** DUAS SEMANAS DEPOIS **
A porta trancada, as coisas jogadas no chão, o cheiro da roupa suja embrulhava meu estômago, o fone alto abafava o som dos gritos vindo da sala onde minha mãe e Yunjoon discutiam pela terceira vez no dia.
Meu corpo estava muito dolorido, a comida do dia anterior na cômoda do quarto começava a ficar com cheiro estranho. Desde que o verdadeiro Tomy acordou, estou sozinha, j**k não vinha mais em minha casa, e tudo que eu tentava fazer ou dava errado ou ficava r**m.
Essa semana foi difícil ter paz, e tenho quase certeza de que estou ficando s***a por conta da música alta.
As brigas frequentes tinham um fator em comum, a nitidez do quanto eu estava sendo inútil, por mais que eu tentasse ficar bem e lidar com aquilo nada parecia funcionar. Depois de alguns dias após o despertar de Tom, decidi que ia tentar esquecê-lo.
(....)
Em alguns minutos meu despertador tocaria, para que eu pudesse ir para aula, tentei parecer o melhor possível e ir. Naquele dia eu teria uma prova.
Como nos outros dias, meu humor estava afetando meus amigos, e isso os afastou de certa forma. No meio de uma aula a pós a prova, a diretora da escola de artes, vem nos apresentar o novo aluno que entrou sorrindo acompanhado de j**k.
- Fala sério...
- O que foi? - Rafa me pergunta.
Claro, não o respondi como tem sido minha situação nos últimos dias, sempre que eu abria a boca alguém me jogava perguntas e a preocupação estava me sufocando não queria ficar lembrando. Apesar disso, eles ainda permaneciam por perto sempre.
O sorriso largo de j**k me fez sorrir, ele parecia tão feliz e estavamos tão próximos. Antes sequer lembrava de mim, agora eles dão a voz ao aluno novo, tímido e sorridente, Tomy.
Ele foi apresentado para a turma, e depois se auto apresentou todo sem jeito. Me perdi em seu sorriso por alguns minutos, ele veio se sentar perto de nós, claro, j**k já até tinha deixado uma cadeira vazia perto de nós, mas eu sequer tinha notado.
— Gente, esse aqui é o Jeon, Jeon Tae Youn. - Lee e eu o chamo de Tomy lee, é mais simples e fofo também!
— Olá gente, desculpa invadir a turma de vocês! - sorriu.
Jack o apresentou a cada um dos meninos. Rafa e Guilder não pareceram simpatizar muito com Tomy, eles levam tempo pra gostar das pessoas. Matt logo ofereceu que colocasse a cadeira ao lado da sua.
— E essa é a Bell! - j**k sorriu fraco sabendo o meu lado.
— O-oi, Bell... - Ele diz sem graça.
Minha garganta se fecha por um momento, respiro fundo e sem retirar meus olhos do caderno e o respondo.
— Desculpa, mas estamos em aula então pode fazer silêncio por favor? - Tentei soar o mais amigável possível, mas farpas rasgava minha garganta aos poucos.
Ele sorri concordando e se sentou com j**k. O dia acabou, e tenho certeza que fui muito m*l na prova.
— Ei pequena! Entra, eu te levo!
— Não Guil obrigada, eu posso ir andando!
— Vem logo!
— Sem interrogatório pode ser?
— Não, agora entra!
Não tinha jeito, Guil era teimoso, então acabei cedendo e aceitei sua carona.
— Vai pode ir dizendo, ainda está m*l com aquilo, não é?
— Não, eu estou bem! - Resmunguei.
— Bem coisa nenhuma! Você está pior que antes, quando foi a última vez que você dormiu? - Perguntou sem tirar os olhos da estrada.
— O que isso importa Guilder?
— Importa que já é a segunda vez que te vejo assim, você agora piorou e nem fala comigo!! Foi o j**k?! Vocês estavam próximos e você parecia melhor, ele fez alguma coisa? - Apertou as mãos no volante.
— Claro que não! Eu já disse que estou bem. Foi a prova, estou estressada estudei muitos dias, estou exausta só isso. - Menti.
— Você mente m*l pra caramba. - Ele riu.
Guil virou em uma rua que eu não conhecia, notei finalmente que estávamos nos direcionando para outro lugar.
— Ah... Minha casa não é aqui.
— É eu sei, é a casa do amigo do j**k, ele vai nos apresentar hoje melhor esse cara!!
— Mas você nem perguntou!
— Exatamente, é mesmo óbvio que você iria recusar!!
Me desesperei, isso seria terrível. Fomos até a entrada e j**k foi quem nos recebeu.
— Bell? Não sabia que ia vir...
— É nem eu!
Entramos na casa e fomos muito bem apresentados novamente ao garoto e sua família, incluindo o primo que morava com eles, Park Yohan.
— j**k não avisou que vinha uma moça eu poderia ter tomado pelo menos um banho... - sorriu me encarando.
— Saí pra lá garoto! - j**k o empurra.
— Ah she is beautiful! - Ele diz em inglês, talvez pensasse que eu não entenderia.
— Obrigada, você também é bonito! - Eles me olham e começo a rir, j**k dá tapas na cabeça de Yohan que ainda ria.
— Você é um i****a sabia? - Diz para Park.
Tomy observou tudo calado, talvez não tivesse achado graça.
— Tudo pronto, vamos comer? - Denn vem da cozinha junto com uma senhora, a sua mãe e de Tomy.
Na mesa conversamos normalmente, agradeci Denn por ter me ajudado na vez em que eu desmaiei. Descobri que por acaso seu nome também é um apelido dado pelo j**k, Jeon Dae-haeyong, j**k era um intercambista preguiçoso aparentemente mas, os apelidos são legais.
Achei que seria um caos, notei vez ou outra Tom me encarando, meu fio de esperança quis acreditar que ele parecia estar se lembrando de algo mesmo sabendo que não.
Eu acho que de todos aqui, eu era a única calada por tanto tempo, a vontade de ir embora me perturbava como uma coceira no pé.
Rafa conversava normalmente super animado com Tomy, eles pareceram se conhecer há anos e se deram muito bem. Matt matinha sua atenção em Denn, os dois falavam de receitas de peixe assado e Guilder conversava sobre alguma coisa com o Yohan.
— Gente... Eu amei estar aqui, Denn você cozinha muito bem mas, eu preciso ir embora não avisei que chegaria tarde e vai dar oito da noite...
Eu já esperava levar uma bronca ao chegar em casa, obviamente, como prisioneira eu não tinha esse direito de chegar em casa às oito da noite.
— Claro, vamos eu levo você! - Guil diz.
— Bom te ver novo! - Denn diz.
— Igualmente, obrigada de novo!
Fomos para fora da casa depois de uma breve despedida de todos, Rafa me abraçou forte e pude ouvir ele dizer baixinho "Se precisar conversar me liga".
Apenas concordei com a cabeça, e então fomos, depois que entrei dentro do carro o silêncio pareceu um momento tenso.
— Está tudo bem? - Guil pergunta colocando em seguida seu cinto de segurança.
— Irei ficar...
***** P.O.V Jeon Tae Youn *****
Ela foi embora com o cara, um dos amigos de j**k, que aparentemente é mais próximo de mim do que meu primo, isso é tão confuso, sinto que estou perdido em um grande vazio sem lembranças, e realmente estou.
O jeito dela me deixou atraído, soube assim que a vi pela primeira vez que algo a incomodava, era como se eu sentisse algo errado no ambiente, uma energia inquietante e pesada.
— Aí j**k quem é ela exatamente?!
— A Belle? Bom... É uma amiga, nos conhecemos na escola de arte há quase dois anos, o que eu sei é que ela se mudou ainda pequena para a coreia. Acho que ela era da China, o pai dela morreu no mesmo acidente que te deixou em coma...
— Então era a família dela...
Arregalei os olhos com tal informação, ela esteve na minha casa e eu nem pude me desculpar pelo o que houve. Mesmo não me lembrando do que aconteceu ou que estava errado, ela perdeu alguém, e eu não.
Há alguns dias quando fiquei mais confortável em conversar, perguntei a Dae Haeyong como tudo aconteceu, ele disse sobre a familia do outro carro, disse que batemos mas não contou o que causou.
— Vou me deitar, boa noite... - Falei já subindo as escadas.
— Não esta muito cedo cara? - j**k pergunta, ele já estava de saída com seus amigos que eu já havia esquecido os nomes.
— Estou cansado, boa noite, foi um prazer conhecer vocês! - Sorri, e continuei subindo as escadas, cheguei em meu quarto e me joguei na cama. Acabei não dormindo, na verdade, peguei meu caderno de desenhos. Nos últimos dias desenhava tudo que via em meus sonhos, ou no pouco que dormia, às vezes acontecia alguns pesadelos chatos e sem sentido me fazendo acordar às três da manhã.
Alguns sonhos tinham algo em comun muito curioso, uma garota.
Os desenhos são tão específicos, mas nunca vejo o rosto dela, nenhum traço, não é como se ela estivesse sem um rosto, mas sempre não dava para a vê-la.
As vezes estava com os cabelos na frente, por causa do vento, ou de costas como no desenho em que ela está sentada de costas em frente a uma janela ou em cima da cama, ou cobrindo o rosto sentada e chorando nos fundos de um jardim.
Depois de folhear e encarar todos os desenhos como faço todas noites, resolvo tomar banho. A água morna me deixou mais relaxado, ao sair fui escovar os dentes e encarei o box de vidro do banheiro embaçado pelo vapor do chuveiro.
Depois de pronto pra dormir e apagar as luzes passei a mão no caderno, me segurando para não ir analisar os desenhos de novo como de costume. Finalmente deitei e fechei os olhos na esperança de ser mais um sonho com a moça e não outro pesadelo, e que dessa vez eu consiga ver seu rosto.