CAPITULO 30

1368 Words
CAIO SANTORO Agora que a ameaça interna na máfia foi contida e a praga do traidor foi devidamente eliminada, sinto que o peso esmagador sobre as minhas costas diminuiu um pouco. Mas o descanso no nosso meio é uma ilusão rápida. Amanhã ocorrerá a cerimônia oficial de nomeação do Lucca como o novo líder. Como somos aliados estratégicos e cunhados, a minha presença não é apenas desejada, é estritamente obrigatória. Além disso, os laços entre a minha família e a dos Santoro atravessam gerações de sangue e acordos, motivo pelo qual meus pais decidiram viajar conosco para a Rússia. Resolvi não avisar a Louise com antecedência sobre a presença deles a bordo apenas para evitar mais acúmulo de estresse sobre ela, o que explica perfeitamente o espanto em seu rosto ao encontrar todos reunidos no jato particular. A aeronave finalmente toca o solo russo. Aproximei-me da poltrona onde ela repousava e toquei suavemente seu ombro. — Lou... chegamos. Ela abre os olhos devagar, visivelmente inchados pelo sono profundo. Passou praticamente a viagem inteira desacordada, exausta pelas noites m*l dormidas. LOUISE: — Chegamos já? — ela murmura, ajustando-se no assento e olhando pela janela. — Até que enfim, sim — respondo, oferecendo a mão para ajudá-la a se levantar. — Mas também, você dormiu o trajeto inteiro. LOUISE: — Não tenho conseguido dormir direito esses dias... — ela abaixa o olhar, a voz falhando de leve. — Me desculpa por estar tão avulsa. — Não precisa se desculpar por nada, Lou — digo, aproximando-me e segurando seu rosto por um instante. — Eu sei o quanto está sendo difícil aceitar tudo o que aconteceu com a Helena, mas acredite no que vou te dizer: estamos fazendo absolutamente tudo o que está ao nosso alcance para manejar essa situação. Ela apenas concorda com um aceno silencioso e desce na minha frente pela pista do aeroporto. Assim que pisamos em solo firme, o reencontro dela com o pai é carregado de emoção, uma cena íntima e dolorosa que prefiro observar de longe, dando a eles o espaço necessário. Louise decide que passará os próximos dias na casa dos pais. Entendo e respeito totalmente a escolha dela; nunca fui fã de invadir o espaço alheio, mesmo tratando-se dos meus sogros. Por isso, sigo com a minha escolta para a nossa própria propriedade aqui na Rússia. Mais tarde, no final da tarde, reúno-me com Klaus e Lucca em um escritório reservado para alinhar os ponteiros antes da cerimônia. — Alguma notícia direta da Helena? — pergunto, servindo uma dose de uísque e entregando o copo a Klaus, que parece carregar o peso do mundo nos ombros. KLAUS: — Falei com ela logo pela manhã — ele suspira fundo, encarando o líquido dourado. — Ela tenta se mostrar forte e diz que está serena, mas deu para sentir toda a tristeza e o desespero velado pela voz dela... Isso está me acabando por dentro, Caio. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo: uma sensação insuportável de impotência, o luto pelo nosso pai e a raiva pelo que o nosso irmão fez antes de morrer. LUCCA: — Estamos aqui para te apoiar no que for preciso, Klaus — intervém Lucca, colocando a mão firmemente sobre o ombro dele. — Todos nós sabemos que não era a sua intenção original assumir o comando da família agora, mas as circunstâncias cruéis da máfia não nos deixam outra escolha. E sobre a Helena... eu sinto muito de verdade. A decisão final sobre qual caminho tomar em relação ao contrato é inteiramente sua, e eu estarei ao seu lado para cobrir suas costas, independente de qual seja. A família é tudo o que nos restou no meio desta sujeira. Concordo em silêncio com as palavras do Lucca e erguemos nossos copos, bebendo sob uma atmosfera pesada. O restante do dia passa de forma arrastada. Não vi a Louise durante a tarde; ela preferiu passar cada minuto com a mãe e com a Beatrice, buscando desesperadamente algum tipo de conforto na companhia feminina, embora todos saibamos que a ausência e a situação de Helena deixavam um vazio simplesmente insubstituível naquela casa. À noite, já de volta à minha propriedade, a agitação no meu peito não me deixa sossegar. Pego o celular e discador o número dela. — Alô? — a voz dela soa do outro lado da linha após três toques. LOUISE: — Oi, Caio... — Liguei só para saber se você está bem. Como foram as coisas por aí? LOUISE: — Estou... na medida do possível. Obrigada por perguntar. A voz dela está claramente embargada, densa de choro contido. Consigo imaginá-la encolhida na cama. Um aperto incômodo e denso surge no meu peito. — Lou... ouça o que vou te dizer — falo, com o tom mais calmo e firme que consigo projetar. — Sei que nada do que eu disser agora vai amenizar essa dor que você está sentindo. O Klaus também está desolado. Estamos trabalhando sem parar para encontrar uma solução diplomática ou estratégica que não desencadeie uma guerra aberta entre as famílias, porque isso é um terreno completamente minado. Mas eu te prometo uma coisa: dentro de tudo o que for humanamente e politicamente possível, eu vou ajudar a tirar a Helena de lá. O choro dela, que até então era contido, escapa em um soluço sofrido do outro lado da linha. Era uma fragilidade que eu não conhecia nessa versão forte e petulante dela. Odeio ver a minha mulher vulnerável e sem defesas, e o que mais me irrita é a sensação amarga de estar momentaneamente de mãos atadas por regras antigas da Omertà que não podemos simplesmente rasgar sem pagar um preço alto demais. Acordo muito cedo no dia seguinte e saio para correr pelas redondezas frias da propriedade. Na verdade, m*l preguei o olho durante a madrugada; minha cabeça não para de articular cenários e saídas. Hoje é o dia da cerimônia oficial de posse do irmão dela. Haverá uma recepção rápida para os conselheiros e aliados após o juramento, mas ninguém ali tem estômago ou ânimo verdadeiro para grandes comemorações. Já combinei que no dia seguinte voltaremos imediatamente para a Itália. Acho que será infinitamente melhor para a Louise; permanecer aqui na Rússia só faz com que cada canto da cidade a lembre da irmã e da tragédia familiar. A complexidade dessa situação com o comprador da Helena é uma teia perigosa. Nunca tivemos problemas diretos com Armand Leroy e jamais fizemos negócios oficiais com ele no passado. Eu sei que o falecido pai da Helena o conhecia socialmente, mas nunca houve acordos formais de casamento estipulados entre as famílias. A verdade só veio à tona nas nossas investigações recentes: descobrimos que, além do fatídico contrato de fornecimento de armamentos, Henri Petrov — o pai delas — havia acumulado dívidas astronômicas de jogo com Armand. Esse foi o verdadeiro e sórdido motivo para ele ter entregado a própria filha como moeda de troca. Armand sabia perfeitamente que Henri estava traindo a própria estrutura da máfia e que estava afundado em lama, e por isso ele se mantém tão isolado, trancado em suas fortalezas e fechado para qualquer tentativa de diálogo ou renegociação conosco. Iniciar uma guerra direta contra Leroy para resgatar a Helena não é uma opção simples: seria provocar um banho de sangue catastrófico e desnecessário para ambas as partes. O casamento entre Armand e Helena foi selado rigorosamente dentro das leis e regras formais de honra do nosso submundo. Apesar de Leroy não pertencer formalmente a nenhuma facção tradicional da máfia, ele possui alianças valiosas e contaria com o apoio armado de diversas famílias poderosas se tentássemos invadir seu território. Aos olhos de todo o conselho internacional, o errado na história seria o Klaus por recusar-se a honrar um contrato assinado e selado pelo falecido pai, e nós seríamos vistos como agressores inconsequentes, arrastando nossos homens para uma guerra sem propósito legítimo aos olhos da Omertà. Encontro-me preso em um impasse c***l e massacrante: de um lado, as leis rígidas e a honra intrínseca que sustentam o meu título de Don; do outro, o desejo visceral e incontrolável de ver a minha mulher, e o meu cunhado, finalmente em paz.
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