inteiro sabe que o príncipe está prometido a outra.  — Na verdade... — cocei a nuca. — Ela não sabe que eu sou o príncipe.  — O que? E o que ela sabe sobre você?  — Que o meu nome é Daniel, sou um nobre que faz parte da guarda real e tenho uma maravilhosa irmã chamada Anabel.  — Anabel? — cerrou os olhos. — Acha certo mentir assim?  — Não, não acho. Por isso estou acabando com tudo. — Terei que me apresentar como "Anabel"? — fez uma careta.  — Papai não permitiria que você saísse até a aldeia sem uma enorme frota de guardas. Vai ter que sair escondida e é bom que tenha um disfarce.  — Céus...  — Não use nada muito extravagante. Anabel é uma nobre, não uma princesa.  — Terei que enrolar-me nas cortinas do meu quarto. — riu.  — Até amanhã, irmã. — eu sorri e beijei sua testa. No dia seguinte, garanti que conseguisse fazer todas as minhas tarefas o mais depressa possível. Não queria irritar o meu pai e lhe dar motivos para me obrigar a treinar por toda a noite. Naquela noite, eu iria me despedir de Dulce e não poderia faltar a esse festival de maneira nenhuma.  Depois que meu pai se recolheu em seus aposentos, Edgar me ajudou a tirar Anahi do castelo às escondidas. Minha irmã não costumava fazer coisas erradas e seu nervosismo era facilmente notado.  — Se o papai descobrir, eu estarei morta! — ela disse depois que eu a ajudei a subir em meu cavalo.  — Quem vai estar morto sou eu! — eu disse. — Sempre carrego a culpa de tudo.  — Estão falando sério? — Edgar nos olhou incrédulo. — Vocês levam uma bronca e eu sou mandado para a forca por levar a princesa até a aldeia.  — Não seja dramático, nada de r**m vai acontecer com você. — o tranquilizei.  Nós fomos direto para a aldeia, onde nós pudemos ver dezenas de pessoas reunidas na praça, em volta de uma enorme fogueira. As pessoas dançavam, cantavam e tocavam em seus instrumentos musicais. Nunca havia visto tanta felicidade em uma festa.  Suas danças não eram calmas e formais como as dos bailes. Os aldeãos pulavam, batiam palmas e até gritavam durante os passos velozes e animados.  — Uau... — minha irmã ficou boquiaberta. — É tão... diferente...  — Sim... — sorri de lado. — Vem, vamos procurar a Dulce. — eu desci primeiro e depois a ajudei a descer.  — Sabe, Christopher, eu já frequentei os bares da aldeia, principalmente aqueles com as meretrizes... — Edgar riu. — Garanto que eles fabricam a melhor cerveja que irá experimentar em toda a sua vida!  — Ótimo! — eu disse. — E seria interessante que a minha irmã tivesse sua primeira experiência com a cerveja. — nos aproximamos de um senhor cercado de barris de cerveja e eu comprei três canecas cheias.  — Está querendo me matar? — ela perguntou.  — Sem dramas esta noite, irmãzinha. — entreguei a caneca para ela. — Hoje você não é uma princesa. — Anahi me olhou com um pouco de desconfiança e deu seu primeiro gole. — Isso é horrível! — fez uma careta. — Como conseguem passar uma noite inteira bebendo esse líquido amargo?  — É simples, alteza, basta não se importar com o sabor e continuar bebendo. Uma hora vai estar tão fora de si que vai começar a gostar. — Edgar explicou.  — Ninguém vai ficar fora de si. — cerrei os olhos para ele.  — Talvez você fique quando tiver que dizer à Dulce que não vai mais vê-la. Inclusive, olha quem está ali! — ele apontou na direção de Dulce, que estava acompanhada de um homem e duas mulheres.  Assim que me viu, começou a caminhar em minha direção e eu me certifiquei de que minha irmã se lembraria que não usaríamos nossos nomes verdadeiros.  — Boa noite! — Dulce falou olhando para mim.  — Boa noite! Você está linda. — a cortejei.  — Muito obrigada. — sorriu. — Esses são os meus amigos, Christian e Angelique e essa é a minha mãe, Blanca.  — É um imenso prazer conhecê-los. Eu sou o Daniel. — cumprimentei cada um.  — Dulce falou muito de você. — Angelique disse.  — Tanto que é como se já o conhecêssemos. — Christian riu.  — Dulce me contou que vocês têm se visto no bosque. — a mãe dela disse. — O que exatamente fazem lá? — como toda boa mãe, ela estava preocupada.  — Mãe... — Dulce coçou a nuca, visivelmente tímida.  — Não se preocupe, senhora Blanca. Nós apenas conversamos, nada além disso, dou a minha palavra. — falei o mais claro possível, tentando passar o máximo de credibilidade.  — O meu irmão tem muito respeito pelas mulheres. A senhora pode ficar despreocupada. — Anahi disse. — A propósito, sou a Anabel. Já devem ter ouvido falar de mim. É um prazer conhecer a moça que bagunça a cabeça do meu irmão. — ela e Dulce deram as mãos.  — Bagunço? — Dulce franziu a testa.  — Anabel só está sendo levemente inconveniente. — a olhei com repreensão. — Ela tem a língua solta.  — Engraçado, Dulce vive falando isso de mim! — Angelique disse.  — Nós temos muito o que conversar. — minha irmã segurou a mão de Angelique e as duas foram para perto dos cantores.  — Edgar, você poderia ficar de olho nela? — pedi.  — Claro, ela levou o meu prêmio junto. — com toda certeza ele se referia à Angelique.  — Christian, acho que devemos dar um pouco de privacidade aos dois pombinhos. — a mãe dela falou. — Vamos comprar algo para comer. — os dois se retiraram, nos deixando a sós.  — A sua irmã é lindíssima! — Dulce falou.  — Sim, ela é a cara da nossa mãe. O que ela disse sobre você bagunçar a minha cabeça... não foi num m*l sentido. — desviei o olhar.  — Não pensei que fosse.  — Que bom, porque não é. — o fato de eu não conseguir parar de pensar que aquela seria a última noite, estava me deixando um tanto quanto nervoso.  — Se sente bem? — pousou sua mão em meu braço. — Precisa de alguma coisa?  — Estou bem servido, obrigado. — ergui a caneca de cerveja. — Você bebe?  — Não.  — Por que? Não gosta?  — Na verdade, eu nunca provei. — deu de ombros.  — Nunca teve curiosidade?  — Não. Meu pai dizia que cerveja é só para homens.  — Besteira! Você pode fazer qualquer coisa que um homem faz. Vem cá. — fomos até os barris e eu comprei uma caneca para ela. — Experimenta.  — Tudo bem. — ela deu o primeiro gole e diferente da minha irmã, não fez nenhuma careta. — Não é a melhor coisa do mundo, mas eu gostei.  — Sinceramente, achei que fosse odiar de primeira. — fiquei surpreso.  — Eu gosto de sabores fortes. — sorriu de lado.  As pessoas começaram a se reunir numa roda de música, onde elas dançavam no meio com muito barulho e muita alegria. Era algo bonito de se ver.  — Nunca fui à uma festa assim. — eu disse.  — E quais as suas primeiras impressões?  — Muito mais divertido do que qualquer baile luxuoso onde eu já estive. — fui bem sincero.  — Sendo assim, deveria voltar sempre. — olhei bem para ela e soltei um longo suspiro. Seria complicado disfarçar o meu desconforto. — Você parece preocupado. Quer conversar?  — Na verdade, sim. Eu preciso falar com você.  — Está bem, mas antes... — Dulce segurou minha mão e começou a me levar até a roda de dança. — Não pode vir a um festival na aldeia e não dançar pelo menos uma música.  Dentro da roda, Dulce começou a dançar em volta de mim. Ela era muito boa nos movimentos e sempre se certificava de estar sorrindo toda vez que seus olhos encontravam os meus.  No começo, eu fiquei parado, me divertido vendo a forma como ela era feliz com a vida simples que tinha. Dulce era pura, tinha um brilho extraordinário e conseguia me prender a cada gesto seu.  — Vamos, mexa-se! — ela segurou meus braços e fez com que eu a acompanhasse.  Era uma sensação única estar em meio a toda aquela energia de um povo tão simples e cheio de vontade em celebrar a vida. Nós dançamos muito, rimos muito e passamos tanto tempo naquela roda de música que começamos a suar. Ali mesmo, nós bebemos um pouco mais de cerveja e eu comecei a notar que Dulce estava ficando animada demais, não estava bêbada, mas com muita energia.  Eu segurei firme em sua cintura e nós começamos a girar juntos, nos movendo de um lado para o outro. Dulce ria como nunca e eu era incapaz de olhar para outro lugar que não fosse o sorriso dela.  — Vem! — segurando em minha mão, ela me arrastou para fora da roda, até um lugar onde estavam vendendo doces. — Você tem que provar isso! — com uma moeda de bronze ela comprou dois doces que não consegui identificar. — Come. — colocou em minha boca sem cerimônia.  — Calma! — eu ri com a boca cheia. — Hum... — mastiguei devagar, saboreando com atenção. — Muito bom!  — Não é? — sorriu. — Estou tão feliz que esteja aqui!  Ela pulou em meus braços e para a minha surpresa, certamente em influência da cerveja que bebeu, Dulce me beijou. Era a primeira vez que meus lábios encontravam os dela e aquele toque me deixou paralisado no começo, tentando organizar os meus pensamentos e as sensações novas que aquele toque me permitiu provar.  Nós ficamos parados, apenas com as bocas encostadas e aos poucos, desejando tê-la inteiramente para mim, eu a envolvi em meus braços e comecei a aumentar os movimentos do nosso beijo, pedindo passagem com a minha língua para sentir o seu gosto da melhor maneira possível.  Dulce parecia com tanta vontade quanto eu, já que seguiu com maestria todo o seguimento do beijo, permitindo que eu possuísse sua boca como eu quisesse, envolvendo seus braços em meus ombros num abraço carinhoso.  Quando nos afastamos, ela suspirou, estava com um sorriso sereno e com um brilho majestoso nos olhos. Dava pra ver de longe a felicidade que estava sentindo e eu também estava muito feliz pelo que acabara de acontecer.  — O que você queria mesmo me dizer? — perguntou.  Aquele deveria ser o último dia. Eu deveria usar esse momento para me despedir para sempre dela. Mas agora depois desse beijo e de ver o quanto Dulce mexia comigo, era impossível que eu quisesse abdicar desse sentimento. Eu não sabia exatamente o que aconteceria, mas eu me recusava a desistir.  — Eu só queria dizer que desde que a conheci, você tem sido muito importante e está mudando a minha vida. — segurei suas duas mãos. — Eu não quero desistir.  — Nós não temos que desistir de nada. — voltou a me beijar. Nós nos afastamos e ficamos com as testas coladas, com sorrisos que pareciam não ter fim. — Vamos continuar festejando!  Dulce continuou me mostrando todas as coisas da aldeia. As pessoas eram muito gentis e eu estava adorando ficar ali, conhecendo uma realidade completamente diferente da minha.  Anahi e Edgar me matariam quando soubessem que eu desisti de me afastar. Mas era inevitável ficar perto da Dulce, era impossível não ser vulnerável à sua beleza, sua personalidade e ao modo como ela me fazia sentir bem mais humano do que eu pensei que era.
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