Na manhã seguinte, a luz atravessava as cortinas pesadas do quarto com dificuldade, como se até o sol respeitasse o silêncio daquela casa.
Bianca acordou devagar.
Sentindo o corpo pesado, com leves dores ainda presentes da noite anterior — nada explícito, mas suficiente para lembrá-la de que aquele casamento não tinha começado de forma leve.
Ela ficou alguns segundos sentada na cama, olhando ao redor.
Aquela não era sua casa.
Ainda não.
A porta se abriu com cuidado.
Uma funcionária entrou com uma bandeja elegante.
— Bom dia, senhora. Trouxe seu café da manhã.
Bianca piscou, se ajustando ao momento.
— Obrigada… — respondeu baixo, quase tímida.
A funcionária deixou a bandeja sobre a mesa próxima e hesitou por um instante, como se estivesse decidindo se falava ou não.
— A senhora… — disse por fim. — O patrão pediu que, em uma hora, a senhora vá até o escritório dele.
Bianca ergueu o olhar.
Não demonstrou surpresa.
Só assentiu.
— Tudo bem.
Quando a funcionária saiu, o silêncio voltou a ocupar o quarto.
Bianca respirou fundo e olhou para o café da manhã intocado por alguns segundos. Depois levantou, foi até o banheiro e tomou um banho rápido, tentando organizar não só o corpo, mas também os pensamentos.
Quando saiu, vestiu algo simples, discreto, como se ainda estivesse aprendendo qual versão de si mesma aquela casa aceitava.
O relógio corria.
E, pela primeira vez desde o casamento, ela sentiu algo diferente do silêncio.
Expectativa.
Não medo.
Mas também não tranquilidade.
Algo entre os dois.
Minutos depois, já pronta, ela desceu pelos corredores largos da mansão.
Cada passo parecia ecoar mais do que deveria.
E quando chegou à porta do escritório de Mário, ela parou por um instante.
Levantou a mão.
Bateu duas vezes.
Lá dentro, a voz dele veio firme:
— Entra.
Ela entrou no escritório.
O ambiente era grande, escuro em pontos estratégicos, com uma mesa de madeira pesada e a cidade visível pela janela panorâmica. Mário estava em pé, como se já esperasse exatamente aquele momento.
— Bom dia — ele disse, direto.
— Bom dia — Bianca respondeu, firme, mas baixa.
Ele caminhou devagar até a mesa, apoiando uma das mãos nela, sem desviar o olhar.
— Eu vou te procurar quatro vezes na semana. Às vezes pode ser um dia a mais, mas eu aviso. Quero você sempre pronta, cheirosa pra mim. Não quero que me negue nunca. Você é minha mulher.
O silêncio que seguiu foi pesado.
Bianca ficou parada por um segundo, olhando para ele como se estivesse tentando entender se aquilo era uma conversa… ou uma sentença.
E então ela falou.
— Mário… quanto tempo você pensa em ficar casado comigo?
Ele não respondeu de imediato.
Ela continuou, a voz mais firme agora, mesmo com a leve tensão no corpo.
— Porque do jeito que você fala… é evidente que você não quer me conhecer de verdade. Você só quer me… usar. E nada mais, né?
A expressão dele endureceu.
Mas ela não parou.
— Você pelo menos percebeu que você tirou minha virgindade ontem? Ou a sua brutalidade não deixou você perceber isso? — ela respirou fundo, sentindo a própria coragem tremendo, mas sem recuar. — Você percebeu que eu estou andando devagar ainda porque estou sensível? Ou você vai me dizer que mais tarde você volta no meu quarto como se nada tivesse acontecido?
Ela ficou em silêncio.
Agora sim, olhando diretamente para ele.
Sem fugir.
O escritório parecia menor.
Mário ficou imóvel por alguns segundos.
O maxilar travado.
Os olhos escurecidos — não de raiva imediata, mas de algo mais complexo… desconforto, irritação, e uma coisa que ele não queria nomear.
Ele se afastou da mesa lentamente, passando a mão pela nuca, como se estivesse tentando manter o controle.
— Você acha que isso aqui é o quê? — a voz dele veio baixa, perigosa, mas controlada. — Um casamento bonito? Um acordo romântico?
Ele deu um passo na direção dela.
— Eu não te enganei, Bianca. Eu fui claro desde o começo. Você entrou nisso sabendo o que era.
Mais um passo.
A presença dele preenchia o espaço.
— E quanto ao resto… — ele fez uma pausa curta, os olhos fixos nela. — Eu não sou delicado. Nunca fui.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez era diferente.
Porque agora não era só imposição de um lado.
Era colisão.
Bianca não recuou.
Só respirou fundo, mantendo os olhos nele, como se estivesse decidindo onde aquilo ia parar.
E Mário, pela primeira vez naquele dia, não parecia totalmente seguro do próprio controle.
Ela respirou fundo, como se estivesse juntando forças para não desabar ali mesmo.
— Certo, Mário… tudo bem. Eu vou me retirar. Quando você quiser a sua escrava s****l, é só ir até lá.
A frase caiu no escritório como algo pesado demais para ser ignorado.
Bianca virou-se sem esperar resposta.
E saiu.
Os passos dela pelo corredor eram firmes, mas havia algo contido ali — não submissão, não exatamente coragem… mais uma mistura de orgulho ferido e tentativa de se proteger do que tinha acabado de acontecer.
A porta do escritório ficou aberta por um segundo.
Depois fechou.
Silêncio.
Mário ficou parado.
Imóvel.
O olhar fixo no ponto onde ela tinha estado.
A palavra “escrava” ecoava na cabeça dele de um jeito diferente do que ele queria admitir.
Ele passou a mão pelo rosto, respirando mais pesado do que antes, como se aquilo tivesse deslocado alguma coisa dentro dele — não o bastante para quebrar o que ele acreditava, mas o suficiente para incomodar.
— Tsc… — ele soltou baixo, irritado consigo mesmo.
Caminhou até a janela, olhando a cidade lá fora.
Mas não estava vendo a cidade.
Estava vendo ela saindo.
E pela primeira vez desde o casamento, a imagem não parecia controle.
Parecia confronto.
No andar de cima, Bianca entrou no quarto e fechou a porta com cuidado.
Encostou as costas nela por um instante.
E finalmente deixou o ar sair, mais lento.
Não havia choro.
Ainda não.
Só um silêncio interno tentando entender como tudo tinha começado tão rápido… e já parecia tão difícil de sair.
E lá embaixo, Mário continuava parado, como se algo que ele não planejou começasse a escapar do controle dele pela primeira vez.