CAPÍTULO 3
Tom vinha caminhando em minha direção, olhei para o corredor e saquei o celular rápido fingindo estar mandando áudio.
— Ah! Você está no telefone. Falei alto?!
— Não. Como foi hoje?
— Normal...Vou me trocar!
Fui para o quarto, fechei a porta. Tomy riu e eu me joguei na cama.
Claro que antes, ter um amigo imaginário não era nada, ainda mais depois do acidente, mas agora eu seria chamada de louca ou talvez seria até internada.
A semana passou devagar, sexta-feira chegou me dando algum alivio com os dois fora de casa, deixando somente eu e Tonto sozinhos.
— Lembra de quando fomos para a casa da vovó? - Perguntei.
— Muitas vezes...Qual você diz?
— Hmmmm desse dia aqui! - Apontei para o quadro na parede uma foto que minha mãe tirou da cerejeira com o banquinho embaixo.
— Lembro, foi a última primavera e a árvore estava florida! - Respondeu.
— É quase primavera de novo, poderíamos voltar! - Sugeri.
Fazia muito tempo desde a última vez, não sei se era por gentileza, mas a vovó Sofi também falava com Tom quando estavamos lá.
Talvez seria bom lembrar de fazer uma visita e sair daqui um pouco, já estava sufocante aguentar todo dia as reclamações, humilhações e gritos.
— "A voar!" - Tom diz.
— "Para a terra do nunca!" - Respondi.
Sempre fazíamos brincadeiras assim, imitando nossos desenhos favoritos, às vezes Peter Pan, às vezes Tinker Bell e por isso ele me chama de fadinha.
Depois de bagunçar um pouco fomos assistir, já estava bem tarde e eu quase cochilei no sofá.
A semana chegaria novamente e esse fato me deixava triste.
No dia seguinte o sábado quente cheio de luz, estalava o forro do teto do quarto.
Me sentei na cama e Tom olhava para mim com cara de quem aprontou.
— O que foi que você fez Tonto?
— Coloquei taixinhas no sofá... Sua mãe saiu e o...
Logo foi ouvido por nós um berro alto.
— Tá doido? Ele vai achar que foi eu!
— Ele quem estava mexendo com as taixinhas eu só virei a caixa... - Rimos.
— Você é um gênio!
(...)
A tarde se estendeu, depois do almoço a pequena louça esperava minha disposição, olhei o relógio na parede e marcava às duas da tarde. Já tinha feito tudo de necessário, e depois dali eu poderia finalmente dormir.
O calor me deixa tão cansada, que depois de comer o sono tomava conta de meu corpo.
Yunjoon entrou na cozinha e eu sequer me movi do lugar, estava debruçada na mesa de pedra que trazia um pouco de refrescância, ele jogou o prato que comeu na pia e saiu sem dizer nada, até chegar na sala.
— Ninguém vai limpar aquela pia não? - Perguntou para minha mãe, que veio andando pelo corredor dobrando uma fronha.
— Belle por que ainda não lavou a louça?!!! - perguntou irritada.
Na minha cabeça eu gostaria de devolver a pergunta: Por que eu tenho que lavar?!
— Já vou... - Levantei, e limpei a pia novamente.
Fui sentar no sofá e ouvi o suspiro pesado de Yunjoon.
Começou a dizer que a casa estava fedendo, tirou de não sei onde que a casa estava fedendo e que tinha que limpar de novo.
Me levantei preguiçosamente, e fui atrás dos produtos de limpeza, resolvi o "mau cheiro" logo e fui para meu quarto.
Sentei-me no chão, peguei meu celular. Estava assistindo algo aleatório quando Tom apareceu do nada.
— Garoto quer me m***r do coração?!!
— Desculpa! O que está assistindo?
— Qualquer coisa pra passar o tempo, se eu dormir agora não vou dormir a noite!
— Você esta tão fofa com essa carinha de sono...
— Eu estou? - Sorri.
— Sempre está na verdade!
— Com cara de sono?
— Também! - ele diz.
O empurrei e rimos, ficamos um tempo nos encarando. Ele sorriu virando a cabeça para o lado de forma adorável.
— Tonto... Seria estranho se a gente se gostasse?
— Eu não sei, talvez mais pra você do que pra mim...
— Parece algo bem maluco né? - perguntei ainda o encarando.
— É... - Tom sorriu fraco e se afastou.
Meu celular tocou, era j**k, disse que ia chamar o pessoal pra sairmos todos juntos e eu disse que era melhor eu não ir, estava m*l por causa do calor, o que não era totalmente mentira, mas sei também que não poderia sair.
— Jack... Ele é seu amigo também? - Tom me olha sem graça.
— É sim, nunca posso sair com eles... - Suspirei.
(...)
Na segunda feira de manhã meio sem coragem fui para o curso, por milagre fomos liberados mais cedo. j**k estava finalmente entre nós, ele parecia triste, e então tive uma ideia.
Segure-o pelo braço de j**k e parei em frente aos meninos que caminhavam todos lado à lado.
— Quem topa apostar corrida até a sorveteria perto da minha casa? O último a chegar paga a conta!
— Ah correr Bell sério!? - Guil fez uma careta.
— Para de ser sedentário!
— Eu topo! - Rafa começou a correr, j**k sorriu e correu também.
Fomos os três na frente enquanto Matt e Guil caminhavam tranquilamente.
Morrendo de rir e quase sem ar, coloquei o braço em volta do pescoço de j**k e me apoiei.
— Ok acho que correr não foi uma ideia tão boa! - Eles riram.
— Obrigado!! - j**k diz sem fôlego.
— Depois vai contar pra gente o motivo desse Narizinho lindo estar triste!
— Ok...
Jack tem pintinhas no nariz que quando ele sorri parece um rosto feliz, mas quando fica sério parece um nariz triste.
Ainda na entrada da sorveteria, esperávamos os dois lerdos, e assim que chegaram, entramos e pegamos lugar em uma mesa ao lado da janela.
E de longe acabei avistando Tom, mandei um tchauzinho e ele exitou ao levantar a mão e voltou a andar, aquilo me deixou curiosa e preocupada.
Algum tempo depois cheguei em casa, tirei os sapatos e calcei os chinelos. Respirei fundo sentindo o cheiro de resto de comida, e roupa suja.
Fui para o quarto e encontrei Tom, ele estava chorando.
— Tonto? O que foi? - me aproximei sentando em seu lado e ele levantou.
— Eu preciso ir embora.... Me desculpa!
— Ir... Embora?
Meu coração apertou e na minha cabeça eu só tentava achar o motivo.
— Eu não devia estar aqui, eu não sou real! Seus amigos são reais, você é real... Eu não posso mais ficar, você vai ter a sua vida um dia e eu vou te atrapalhar...
— Que m***a você está falando Tomy? - Meus olhos não viam mais claramente por conta das lagrimas.
— Belle, eu não consigo te ver com outras pessoas assim... E saber que nunca vou ser eu... Porque eu sequer deveria estar aqui... Eu não posso ser visto, não posso nem te defender de tudo que você passa!!
— E-Eu não me importo! Eu vejo você, eu sinto você eu... Por favor Tonto não me deixa sozinha aqui!!!...
— Você precisa crescer. Eu preciso ir embora vai ser melhor assim!!
— Eu não posso, por favor eu... Você é tudo que eu tenho Tonto!
— E você tudo que eu tenho Bell... Eu te amo de mais pra destruir sua vida e te prender a uma ilusão... É melhor que seja assim... Nunca poderíamos ficar juntos de qualquer forma! Cresça meu pequeno anjo, mas lembre se de mim tá bom?
Eu fico sem reação, as lágrimas quentes queimam meu rosto, o soluço alto e sufocante não me deixavam chamar por ele, quando cheguei ao lado de fora de casa ao abrir a porta, já era tarde.