CAPITULO 29

780 Words
LOUISE SANTORO Não falo com Helena desde o dia em que ela pousou. Não a estou pressionando, mas não reconheço essa nova versão da minha amiga. Ela nunca foi pessimista, triste ou submissa; o fato de estar aceitando esse casamento passivamente me preocupa profundamente. Acordo cedo para malhar. Faz três dias que não troco uma palavra com o Caio. Sinto que ele anda me evitando, mas, honestamente, não estou fazendo questão de investigar. Agora, estou focada em um trabalho voluntário com minha sogra. Ela se dedica muito a isso e me pediu ajuda; como não faço muita coisa no dia a dia, resolvi aceitar. O projeto foca na educação de crianças que não foram adotadas nos orfanatos, garantindo que, ao completarem dezoito anos, elas não fiquem desamparadas. Dona Amélia criou uma rede de restaurantes, hotéis e casas de massagem para empregar esses jovens, oferecendo suporte e moradia. Fiquei genuinamente impressionada. — Esses orfanatos também foram criados pela senhora? AMÉLIA: — Não, querida. Quando me casei com o pai do Caio, minha sogra já os havia fundado. Ajudar as pessoas era o que a fazia radiante. Quando ela faleceu, prometi que manteria o legado próspero como ela sempre quis. Dona Amélia se emociona ao falar. Depois do almoço, volto para casa. Verifico meu celular mais uma vez e nada de Helena. O silêncio dela começa a me consumir. MARINA: — Senhora Louise, o senhor Santoro pediu que a senhora fosse ao escritório assim que chegasse. Dou duas batidas à porta e entro. CAIO: — Já almoçou? Arqueio uma sobrancelha e vejo um sorriso discreto surgir no canto da sua boca. — Sim, almocei com sua mãe. Mas sei que você já sabia disso. CAIO: — Sim. Louise, o que você sabe sobre a família da Helena? — Que pergunta é essa? O pai dela faz parte do conselho russo. Conheço a Helena desde criança. Está acontecendo algo que eu deveria saber? CAIO: — Você já sabia que ela tinha sido prometida, não sabia? Minhas mãos começam a suar. Não gosto do rumo dessa conversa. — Sei. O que isso tem a ver? CAIO: — Durante meses, nossas cargas foram roubadas dentro do nosso território. Descobrimos que um dos nossos homens estava acobertando a máfia alemã a mando do Mario. Torturamos um dos envolvidos e ele abriu o jogo: o pai da Helena vendeu a própria filha em troca de armamentos para tentar um golpe contra o próprio conselho e março se aliou a máfia alemã para conseguir isso. O seu pai e seu irmão já deram um fim nele, mas Helena... — Onde ela está? Vocês a acharam? Meu coração dispara, a respiração falha. CAIO: — O acordo já estava selado. Ontem ela se casou com Armand Leroy, o maior traficante de armas da Europa. Não pertence à máfia nenhuma, é apenas um fornecedor global. Klaus tentou negociar, mas o contrato é irreversível. Eu sinto muito. O chão sob meus pés desaparece. As lágrimas caem, quentes e incontroláveis. — Caio, ele vai matá-la! Ela não me responde há dias. Por favor, faça alguma coisa, tire-a de lá! Imploro, embora, no fundo, eu saiba que nem o poder do Caio pode simplesmente ordenar o fim do contrato. Três meses se passaram. Sem notícias, sem apetite, as notas na faculdade despencaram e as olheiras tornaram-se parte do meu rosto. Apenas a Sarah tem me ajudado a manter o mínimo de foco. MARINA: — Bom dia, trouxe frutas e iogurte para você. — Deixa aí, Marina, eu como já. MARINA: — Oh, garotinha... não faça isso consigo mesma. Você está ficando fraca, perdendo peso. Não vai conseguir ajudar sua amiga se não tiver forças nem para ficar de pé. Pego a tigela e como. Ela sorri e se retira. Horas depois, batidas na porta. CAIO: — Posso entrar? — Já entrou, né? Abro um meio sorriso. CAIO: — Já arrumou suas malas? — Sim, a Marina me ajudou. Estão ali. Hoje embarcamos para a Rússia. Meu pai finalmente se aposentou e passará o posto para o Lucca. CAIO: — Vamos embarcar logo após o almoço. Desça para almoçar comigo. Almoçamos juntos e seguimos para a pista de pouso. O avião é maior do que o habitual. Ao entrar, vejo a família toda acomodada; até o Enzo está aqui, e a cara de poucos amigos da Beatrice é impagável. Acomodo-me ao lado do Caio e, aproveitando a proximidade, encosto no seu braço. Sinto o momento exato em que ele deposita um beijo na minha testa e me abraça. Esse gesto, tão simples e ao mesmo tempo tão raro, faz meu coração disparar em uma mistura de esperança e medo pelo que encontraremos em solo russo.
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