CAIO SANTORO
Nos despedimos dos últimos convidados com a cordialidade fria que o meu cargo exige e seguimos para casa. O trajeto de volta foi marcado por um silêncio absoluto e sufocante, interrompido apenas pelo som rítmico dos saltos da Louise contra o chão de mármore assim que cruzamos a entrada. Sem dizer uma única palavra, ela seguiu direto para o andar de cima e trancou a porta do quarto. Eu fiz o mesmo no meu escritório. O banho gelado que tomei em seguida não foi suficiente para lavar a tensão que queimava nos meus músculos, tampouco o peso das minhas suspeitas; tudo o que vinha à minha mente era ela, seu cheiro, sua atitude arredia e a constante sensação de que havia peças faltando nesse quebra-cabeça.
Acordei quando o céu ainda estava escuro. Não havia espaço para distrações interpessoais hoje. Tínhamos um traidor para eliminar dentro da nossa própria estrutura, e eu precisava resolver essa praga antes que o problema escalasse e atingisse a estabilidade da família.
Vesti minha roupa tática, ajustei o holstee da arma sob o paletó e saí. O motor do meu Maserati preto rugiu na garagem enquanto eu acelerava em direção ao ponto de encontro nas docas. De longe, avistei a figura alta de Enzo encostada no capô de seu carro.
ENZO: — Tudo pronto, Caio. Apenas aguardando você para dar a ordem final.
— Estou aqui — respondi, desembarcando com o olhar fixo no perímetro. — Vamos resolver isso de uma vez por todas.
ENZO: — A carga interceptada chegou no setor oeste do porto. Mudamos a rota de entrega exatamente como combinamos no plano de contenção. Apenas eu, você e o Mario sabemos a localização exata deste perímetro.
O sinal de rádio que esperávamos finalmente apitou no bolso de Enzo. Ele atendeu, escutou por alguns segundos e me encarou com um sorriso gélido.
ENZO: — Eles caíram na armadilha. Já estão na área dos contêineres.
Nossos homens já estavam estrategicamente posicionados nas alturas. Os invasores achavam que estavam emboscando um comboio desprotegido, mas não contavam com os mais de cinquenta soldados treinados espalhados pelas sombras do porto.
Um dos meus capitães aproximou-se, falando baixo.
SOLDADO: — Senhor, os mercenários já estão no miolo do porto. No seu sinal, avançamos e fechamos as saídas.
Mirei o cenário à frente. Olhei para Enzo e dei um leve aceno de cabeça. A ordem era clara, direta e sem espaço para negociação: matar todos e deixar apenas um vivo. Eu tinha um recado sangrento e bem autoexplicativo para mandar diretamente ao capo da máfia alemã.
A troca de tiros que se seguiu foi rápida, violenta e brutal. O som de disparos e vidros se quebrando ecoou pelo porto. Avancei entre os contêineres e, no caminho, abri passagem eliminando três homens com as próprias mãos e disparos à queima-roupa, sentindo o cheiro de pólvora e sangue impregnar o ar. Ao final do confronto, meus homens renderam o único sobrevivente: um soldado alemão ferido, de joelhos no chão.
Aproximei-me, segurando-o pelo colarinho e encarando seus olhos aterrorizados.
— Você vai me fazer um grande favor hoje — disse, baixinho, com a voz carregada de perigo. — Vai levar um recado muito específico para o seu chefe.
Dei um sorriso sombrio e ordenei que o levassem algemado até o galpão privado, onde o soldado traidor da nossa própria equipe já estava contido. Mas antes de me enfiar no porão da tortura, eu precisava expor a sujeira na nossa sede principal e expurgar o m*l pela raiz na frente de todos.
Convoquei uma assembleia de emergência no salão do conselho. Em menos de uma hora, os homens mais poderosos da família estavam sentados ao redor da longa mesa de carvalho.
— Bom dia, senhores — comecei, caminhando lentamente pela cabeceira da mesa, mantendo as mãos nas costas. — Descobrimos recentemente que os roubos recorrentes das minhas cargas nas fronteiras estavam sendo encomendados pela máfia alemã.
Um burburinho imediato tomou conta da sala. Homens murmurando pragas e exigindo retaliação. Silenciei o recinto inteiro apenas erguendo a mão e lançando um olhar afiado.
— O que realmente me intrigava — continuei, desacelerando os passos atrás da cadeira de um dos conselheiros — não era a audácia dos alemães, mas sim como eles entravam e saíam do meu território sem serem vistos pelos meus radares. A resposta era simples: a podridão estava aqui dentro.
O silêncio que se seguiu foi sepulcral. Todos começaram a se olhar com desconfiança. No canto esquerdo da mesa, notei Mario. Ele suava frio, a testa brilhando sob a luz do lustre, o nervosismo exalando por cada um dos seus poros.
Um dos conselheiros mais antigos pigarreou, quebrando a tensão.
CONSELHEIRO: — Se me permite a pergunta, Don Santoro... o senhor já sabe quem é o responsável por essa desonra? Quem é o traidor?
Parei exatamente atrás da cadeira de Mario. Coloquei a mão sobre o encosto de madeira.
— Sim. E hoje é o último dia que ele vê a luz do sol.
Sem dar margem para qualquer reação ou apelo, saquei a arma do coldre e disparei um tiro certeiro na cabeça de Mario. O som do tiro ecoou como um trovão nas paredes de pedra, e o impacto do corpo dele caindo pesado contra o chão foi seguido por um silêncio absoluto e horrorizado dos presentes.
Guardei a arma com calma, encarando cada um daqueles homens.
— Esse é o destino de todos aqueles que ousarem trair esta família ou vender os nossos segredos. Limpem essa sujeira.
Saí da sala sem olhar para trás e fui direto para o galpão isolado no subsolo da propriedade. O soldado italiano que ajudava Mario nos esquemas já estava amarrado a uma cadeira de metal, ensanguentado, e começou a gritar assim que me viu cruzar a porta.
— Eu não tive escolha, Don Santoro! Eu juro pelo amor de Deus! Ele ameaçou minha família, ele sabia onde meu filho estuda... eu tenho um filho pequeno! Misericórdia, senhor!
Aproximei-me, puxando uma cadeira e sentando-me de frente para ele, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Vou te fazer uma proposta irrecusável — falei, mantendo o tom assustadoramente calmo. — Me dê algo realmente útil, nomes e conexões, e eu permitirei que sua família saia viva e intacta da Itália. Eu mesmo cuidarei da segurança e do sustento deles fora do país. Caso contrário... você sabe como funciona.
O homem me analisou, enxergando a verdade fria nos meus olhos, e cedeu, desabando em lágrimas.
— O Mario... o Mario não estava satisfeito com a posição dele no conselho — ele começou, cuspindo sangue. — Ele fez um acordo secreto com a alta cúpula da máfia alemã. Eles o ajudariam a tomar o seu lugar como Don... e, em troca, quando o golpe estivesse concluído, ele entregaria a sua esposa, a Sra. Louise, para o capo da Alemanha como troféu.
Naquele exato instante, o ar sumiu dos meus pulmões e meu sangue ferveu de uma forma que nunca experimentei antes. O desgraçado queria a Louise. A mera ideia de outro homem tocando nela, tirando-a de mim ou ousando olhar para ela com desejo de posse fez uma fúria cega tomar conta da minha mente. Se eu pudesse ressuscitar Mario e matá-lo mil vezes, ainda seria pouco para pagar por esse pensamento.
Avancei dois passos, prensando o traidor contra a cadeira.
— O Mario não tinha contato direto com o capo alemão — rosnei. — Quem fez a ponte entre eles? Quem negociou a Louise?
— Henri Petrov! — ele gritou, em pânico. — Foi o Petrov que organizou as reuniões!
— E o Klaus? E a Helena? — exigi saber, tentando juntar todas as pontas daquela rede de cobras.
— O Klaus não sabe de nada! Ele é um inútil, só quer saber de bebida, apostas e mulheres. A garota... a Helena foi vendida pelo próprio irmão em troca de uma aliança comercial. Klaus nem desconfia do resto!
Absorvi as informações. Sem hesitar mais nenhum segundo, tirei a vida do soldado com um único disparo limpo no peito, encerrando sua existência.
Virei-me para os meus homens e ordenei que trouxessem o soldado alemão capturado no porto. O homem tentou resistir, esbravejando em sua língua nativa, mas no momento em que peguei o telefone e mostrei a ele uma transmissão ao vivo da casa dele na Alemanha, com meus homens posicionados do lado de fora observando sua esposa e seu filho, o orgulho dele ruiu. O medo absoluto tomou conta do seu rosto.
O processo de interrogatório e extração de detalhes com ele foi longo, meticuloso e doloroso. Quando finalmente extraí tudo o que precisava e o deixei inconsciente pelo esgotamento, ordenei ao nosso médico particular que operasse o prisioneiro e costurasse uma bomba com detonador remoto dentro da cavidade abdominal dele. Ele seria acordado, despachado de volta e serviria como o meu presente de entrega pessoal para o capo alemão. Um cavalo de Tróia moderno e letal.
Saí do galpão já no final da noite, tomado por um ódio visceral que eu m*l conseguia processar. Minhas mãos ainda tremiam levemente no volante durante o caminho de volta. O pensamento do que poderia ter acontecido com a Louise se eu não tivesse descoberto essa trama a tempo... aquilo era simplesmente insuportável. A ideia de perdê-la ou de vê-la nas mãos daquele desgraçado acendia um lado meu que eu nem sabia que existia.
Cheguei em casa, passei pela sala sem falar com ninguém e subi os degraus da escada de dois em dois. Abri a porta do quarto principal com cuidado. O ambiente estava escuro, iluminado apenas pela fraca luz do luar que entrava pela janela.
Louise dormia profundamente, deitada de bruços, vestindo apenas uma calcinha de renda. Era uma visão de paz e pureza absoluta, um contraste doloroso com o inferno cheio de sangue e tortura que eu tinha acabado de deixar lá fora.
Aproximei-me devagar, sentando-me na borda do colchão. A respiração dela era suave. Estiquei a mão e acariciei seus cabelos macios, afastando algumas mechas do seu rosto. Sentir a pele quente dela sob meus dedos fez o aperto no meu peito finalmente começar a ceder.
Com o movimento, ela se mexeu devagar. Abriu os olhos devagar, piscando por conta da penumbra, e encarou minha figura sentada ao seu lado.
LOUISE: — Caio? — a voz dela veio rouca de sono, confusa. — Que horas são? Você... você está bem?
Olhei para ela, sentindo uma mistura avassaladora de proteção, posse e um afeto desconhecido que ameaçava quebrar todas as minhas defesas.
— Eu não sei o que você está fazendo comigo, Lou... — murmurei, com a voz falhando levemente pela exaustão emocional. — Mas sinto uma vontade imensa e incontrolável de ter você sempre por perto. De nunca mais deixar nada nem ninguém te tocar.
Aproximei-me e, sem pedir licença, puxei-a suavemente para os meus braços, abraçando seu corpo macio contra o meu terno ainda sujo da noite. Para minha profunda surpresa, ela não recuou, não fez nenhuma piada ácida e nem tentou se afastar; ao contrário, soltou um suspiro calmo e aninhou-se inteiramente contra o meu peito, descansando a cabeça no meu ombro.
Senti sua respiração aos poucos tornar-se profunda e ritmada novamente. Ela adormeceu sobre mim, ali mesmo, confiando o próprio corpo ao meu abraço. Fiquei parado na escuridão, sentindo o batimento cardíaco dela contra o meu. Eu não conseguia — e, pela primeira vez na minha vida inteira, eu não queria — sair daquele quarto.