4

1156 Words
Mais tarde, a mansão já estava quase toda em silêncio. O relógio marcava perto das nove. Bianca ficou alguns minutos sentada na beira da cama, olhando para o próprio reflexo no espelho do quarto. O tecido leve da lingerie deixava tudo ainda mais exposto do que ela estava acostumada — não só o corpo, mas a sensação de estar entrando em algo que ela não controlava. Ela respirou fundo. Levantou. Não demorou mais do que o necessário. Quando saiu do quarto, o corredor parecia maior do que o normal. Cada passo ecoava baixo no chão polido da mansão. Ela desceu devagar. Passou pelo corredor principal. Pelo silêncio das paredes. E parou em frente à porta do quarto de Mário. Ficou ali por alguns segundos. Imóvel. Então bateu duas vezes. — Entra — veio a voz dele de dentro, firme. Bianca girou a maçaneta e entrou. Mário estava lá. Em pé, perto da cama, sem terno dessa vez, apenas com a postura rígida de sempre. Os olhos dele foram direto nela assim que ela apareceu na porta. O ambiente ficou pesado. Silencioso. Ele observou por um instante mais longo do que o normal, como se estivesse analisando algo que não queria admitir que via. Bianca não falou nada. Só ficou ali, esperando. Mário se aproximou devagar. Sem pressa. O olhar dele era difícil de decifrar — não tinha gentileza, mas também não tinha a frieza absoluta de antes. Havia algo diferente ali, uma tensão contida, como se ele próprio estivesse preso dentro do que estava fazendo. Ele parou na frente dela. Ficaram assim por alguns segundos. O silêncio preenchendo tudo. E então ele fechou a distância entre os dois. Sem palavras. O resto da noite ficou fora do tempo, como sempre acontecia entre eles — sem conversa, sem explicação, apenas aquele espaço estranho onde nada era dito, mas tudo era entendido no limite do silêncio. O quarto ficou em silêncio depois disso, mas não era um silêncio leve — era denso, quase sufocante, como se as paredes tivessem absorvido tudo o que não foi dito. Bianca virou de lado lentamente, puxando o lençol até a altura do corpo. Não havia lágrimas, nem reação exagerada… só um cansaço profundo, daqueles que não são só físicos. Mário permaneceu sentado na beira da cama. Imóvel. O olhar dele estava nela, mas não exatamente “vendo” Bianca — era como se estivesse preso em outro lugar, em outra memória, em outra versão de si mesmo. A ex. A traição. O vazio que aquilo deixou. Ele passou a mão pelo rosto, respirando mais pesado do que queria demonstrar. Aquilo sempre voltava. Sempre. Bianca respirou fundo, fechando os olhos por alguns segundos, tentando se desligar do ambiente. Mas a presença dele ainda ali não deixava tudo desaparecer. — Você sempre fica assim depois? — a voz dela saiu baixa, sem olhar para ele. Mário não respondeu de imediato. Depois de alguns segundos, ele soltou um riso curto, sem humor. — Assim como? Ela abriu os olhos devagar, ainda deitada. — Como se… não estivesse aqui. O silêncio voltou. Mais pesado agora. Mário finalmente virou o rosto na direção dela. — Você não entende o que eu passei — ele disse, baixo, controlado, mas duro. Bianca não desviou o olhar. — Talvez não. Mas eu também estou aqui, Mário. Aquilo ficou no ar. Simples. Direto. Sem acusação exagerada. Só presença. Ele ficou em silêncio, como se essa frase tivesse atingido um lugar que ele evitava encostar. Mário levantou da cama, caminhando até a janela. Ficou ali alguns segundos, olhando a cidade lá fora, mas sem realmente enxergar nada. — Isso não era pra ser… complicado — ele disse por fim, mais para si mesmo do que para ela. Bianca sentou devagar na cama, segurando o lençol contra o corpo. — Mas é — respondeu. E não falou mais nada depois disso. O quarto voltou ao silêncio. Dessa vez diferente. Menos vazio… mais cheio de coisas não resolvidas. Mário permaneceu na janela por mais um tempo. E, pela primeira vez desde que esse casamento começou, ele não saiu imediatamente depois. Ficou dividido entre sair… ou continuar ali, mesmo sem saber exatamente o que fazer com aquilo que começava a incomodar dentro dele. Na manhã seguinte, o quarto já estava vazio quando Bianca acordou. Mário não estava lá. O lado da cama dele não tinha sinais de permanência — como sempre, ele saía cedo, como se não houvesse nada ali além de rotina. Bianca ficou alguns segundos olhando o teto. Depois se levantou. Sem pressa. Sem expressão. Vestiu-se com calma e voltou para o próprio quarto. Tomou um banho demorado, deixando a água cair como se tentasse lavar algo que não era físico. Quando terminou, deitou na cama de novo. O silêncio parecia mais pesado naquele dia. Foi quando o celular tocou. — Oi, mãe — ela atendeu. — Filha, como você está? — a voz veio suave do outro lado. Bianca fechou os olhos por um segundo. — Estou bem, mãe. — E o casamento… está sendo bom? O silêncio durou meio segundo a mais do que deveria. Do lado de fora, no corredor, Mário passava naquele exato momento — e diminuiu os passos ao ouvir a voz dela pela porta entreaberta. — Está sendo ótimo, mãe. A frase saiu leve demais. Ensaiada demais. — Filha, eu só quero te ver feliz… Bianca apertou os olhos, segurando o nó na garganta. — Eu sei, mãe. Tá tudo bem. Eu tô feliz agora preciso desligar, tá? — Tá bom… se cuida, meu amor. — Você também. Ela desligou. E no segundo em que o som do fim da chamada preencheu o quarto, as lágrimas vieram silenciosas. Sem drama. Sem som. Só caindo enquanto ela abraçava o travesseiro com força, como se aquilo fosse a única coisa que não a julgava. Do lado de fora, Mário ficou parado por um instante. O rosto fechado. Ele tinha ouvido tudo. Ou pelo menos o suficiente. E então entrou no quarto. Bianca se mexeu rápido, limpando o rosto com pressa, tentando recuperar o controle antes que ele percebesse. — Você quer de novo? — ela perguntou, a voz baixa, tentando se recompor. Mário não respondeu àquilo. Só a observou por um segundo a mais do que o habitual. — Não — disse por fim, seco. — Eu só quero saber se você não vai comer. Ela respirou fundo, ainda firme apesar do que estava sentindo. — Mais tarde. Estou sem fome. Ele assentiu levemente, como se aceitasse sem insistir. — Meus pais vêm jantar hoje. Bianca se ajeitou na cama, limpando qualquer resquício de emoção do rosto. — Tudo bem. Pode deixar… estarei pronta. Mário ficou mais um segundo ali. Como se quisesse dizer algo e não dissesse. Depois virou-se e saiu do quarto. A porta fechou. E Bianca ficou sozinha outra vez, olhando para o vazio, tentando reorganizar por dentro tudo aquilo que não cabia em nenhuma conversa.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD