Ao deixar os meus olhos pousarem sobre ela, sinto como se tivesse sido nocauteado. Desde os 18, foi poucas as vezes que vim a nocaute, mas aquela mulher... Corpo curvilíneo, cabelos bem presos no alto da cabeça em um coque apertado, apenas deixavam ver que o cabelo era cor de chocolate. Observo uma lágrima escorrer pela bochecha corada, me aproximo.
- Com licença, tudo bem? - Os olhos de um verde profundo me encaram e parecem vazios e tristes. Ela desvia o olhar e termina de colocar o acesso na minha vó que dormia no momento. Duas vezes por semana minha vó precisar vir ao hospital fazer hemodiálise e tomar medicações. Minha irmã costumava vir, mas descobriu estar grávida há poucas semanas e a gravidez é de risco, então precisa ficar de repouso. Meu avô já é falecido, minha mãe também. Meu pai sempre muito ocupado com as empresas, então o mais "desocupado" sou eu. Curto a manhã com uma caminhada matinal, uma musculação, já que é uma das poucas coisas que posso fazer sem prejudicar meu quadril. Aos 28 anos, vacilei, fui virado de um a festa, para um luta, meu treinador não queria me deixar lutar, mas eu não costumava ouvir ninguém.
A luta não durou dois minutos, pude ouvir o barulho do osso do meu quadril se quebrando. Precisei colocar pinos nas articulações, me impedindo de fazer atividades com grande mobilidades ou impactos. Desde então auxilio o meu pai nos negócios, ele diz que logo serei o novo CEO, e não que eu não queria, um dia... mas não agora. Só a ideia de ficar preso 10 horas por dia dentro de um escritório, já me dá calafrios.
- Você está chorando... - Ergo a mão para tocar em seu rosto, mas ela logo vira. Fico me perguntando o que estaria afligindo a jovem. Tão bela...
Antes de ela sair, perguntei seu nome, ela quase surtou, deve precisar muito deste emprego. Maneio a cabeça. Daniela... que nome bonito, combina com ela.
Os dias passam e eu a observo, a cada encontro, é apenas um acenar, ou uma breve conversa, sempre iniciada por mim. É interessante vê-la, sempre correndo e fazendo coisas. Mas o mais intrigante, é que ela não parece se importar com quem eu sou. As outras enfermeiras, só faltam se jogar pra cima de mim. Mas ela... ela não.
- Vó... sabe alguma coisa sobre a Daniela? - Minha vó me encara e abre um sorriso, que me faz revirar os olhos. - Deixa de ser uma véia casamenteira.
- Ué... mas não disse nada... - Minha vó é uma véia tinhosa, sempre foi assim, quando jovem era ainda pior. - Mas está interessado?
- Não... só a vi chorando e fiquei curioso.
- Ah... - Minha vó fecha a cara e pensa. - Realmente, ela tem um olhar triste. Nunca conversamos muito, mas ela é uma das minhas favoritas.
Hoje tem visita na casa da minha avó. Sempre costumo leva-la no final da manhã ou início da tarde. Já passam das 18 horas e ainda não fomos ao hospital, que se tornou a minha programação favorita da semana.
- Vó, temos de ir ao hospital.
- Sim, mais tarde vamos... - Bufo, então ela me olha profundamente. - Daniela termina o turno as 22 horas somente. - Me dá um tapinha no ombro com aquela cara de véia safada, e me dá vontade de rir. Fico estranhamente aliviado.
Enquanto minha avó aguarda atendimento no seu quarto de costume, vou buscar um café. Mas para minha grande alegria, Daniela vem correndo em minha direção, mas sem me perceber, esbarra com tudo em mim.
- Oh, me desculpe...
- Sem problemas, como está Daniela? - Somente nesse momento ela me encara, então abre um sorriso. Mesmo com conversas rápidas e triviais, ela havia mudado comigo, sendo mais cordial e simpática.
- Tudo bem, correria de sempre, sabe como é... - Assim ela sai correndo.
Chego ao quarto da minha vó e já tem uma enfermeira lá.
- Olá. - Digo breve e sério, então a mulher sorri amplamente para mim, os olhos castanhos brilhando.
- Olá senhor Semedo, como vai?
- Tudo bem. - Respondo sem muito interesse. Mesmo sem olhar para ela, podia sentir ela me perscrutando de cima a baixo. Era sempre assim, só se interessavam por meu dinheiro, ou aparência, mas ninguém tava pouco se lixando para mim.
- Elô, onde está Daniela? - Minha vó pergunta e apenas estreito os olhos.
- Ela está na pediatria hoje, está faltando pessoal, e temos que nos virar como dá.
- Hum... eu queria saber... ela parece tão triste, está tudo bem com ela?
- Ah... - Observo a mulher fazer uma careta. - É difícil, ela está com o ... - Nesse momento Daniela entra na porta.
- Oh desculpe interrompê-los. Só vim te avisar... - Daniela continua em direção a outra. - Pra ir pra pediatria, vou ficar na emergência até o final do turno. - A tal Elô revira os olhos. - Acidente com 3 carros, precisam de ajuda lá em baixo.
- Ok, ok... já vou para a pediatria. - Assim como chegou, Daniela saiu. Nos deixando lá, ou melhor, me deixando lá, atordoado, com o coração aos pulos. O que estava acontecendo?
- Bem, dona Semedo, terei de me retirar,pedirei que uma enfermeira lhe tire o acesso... - Minha vó prende-lhe o grito.
- Não mesmo! Aquelas açougueiras! Ou você ou a Daniela, ou a Adélia! - Eloísa sorri para minha vó.
- Ok ok, dentro de uma hora volto para vê-la, posso me atrasar um pouquinho, mas me espere então.
- Certo.
Converso um pouco minha vó sobre a vida, sobre minha mãe que pouco conheci, pois morrera jovem de um câncer. Eu tinha cerca de 10 anos na época. Mas lembro de como ela lutou pela vida. Fou uma guerreira. O tempo vai passando e quando me dou conta já são 23 horas... Saio do quarto para chamar alguém para nos liberar, pois a tal Elô não apareceu. Mas que grande merda é essa?
Ao sair do quarto me deparo com um médico alto, loiro, forte, abraçando a minha enfermeira... quer dizer, Daniela. Todo esse meu esforço em chamar a atenção dela e ela já tem alguém. Droga!
- Atrapalho! - Digo firme e vejo Daniela se virar e sorrir. O rosto vermelho denunciava que esteve chorando.
- Não, não... tudo bem? - O médico babacão me pergunta.
- Minha vó, precisa ser liberada, já passou uma hora do prazo.
- Ah deixe-me chamar uma enfermeira...
- Deixa que eu faço! - Daniela interrompe o médico.
- Mas já terminou seu turno... - O cuidado dele com ela, me enerva.
- A senhora Semedo não aceita que qualquer um a manuseie, além do mais, é só retirar o acesso.
- Ok... - Diz o médico e me assente nos deixando a sós. Me viro e volto para o quarto, com ela me acompanhando.
- Seu namorado? - Não resisto e pergunto. Droga! O que está havendo comigo? Pareço um adolescente atrás de uma garota. Olho-a de lado e ela me olha de cenho franzido e segura um sorriso.
- Não! - Por fim, ri. - Ele gay. - Me cochicha, mas não sei se acredito.
- Ele não parece...
- Xiiii. - Ela olha para os lados. - Quase ninguém aqui no hospital sabe, ele é muito reservado. E prefere se manter assim, porque nessa área há muito preconceito. - Observo-a enquanto fala, calmamente e segura. Quantos anos ela deveria ter? Pela aparência uns 20. Era de se perder naqueles olhos, naquela voz, no suave perfume.
Ela entrou e cumprimentou minha vó, enquanto eu apreciava a vista daquele lindo corpo, sem avental e jaleco. As nádegas redondas e fartas, a cintura fina... Deixo de lado a minha taradeza, pois já sinto meu m****o latejar dentro da calça.
- O que faz aqui ainda menina? Já devia ter ido embora! - Minha vó a repreende como se tivesse tal autoridade, e ela apenas ri.
- Ah, eu estava com o meu...
- Cheguei! - A enfermeira de antes aparece.
- Esqueceu de mim, Eloísa!? - Minha vó brada com a mulher.
- Não senhora, só não consegui sair antes, e... o que faz aqui Daniela? Jà devia ter ido pra casa.
- Eu já vou não se preocupe. - Daniela sorri para a outra que apenas assente e diz.
- Se cuida, vou indo então, já que está terminando aí.
- Tá, boa noite, se cuida também.
- Como você vai embora? - Minha vó pergunta depois de estar em pé.
- Vou de ônibus, tem aqui na esquina.
- Podemos te dar uma carona... - Agradeço aos céus a boca grande da minha avó nesse momento.
- Aaahh, eu agradeço, mas não tem perigo, não precisa se incomodar.
- Nada disso, pra que que eu tenho esse meu neto aqui, hein? - Ela bate no meu braço e ri. - É ex lutador, mas se precisar ele ainda sabe dar uma boa surra, não é Vicente? - Solto uma gargalhada e vejo os olhos da garota a minha frente ficarem curiosos.
- Você era lutador?
- MMA, o melhor da época dele. - Minha vó responde, fazendo-a desviar os olhos de mim.
- Uau... muito legal.
- Nunca ouviu falar dele? - Minha vó a encara de cenho franzido.
- Bem... - Ela parece ter ficado constrangida e ela ficava uma graça com vergonha. - Nunca fui muito de lutas ou esportes em geral.
- Bom, isso não importa, vamos...
- Não, imagina... - Enquanto ela tentava convencer a minha avó que não queria carona, eu pensava no fato de ela não saber quem eu era, e mesmo depois de saber ainda assim não querer se aproveitar, nem ao menos aceitar a carona.
- Engancha nela aí vó. - Enganchando o outro braço, digo a deixando sem opção. - Vamos te levar, faço questão, veio atender minha vó fora do seu turno, e sempre é muito simpática. - Pisco para ela, que apenas baixa a cabeça, com o rosto ficando um pimentão de tão vermelho. Sorrio pensando que às vezes o destino conspirava a favor ao meu favor.