O relógio marcava 6h da manhã quando Letícia abriu os olhos. A noite m*l havia passado, mas o sono se recusara a vir. Seu corpo estava exausto, mas sua mente, presa em uma tempestade de pensamentos, não a deixava descansar. O pacote, o sorriso satisfeito de LC, a súplica de sua mãe... tudo girava em um ciclo infinito.
Ela se levantou em silêncio, tomando cuidado para não acordar sua mãe, que finalmente adormeceu no sofá. A mãe segurava um cobertor como se fosse um escudo contra o mundo. Letícia a observou por um instante, com uma mistura de culpa e determinação. Não podia desistir.
Na cozinha, o café amargo escorreu pela garganta, quente e reconfortante. Letícia sabia que precisava se preparar para o que vinha pela frente, mas não fazia ideia do que LC planejava.
O sol já brilhava forte quando Letícia chegou ao morro novamente. A boca de LC estava em silêncio, mas a presença de homens armados nos becos deixava claro que ele não precisava de alarde para manter seu território seguro. Um deles acenou com a cabeça e a deixou entrar.
Na sala, LC estava em pé, observando pela janela o movimento da comunidade. Seu copo de whisky descansava na mesa, quase intocado – algo raro. Ele parecia absorto, mas quando Letícia entrou, virou-se lentamente, como se já esperasse por ela.
“Pontual. Isso é bom,” disse ele, sem sorrir. “Espero que tenha descansado, porque hoje o trabalho é diferente.”
Letícia sentiu o coração acelerar. Queria perguntar o que ele tinha em mente, mas sabia que LC não respondia a perguntas – ele as fazia.
“Ontem, você provou que sabe seguir ordens. Hoje, quero ver se sabe lidar com gente. Vai lá fora e chama o RB. Ele vai te explicar.”
Sem outra opção, Letícia saiu da sala. Na entrada, encontrou RB, um dos homens de confiança de LC. Ele era jovem, mas tinha olhos que pareciam carregar décadas de histórias pesadas.
“Bora lá,” disse ele, sinalizando para que ela o seguisse.
RB a levou até uma pequena barbearia no meio do morro. Lá dentro, um homem estava sentado em uma cadeira, com o rosto coberto de hematomas e as mãos amarradas nas costas. Ele parecia derrotado, o olhar fixo no chão.
“Esse é o Júlio,” explicou RB, cruzando os braços. “Ele tem uma dívida com o LC, mas tá tentando fugir. O problema é que LC não aceita inadimplentes.”
Letícia sentiu um nó no estômago. “O que... o que eu tenho a ver com isso?”
RB sorriu, um sorriso frio. “LC quer que você negocie com ele. Convença o Júlio a pagar o que deve. Se não conseguir, vai ter que decidir o que fazer.”
“Decidir?”
RBse aproximou, abaixando a voz. “Se ele não pagar, você vai mostrar que não é só mais uma menina desesperada. Vai mostrar que entende como o jogo funciona. Dá um jeito nele.”
O ar parecia ter saído da sala. Letícia olhou para Júlio, que agora a encarava com uma mistura de desprezo e súplica. Ela não tinha ideia do que fazer.
“Eu... eu não sei como—”
“Se vira,” interrompeu RB , saindo e fechando a porta atrás de si.
Letícia ficou parada, encarando Júlio. Por um momento, o silêncio foi tudo que existia. Então, ela respirou fundo e deu um passo à frente.
“Quanto você deve?”
Júlio deu uma risada amarga. “Você acha que vai resolver isso com conversa? LC não manda ninguém pra negociar, manda pra intimidar.”
Ela não respondeu. Afastou-se, tentando organizar os pensamentos. Não queria machucar ninguém, mas também sabia que LC não tolerava falhas.
“Eu não quero te machucar,” disse finalmente, tentando soar firme. “Mas preciso que você resolva isso. Tem família? Alguma coisa que valha mais do que isso aqui?”
O homem hesitou. “Tenho. Mas se eu pagar, eles não vão ter o que comer.”
Letícia sentiu um peso ainda maior. Estava presa em uma situação impossível, assim como ele.
Depois de um longo momento, ela respondeu: “Se não pagar, eles não vão te ter. É isso que você quer?”
Júlio abaixou a cabeça. A lógica c***l daquelas palavras era inescapável.
“Tudo bem,” murmurou ele. “Eu vou conseguir o dinheiro.”
Quando RB voltou, encontrou Letícia e Júlio ainda na sala. Ela tinha o olhar firme, mas as mãos tremiam ligeiramente.
“E aí? Tá resolvido?”
“Ele vai pagar,” respondeu Letícia.
RB observou os dois por um instante, depois assentiu. “Bom. Vou levar ele pra acertar as coisas. Você fez sua parte.”
Enquanto Júlio era levado, Letícia se sentiu aliviada, mas sabia que LC teria uma opinião sobre seu método.
De volta à boca, LC ouviu tudo em silêncio. Quando Letícia terminou de relatar o que aconteceu, ele acendeu um cigarro, pensativo.
“Você não bateu nele. Não gritou. E ainda assim conseguiu o que queria.” Ele soltou uma fumaça lenta, avaliando-a. “Isso é bom. Mas também é perigoso. Gente como você, que acha que pode resolver tudo com palavras, às vezes esquece que o mundo é feito de ação.”
Letícia não respondeu. Sabia que qualquer palavra poderia ser usada contra ela.
“Vou te dar mais uma chance,” disse ele finalmente. “Amanhã, quero que você venha de novo. Vou te colocar em algo maior.”
Letícia assentiu, sentindo o peso das palavras. Sabia que estava sendo testada, moldada. E que, cedo ou tarde, precisaria provar do que realmente era capaz.
Enquanto descia o morro, o sol parecia mais opressor. O mundo de LC estava engolindo tudo ao seu redor, e ela não tinha certeza de quanto tempo poderia aguentar sem perder quem era.
A madrugada era um véu denso de silêncio na escuridão, mas a mente de Letícia fervilhava como uma tempestade. Sentada à mesa da cozinha, ela encarava o fundo de um copo de café frio, tentando empurrar para longe a sensação de que estava sendo engolida viva.
As palavras de LC não saíam de sua cabeça.
”No meu mundo, ou você se garante, ou vira comida de urubu.”
Ela sabia que ele estava certo. Não havia piedade ali. Cada tarefa, cada teste, era uma mensagem clara: sobreviva ou seja devorada.
Quando o sol m*l se arrastava para o céu, Letícia já estava de volta à boca. Os caras na entrada nem perderam tempo com perguntas. A essa altura, ela já era “alguém” no sistema daquele lugar – uma engrenagem pequena, mas girando no ritmo que LC ditava.
Ao entrar, encontrou LC sentado no mesmo sofá, cercado de fumaça e whisky. Ele parecia mais sombrio do que o habitual.
“Você é bem pontual, hein, garota?” Ele deu um gole na bebida, seus olhos cravando nela como uma lâmina. “Espero que seja tão eficiente quanto ansiosa.”
Letícia respirou fundo. “Tô pronta.”
“Tá pronta?” LC gargalhou, o som seco ecoando pela sala. “m*l saiu das fraldas nesse jogo e já acha que tá pronta? Deixa eu te mostrar o que é estar pronta.”
Ele jogou uma pasta na mesa com força. Letícia pegou, abrindo com cuidado. Dentro, encontrou fotos, papéis, números, tudo girando em torno de um único nome: Sérgio.
“Esse filho da p**a tá achando que pode me passar a perna,” disse LC, com a voz baixa e cortante. “Tá mexendo no meu dinheiro, achando que eu sou o****o. Quero que você vá até ele, descubra o que tá acontecendo, e traga uma solução. Se ele vacilar, você sabe o que fazer.”
Letícia engoliu em seco. “E o que exatamente você quer que eu faça?”
LC inclinou-se para frente, seu rosto apenas um borrão entre a fumaça do cigarro. “Ou ele paga, ou você faz ele entender. E se ele não entender, bom... dá um jeito de fazer ele nunca mais esquecer meu nome.”
O endereço na pasta era longe, uma área mais afastada, onde as casas eram grandes e bem cercadas. Letícia chegou devagar, cada passo parecendo mais pesado. Quando avistou Sérgio no quintal, falando ao telefone, sentiu uma onda de ansiedade.
Ele a notou e desligou o celular, franzindo o cenho.
“Você deve ser a nova cachorrinha do LC.” Sérgio cruzou os braços, com um sorriso que não chegava aos olhos. “O que ele quer agora?”
Letícia tentou manter a calma. “Ele quer saber por que os números não batem. Tá na sua mão evitar que isso vire um problema.”
Sérgio soltou uma risada amarga. “Ah, claro. Porque ele é tão compreensivo, né? Escuta, menina, isso aqui é só um jogo de poder. Ele quer o dinheiro dele, e eu tô tentando resolver do meu jeito. Só isso.”
“O ‘seu jeito’ tá saindo caro pra você,” retrucou Letícia, a voz mais firme do que esperava. “Eu tô aqui pra tentar resolver sem drama. Mas se você prefere o RB batendo na tua porta, posso ir embora agora.”
Sérgio vacilou por um segundo, mas logo seu rosto endureceu.
“Tá bom, p***a,” ele cuspiu, andando de um lado para o outro. “Eu mexi no dinheiro, sim. Mas não é o que ele tá pensando. Eu tô fodido, entende? Minha mulher tá doente, e os caras pra quem eu devo não são qualquer bandidinho de esquina. São gente que mata por farra.”
“E o LC?” Letícia estreitou os olhos. “Você acha que ele vai deixar isso barato?”
“Eu tô tentando resolver, mas o tempo tá contra mim.”
Letícia sabia que aquela explicação não ia adiantar nada pra LC. Ele não era o tipo de cara que aceitava “tentativas”. Mas ali, frente a frente com Sérgio, ela sentiu o peso da situação. Era mais um jogado aos lobos, tentando sobreviver.
De volta à boca, Letícia foi levada diretamente à sala. Ele estava mais sombrio do que nunca, e o silêncio na sala era sufocante.
“E aí?” disse ele, num tom baixo e perigoso.
“Sérgio tá com problemas,” começou Letícia, tentando manter a voz estável. “Ele mexeu no dinheiro pra pagar dívidas. Gente grande tá na cola dele. Ele disse que só precisa de tempo.”
LC riu, uma risada seca e c***l. “Tempo? Tempo é luxo, menina. E ninguém aqui tá pagando pra ele ter luxo.”
“Ele não vai fugir,” insistiu Letícia. “Ele sabe que, se fizer isso, tá morto. Se você der um pouco de espaço, ele pode resolver.”
LC a encarou por um longo momento, os olhos frios e calculistas. Finalmente, ele balançou a cabeça.
“Você tem um coração mole demais pra esse jogo,” disse ele. “Mas vou te dar um voto de confiança. RB vai cuidar desse papo de ‘gente grande’. Se Sérgio não entregar o que eu quero, você vai estar no próximo serviço. E, da próxima vez, não tem conversa. Ou você suja as mãos, ou vira história.”
Letícia assentiu, mas as palavras dele eram um peso insuportável. Ela sabia que o próximo teste seria ainda mais difícil.
Naquela noite, ao voltar para casa, Letícia viu dois homens parados no final da rua, observando sua casa. Suas roupas simples contrastavam com os olhares duros e vigilantes.
Seriam os credores de Sérgio? Ou homens de LC, vigiando cada passo dela?
Letícia manteve a cabeça erguida e passou por eles, mas seu coração estava um caos. A cada dia, o mundo que ela tentava atravessar parecia mais sufocante, e a sensação de que estava sendo devorada pela escuridão crescia dentro dela.
Quando entrou em casa, encontrou sua mãe acordada, os olhos marejados de preocupação.
“Saia disso ".