Mais tarde, a casa já estava mais silenciosa.
Mário subiu os degraus sem pressa, mas com aquela mesma energia fechada, como se tivesse decidido algo e não fosse voltar atrás. Ele parou em frente à porta do quarto de Bianca por um instante — não bateu. Só entrou.
O quarto estava em penumbra.
Bianca estava na cama, dormindo de lado, o cabelo cacheado espalhado no travesseiro. Parecia mais leve assim… longe da tensão do dia.
Ele ficou alguns segundos observando.
Imóvel.
Como se estivesse tentando entender o que exatamente tinha naquela cena que o irritava e ao mesmo tempo prendia a atenção dele.
Então ele se aproximou.
— Bianca.
A voz dele foi baixa, mas firme.
Ela se mexeu devagar, abrindo os olhos aos poucos, ainda meio perdida entre sono e realidade.
— Oi… — a voz dela saiu fraca. Ela piscou, focando nele. — Você quer agora?
Mário não hesitou.
— Sim.
Serio. Direto. Sem suavizar.
Bianca ficou em silêncio por um segundo longo demais para ser confortável.
Mas não discutiu.
Não levantou.
Só respirou fundo e se virou um pouco, permitindo que ele se aproximasse.
O quarto ficou novamente tomado por aquele tipo de silêncio que não vinha de ausência de som… mas de excesso de coisas não ditas.
Depois de um tempo, tudo cessou.
O relógio parecia não importar mais.
Bianca voltou a se deitar, puxando levemente o lençol, já quase entregue ao cansaço que vinha antes dele.
E, em poucos minutos, ela voltou a dormir.
Dessa vez mais profundamente.
Mário permaneceu ali.
Sentado na beira da cama, olhando para ela.
Sem dizer nada.
O rosto dele estava fechado como sempre… mas havia algo diferente no olhar agora. Menos vitória. Menos controle.
Mais peso.
Ele passou a mão pelo rosto devagar, encostando os cotovelos nos joelhos, ficando alguns minutos assim, apenas observando o silêncio dela dormir.
E pela primeira vez naquela dinâmica estranha entre os dois…
ele não saiu imediatamente.
Ficou.
Como se algo dentro dele ainda não tivesse decidido se aquilo era exatamente o que ele queria… ou apenas o que ele sabia fazer.
Nos dias seguintes, a rotina da mansão começou a se repetir como um ciclo silencioso.
Bianca, aos poucos, passou a descer do quarto em alguns momentos do dia. Sem pressa. Sem chamar atenção. Às vezes caminhava pelo jardim, onde o vento parecia menos pesado do que dentro da casa.
Ela escolhia um banco perto das flores e ficava ali, com um livro aberto no colo.
Lendo.
Tentando ocupar a mente com qualquer coisa que não fosse o vazio entre ela e o homem com quem havia se casado.
De longe, Mário observava.
Quase sempre da varanda do escritório ou da janela do corredor.
Nunca se aproximava.
Nunca interrompia.
Só olhava.
Como se aquilo fosse o único jeito seguro de manter controle — distância.
Bianca percebia às vezes.
Mas não olhava de volta.
Continuava lendo, virando páginas com calma, como se estivesse aprendendo a existir dentro daquele espaço sem ser engolida por ele.
E, à noite, tudo voltava a mudar.
Mário entrava no quarto.
Sem conversa longa.
Sem aproximação emocional.
Era sempre direto, sempre fechado dentro de si mesmo, como se qualquer tipo de carinho fosse algo que ele tivesse esquecido como se fazia — ou talvez nunca tivesse aprendido depois da ferida que carregava.
Bianca não questionava.
Não lutava contra o que acontecia entre eles.
Apenas permanecia ali, em silêncio, como se tivesse entendido que naquele casamento não existia espaço para negociação emocional — apenas para aceitação do que vinha.
E Mário…
Mário vivia preso.
Preso na lembrança da traição.
Na imagem da mulher que ele amou e que o deixou sem olhar para trás.
Aquilo não saía dele.
Nem por um segundo.
E por causa disso, ele não via Bianca.
Não de verdade.
Via apenas uma presença ao lado dele.
Uma resposta à ausência de algo que ele perdeu.
Carinho não existia.
Atenção não existia.
E Bianca, mesmo estando ali todos os dias, começava a perceber que estava vivendo dentro da sombra de alguém que nunca foi ela.
Ainda assim, ela permanecia.
E algo nela — silencioso, constante — começava a resistir à ideia de desaparecer dentro daquilo.
Uma tarde qualquer Ela estava no jardim quando o sol já começava a cair, pintando tudo com um tom alaranjado suave. Bianca estava sentada no banco de sempre, o livro aberto no colo, os dedos virando as páginas com calma.
O som dos passos atrás dela foi o primeiro aviso.
Ela não se assustou.
Já estava começando a reconhecer aquele silêncio específico que vinha com ele.
Mário parou ao lado do banco.
— O que você está lendo?
Bianca ergueu o livro um pouco, mostrando a capa.
Ele olhou.
Depois voltou os olhos para ela.
— Você gosta de ler, né?
Ela fechou o livro devagar, apoiando no colo.
— Gosto… me distrai. Me tira da realidade.
Houve um pequeno silêncio depois disso.
Mário assentiu lentamente, como se aquela resposta fizesse algum sentido dentro dele, mesmo que ele não soubesse exatamente onde encaixar.
— Entendi.
Ele ficou parado mais um segundo.
O vento mexeu levemente os cabelos dela, e ele observou aquilo sem dizer nada.
Depois, como se estivesse retomando algo já decidido, falou em um tom mais baixo, direto:
— Essa noite eu quero que você use a lingerie que eu deixei na sua cama. Tá? E às nove da noite, você vai até meu quarto.
Bianca não reagiu de imediato.
Não houve surpresa visível no rosto dela… mas também não houve aceitação imediata.
Só um pequeno silêncio.
O suficiente para ela fechar o livro por completo.
— Tá — ela respondeu, depois de alguns segundos.
Simples.
Sem discutir.
Sem perguntar nada.
Mário apenas a observou mais um instante, como se esperasse alguma outra reação.
Mas não veio.
Ele assentiu de novo e se afastou.
Bianca ficou sozinha no banco, olhando para o jardim à sua frente.
O livro fechado no colo.
E, por dentro, aquele mesmo sentimento silencioso voltando: não era exatamente dor… mas também não era conforto.
Era só a consciência de que aquela vida estava sendo escrita por outra pessoa — e ela ainda estava tentando descobrir se tinha alguma linha onde pudesse respirar por conta própria.