No caminho para a casa dos meus pais a curiosa começa a me pegar, o que seria a surpresa? O caminho de mais de uma hora deixa minha imaginação fértil fluir.
Minha mãe não gosta da agitação da cidade, por isso meu pai resolveu morar na casa mais retirada. Podem perguntar como conseguiram isso nos arredores de Nova York. Bem, minha família é do ramo imobiliário, não qualquer família do ramo imobiliário. Senhor Charles Overlord se orgulha de dizer que nossa família ajudou a erguer Nova York. Hoje nossa empresa não é somente a maior da cidade e sim do país inteiro. Temos até algumas filiais na Europa e Caribe.
Finalmente chego nos portões dourados, esse lugar me dá uma sensação de paz, vivi praticamente minha vida toda aqui. Encontro meu pai no jardim, ele está com seus cachorros, outro motivo dessa casa é para criar os cães, sua raça favorita são os doberman.
— Que bom que chegou filha.— Me dá uma abraço.
— Tinha estragado o celular por isso não atendi as chamadas.— Explico.
— Entre logo, sua mãe já estava aflita sem notícias.
Entro em casa, enquanto meu pai leva seus cachorros para o canil. Ao chegar na sala encontro tio Edward.
— Tio, você por aqui?
— Sua mãe disse para vir, que tinha algo para comemorar.— Ele me abraça. — Está sabendo de algo?
— Tanto quanto você.— Dou uma sorriso.
Tio Edward é irmão de minha mãe, Vitória, ele trabalhava na empresa do meu pai, e era nosso melhor corretor de imóveis. Dizem que ele é capaz de vender areia no deserto. Ele é carismático e do tipo que faz amizade muito fácil.
— Que filha desnaturada que tenho...— Minha mãe desce as escadas fazendo um drama.
— Meu celular estragou, não foi minha intenção não atender.
— Vou deixar passar. — Ela beija minha testa.— Está com uma carinha cansada, princesa.
— Dormi um pouco mal.— Digo.
Minha mãe era a mulher mais deslumbrante que conheço, entendo meu pai ser tão apaixonado por ela. Dona Vitória Overlord tem uma elegância e carisma que se vê poucas vezes.
— Qual é a surpresa?— Já estava me roendo de curiosidade.
— A nova vice-presidente foi escolhido.— Meu pai entra na sala.
O antigo vice-presidente era um amigo próximo e de longa alta do meu pai, ele estava prestes a sair para sua merecida aposentadoria.
— Nova vice-presidente?— Tio Edward questiona.
— Sim...— Meu pais abre um sorriso largo.— Minha querida filha será a nova vice-presidente.
Fico estática, assimilando tudo que ouvi... Tenho apenas vinte cincos anos, é uma responsabilidade muito grande, não é porque sou filha dele que meu pai me daria um cargo tão alto sem competência.
— Eu??...— Pergunto desacreditada.
— Claro filha.— Minha mãe afaga meus ombros.— Você é o futuro da empresa, a presidência um dia será sua.
— Não é muito cedo para isso?— Olho para meu pai.— O conselho dos diretores vai concordar? Por causa da minha pouca idade.
— Você pode ser a melhor presidente e ainda vão ter pessoas querendo te derrubar. Quero te deixar pronta para comandar nosso império, você é muito competente, só falta aprender a se impor.—Meu pai sorri.— Chanel, você é meu legado, quero que assuma quando me aposentar.
[...]
Hoje é segunda-feira, normalmente veio mais tarde para a sede da empresa, no domingo costumo dormir na casa dos meus pais. Ontem não quis fazer isso, minha cabeça estava uma bagunça, e queria começar a me organizar para a sucessão do cargo que acontecerá dentro de um mês. Também tenho que conversar com minha secretária, o trabalho e responsabilidade dela aumentará bastante, Micaela é uma ótima profissional, mas seria exigido bem mais dela.
Ao abrir as portas do elevador, vejo duas mulheres encostadas na mesa da Micaela.
— O que foi aberração?— Uma moça loira fala.— Se não fizer o relatório para mim foi espalhar seu segredinho sujo.
— O que a senhorita Overlord ia fazer ao descobrir que a secretária dela é um traveco.— A outra fala.
— Ou melhor, o senhor Overlord, quando descobrisse que alguém como você trabalha para a princesinha dele.— A loira completa.
Meu Deus, isso parece um cena saído de "Meninas Malvadas".
— O que está acontecendo aqui?— Faço elas notarem minha presença.— Porque perturbam minha secretária tão cedo?
— Não é o que está parecendo...— A loira fala.
— Eu pedi a explicação, não uma desculpa esfarrapada.— A interrompo.
As duas se olham como se avaliassem a situação.
— Ela é um homem...— A loira diz.— É um traveco, se veste de mulher, ia no banheiro junto com nós. Isso é um desrespeito com suas funcionárias, aceitar alguém assim na empresa.
Olho para Micaela, ela está encolhida em sua cadeira e não disse uma única palavra, sua expressão é de pavor.
— Passe na sala do RH.— Digo apenas.
— Vai lá Micael.— A loira comemora.
— Não estava falando com ela e sim com vocês, estão demitidas.— Caminho para minha sala.
— A senhorita não entendeu, ela é homem, um travesti, como vai ficar sua reputação tendo uma secretária desse jeito...
— Qual parte do "vocês estão demitidas" não deu pra entender?— Pergunto séria.
— A senhorita não pode nos demitir, trabalhamos para seu pai.— A loira diz.
Eu era diretora de departamento administrativo, não tinha poder sobre os outros, mas nessas horas devia usar o benefício de ser filha do dono.
— Claro, reclame para o senhor Charles, tenho certeza que meu pai vai escutar vocês e não a filha dele.
As duas me olham com raiva e por fim saem dali.
— Vá se acalmar primeiro, depois passe na minha sala.— Digo para Micaela, que estava bem abalada.
Vou para minha sala e vou adiantando meu trabalho, demora um pouco para Micaela aparecer, ela entra mais abalada do que a deixei, me entrega um papel.
— O que é isso?
— Minha carta de demissão, senhorita Chanel. O que elas falaram é verdade, eu sou trans, não vou mentir... já cansei de me esconder... então quis facilitar as coisas e sair com alguma dignidade, antes que a senhorita me demita.
— Por que eu te demitiria?— Pergunto sem entender.
— Eu sou trans... e eu...
— Você é uma secretária muito competente, isso é o que me importa, se você é homem ou mulher isso não faz diferença nenhuma.
Micaela começa a chorar. Levanta e a abraço, o que faz a chorar mais ainda de soluçar.
— A senhorita não faz ideia de como isso é importante para mim.
— Meu Deus, Micaela, só estou te tratando normal.
— Tem pessoas que nem acham que sou gente, eu não escolhi ser assim, ninguém escolheria passar por tanto preconceito e ser humilhada por querer ser livre.
— Ninguém devia mesmo.
Eu já sabia da orientação s****l, meu pai nunca deixaria alguém trabalhar tão próximo à mim sem conhecer bem a pessoa. Esse fato nunca me incomodou, Micaela era muito boa no que fazia e isso me bastava, também não queria a deixar constrangida com perguntas inadequadas.
Após esse episódio, eu e Micaela nos aproximamos bastante, claro que aquelas duas fizeram um alarde. Meu pai as demitiu como imaginava, contei para ele de minha secretária, seu Charles é um homem objetivo, ser bom em seu trabalho é o que importa, o resto não o interessa. Até me ajudou com qualquer um que a perturbasse, sob pena de demissão. As vezes é bom ser filha do dono.
Assim os dias foram passando, e duas semanas se foram. Sebastian me liga todos os dias, até então consegui fugir dele, mas uma hora teremos que conversar. Sinto falta dele, mesmo sabendo que traição não tem perdão, não sei se conseguirei me manter firme na frente dele.
O que me deixa mais aflita é o senhor Desconhecido, não consigo lembra o rosto dele, e nem parar de pensar nele. Só lembro das mãos dele como eram grandes e geladas, das costas tatuadas e dele dizendo que não dormiria comigo, ao lembrar a voz dele um arrepio percorre minha espinha.
— Algo está a preocupando, senhorita Chanel?— Micaela coloca a xícara de café à minha frente.
Não contei o que aconteceu para ninguém, tenho vergonha do chifre e do que fiz a seguir. Sair agarrando o primeiro homem que apareceu na minha frente é vulgar. Sinto que Micaela me escutaria sem me julgar.
— Preciso desabafar com alguém, que não julgaria minha atitudes, você me escutaria?
— Sou a última pessoa que te julgaria, pode falar.— Micaela senta na cadeira à minha frente.
Conto para ela tudo o que aconteceu naquela fatídica noite, desde quando cheguei de viagem e fui fazer uma surpresa para Sebastian, até eu acordando num hotel de ressaca e sem saber o que aconteceu na noite anterior.
— Deixa eu ver se entendi, você se sente culpada por ter ido pra um hotel com outro, mesmo depois de achar seu namorado te traindo?
— Eu não sou assim.
— Ao meu ver você não fez nada de errado, senhorita Chanel... acho que o errado foi não ter rolado nada entre você e o senhor Desconhecido.
— Estou confusa, sempre imaginei minha vida com Sebastian, ele sempre esteve comigo e não consigo me imaginar sem ele. Nem tive coragem de conversar com ele, por que sei que tenho que colocar um ponto final nisso.
Ela me avalia das cabeças aos pés.
— Posso fazer um pergunta íntima, senão quiser responder tudo bem.— Aceno que sim.— Você já esteve com outro homem?
Sinto meu rosto esquentar.
— Pra te falar a verdade... nunca namorei, nem beijei outro rapaz. Eu e Sebastian começamos a namorar bem cedo, e ele foi meu primeiro em tudo.
— Isso explica muita coisa.— Resmunga.— Eu fiz alguns semestres de faculdade de psicologia, foi o que me ajudou a entender quem eu era, e pelo que você me diz, a senhorita tem dependência emocional do Sebastian.
— Dependência emocional?
— Quando se esteve tantos anos junto com uma pessoa é normal não conseguir se ver sem ela. E as vezes até achar que nunca encontrará alguém melhor que o ex-parceiro. Você se acomodou com a relação que tinha e não consegue ver como o Sebastian era de verdade.
Era exatamente assim que me sinto, uma parte de mim queria voltar para ele, e outra dizia que eu estava sendo uma i****a. Não sei que parte ganharia.
— Posso te dar um conselho?
— Estou aberta à sugestões.
— Acho que a senhorita, devia viver novas experiências, quem sabe sair com outra pessoa... sem querer ofender, dormir com só um homem é meio deprimente.
— Não sei se já estou pronta para me envolver com alguém, não quero um novo relacionamento.
— Estava falando de sexo, não namoro.
— Micaela...— Falo chocada.
— Tá bom, tudo no seu tempo.— Micaela ri.— E o senhor Desconhecido? Não lembra nada dele.
— Lembro alguns flashes, ele era alto, forte, a coisa mais nítida que recordo é suas tatuagens, ele tinha uma tatuagem tipo dos yakuzas que vemos no filme.— Parece que volta aquela noite.— Ele tinha uma voz rouca e muito linda, mãos grandes e geladas.
Micaela me olha curiosa, e dá um sorrisinho de lado.
— Ele parece um homem interessante e muito atraente... quem sabe um dia, você reencontra o senhor Desconhecido.
— Quem sabe, né...
Isso era praticamente impossível.
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