Capítulo 2

987 Words
A tensão no ar era tão densa que Letícia sentia como se m*l pudesse respirar. O olhar de LC a despia de qualquer máscara, expondo o medo que ela tentava esconder. Ele ergueu o copo de whisky, tomou mais um gole e se recostou no sofá, avaliando-a. “Então, menina, você disse que faz o que for preciso. Mas sabe o que isso significa?” Letícia apertou os punhos ao lado do corpo, tentando manter a compostura. “Sei. Eu só quero resolver essa dívida. Minha mãe não aguenta mais.” LC soltou uma risada seca, que fez os homens ao redor relaxarem as mãos nas armas, como se também fossem se divertir com o show. “Isso é o que me diverte. Todo mundo fala em resolver, mas ninguém tá disposto a fazer o que precisa ser feito. O que você tem pra oferecer, Letícia?” A pergunta pairou no ar como um desafio. Letícia sabia que não podia hesitar. “Eu trabalho. Faço qualquer coisa. Sou boa com cabelo, unha, posso ajudar... ou qualquer outra coisa que você pedir.” LC arqueou uma sobrancelha, aparentemente surpreso com a firmeza em sua voz. Ele bateu o copo na mesa e inclinou-se para frente, os olhos escuros penetrando nos dela. “Você não entende, garota. O que eu quero não é só trabalho. O que eu quero é certeza.” Letícia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. “Certeza?” “Sim, certeza de que quem me deve vai pagar. Que quem ousa subir aqui pra negociar sabe o preço do que tá pedindo.” Ele fez um gesto com a mão para um dos homens próximos. “Leva ela pra trás. Vamos ver se ela tem mesmo coragem de jogar no meu time.” Antes que pudesse processar, Letícia foi conduzida por um corredor estreito, onde as paredes eram marcadas por buracos de bala e rabiscos. Ela tentava controlar o pânico enquanto era empurrada para um pequeno quarto, onde outro homem aguardava. O homem tinha uma expressão dura e segurava um pacote grande e pesado. Ele olhou para Letícia e ergueu o queixo. “LC quer saber se você tem estômago. Preciso que leve isso até o Largo da Matriz. Não abra. Não faça perguntas. Só entregue. Se alguém te parar, diga que trabalha pro LC. Entendeu?” Ela assentiu, o nó na garganta tornando impossível falar. O pacote era embrulhado em plástico preto, com uma fita adesiva grossa segurando tudo no lugar. Pesava mais do que parecia, mas Letícia o segurou com firmeza. “Você tem uma hora. Não se atrase.” Letícia saiu da casa com o pacote apertado nos braços, o coração disparado. Cada passo pelo morro parecia observado por dezenas de olhos. Ela tentava ignorar os olhares curiosos, o som da música alta e o cheiro de fumaça que permeava o lugar. Quando chegou ao pé do morro, parou um mototáxi e deu o endereço. O homem lançou um olhar rápido para o pacote, mas não fez perguntas. Ele sabia o suficiente para não querer respostas. O trajeto foi uma tortura. Letícia não sabia o que carregava, mas o peso físico e psicológico era quase insuportável. Cada vez que o mototáxi fazia uma curva, ela se segurava, tentando não pensar nas possibilidades. No Largo da Matriz, um grupo de homens esperava ao lado de um carro preto. Eles pareciam saber exatamente o que procurar e se aproximaram assim que ela desceu da moto. “É da parte do LC?” perguntou um deles, com um sotaque carregado. Letícia engoliu em seco, mas conseguiu responder: “Sim. Ele mandou entregar isso.” O homem deu um sorriso de aprovação, pegando o pacote de suas mãos e colocando no carro sem sequer verificar o conteúdo. “Bom trabalho. Pode voltar e dizer que entregou.” Enquanto o carro arrancava, Letícia sentiu um misto de alívio e ansiedade. Ela completara a tarefa, mas sabia que aquilo era só o começo. De volta ao morro, foi recebida novamente na sala onde LC a esperava. Ele parecia relaxado, mas seu olhar estava atento. “E então? Conseguiu?” Letícia assentiu, sem conseguir esconder o cansaço. “Sim. Entreguei.” LC abriu um sorriso. “Tá vendo, garota? Você é melhor do que eu pensei.” Ele fez um gesto para um dos homens. “Dá um copo de água pra ela. Acho que ainda não tá acostumada com o ritmo.” Enquanto bebia, Letícia percebeu que LC estava avaliando mais do que sua coragem. Ele queria saber até onde ela estava disposta a ir, quão longe poderia ser empurrada. “Bem,” disse ele, levantando-se do sofá, “essa foi a parte fácil. A dívida da tua mãe ainda tá longe de ser resolvida, mas você mostrou que tem vontade. Eu posso trabalhar com isso. Amanhã, eu vou te dar outra tarefa. Se continuar assim, talvez a gente encontre uma saída pra tua família.” Letícia sentiu um peso ainda maior cair sobre seus ombros. Ela estava presa em um jogo perigoso, e agora entendia que LC não oferecia soluções – apenas condições. Enquanto voltava para casa, as ruas do bairro pareciam diferentes. Mais escuras, mais ameaçadoras. Ela sabia que sua vida nunca mais seria a mesma. Ao entrar pela porta, encontrou sua mãe ainda no sofá, segurando o bilhete que ela deixara, os olhos inchados de tanto chorar. Selma a abraçou com força, soluçando. “Por favor, Letícia, não faz isso de novo. Eu não quero te perder.” Letícia segurou a mãe, mas não conseguiu dizer nada. No fundo, sabia que essa era a única chance de salvar a família – mas ao custo de sua própria inocência. Naquela noite, enquanto tentava dormir, as palavras de LC ecoavam em sua mente: “Pouca gente tem a cara de p*u de vir até aqui.” Ela se perguntava se isso era coragem – ou apenas desespero.
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