HELENA PETROV
Nem tudo o que vemos na vida é real. Eu não tenho uma vida r**m; tenho tudo o que uma garota da minha idade poderia querer. Mas, como na vida não podemos ter tudo, falta-me afeto, carinho e amor paternal e maternal. Quando eu tinha doze anos, minha mãe morreu. Não éramos muito ligadas; ela não gostava muito de mim e, como sempre fui bem observadora, nunca fiz questão de tê-la muito por perto. Nesta casa, sempre fomos apenas eu e meu irmão, Klaus, para tudo. Somos muito ligados um ao outro. Já o meu irmão mais velho, Marco... esse, se pudesse, já teria me matado.
Faz exatamente três meses que a minha melhor amiga e irmã, Louise, se casou. Sempre soube que esse momento chegaria, eu só nunca me senti preparada. Eu e Lou crescemos juntas, e o amor que não recebi em casa, com certeza os pais dela me deram. Por muitas vezes, peguei-me desejando que minha mãe me tratasse igual à Dona Cecília, mas tudo o que eu recebia da minha mãe era desprezo e broncas. Por isso, quando ela morreu, eu não senti tanto.
Atualmente, divido minha vida entre a faculdade e a academia. Sinto tanta falta da minha amiga, mas agora ela tem a vida dela, sem contar que mora em outro país, o que dificulta muito o nosso contato.
— Lena, o papai está te chamando no escritório — Klaus me avisa. A cara dele não está nada boa.
— Sabe o que ele quer comigo?
— Vai até lá, princesa. — Ele deposita um beijo na minha testa e sinto uma energia tensa emanar dele.
Chego à porta do escritório do meu pai, dou duas batidinhas e entro.
— Oi, papai. Mandou me chamar? — pergunto. No sofá do canto, vejo Marco sentado com um olhar e um sorriso diabólico no rosto.
— Sim, Helena. Sente-se, por favor. — Faço o que ele pede e me sento de frente para ele.
— Daqui a quatro dias você ficará noiva. — Ele joga a bomba em cima de mim sem fazer muita cerimônia. Como sei que isso tem o dedo do Marco, não deixo transparecer que a notícia me afetou.
— Ok, papai. Posso saber com quem será?
— Com um de meus aliados. Tudo o que precisa saber, conhecerá no dia do noivado. Será algo pequeno, apenas para a família e alguns membros.
Meus olhos começam a marejar, então simplesmente peço licença e me retiro. Chego ao meu quarto e permito que as lágrimas rolem, mas não é porque irei me casar, e sim porque sei que quem escolheu meu noivo foi o Marco e, com certeza, ele não escolheu nada que fosse bom para mim.
Os dias passam tão rápidos que eu nem sinto. Hoje é o dia do noivado e meu coração está a mil por conta disso.
— Lena, eu sinto muito por isso. Se eu pudesse fazer algo, sabe que eu faria, mas não tenho nenhuma voz dentro da máfia para conter esse acontecido. Eu amo você mais do que tudo neste mundo e meu coração dói em saber que nada posso fazer por você. — Esta semana, peguei algumas vezes ele e Marco brigando e sei que o motivo era eu...
— Não se preocupe, Klaus. Sei que você não tem culpa. Marco me odeia e ele está fazendo isso para me punir por algo que nem ele mesmo sabe. — Ele beija minha testa e sai do quarto.
Durmo a tarde inteira e, quando acordo, são seis da tarde. Começo a me arrumar; não faço nada muito elaborado, o simples já é o suficiente.
— Está linda, irmãzinha. Tenho certeza de que seu querido noivo vai amar o que vai ver — diz Marco, aparecendo.
— O que eu te fiz? Eu nunca te dei trabalho, nunca me meti na sua vida, nunca fiz nada para você me odiar. Eu sinceramente não entendo; eu não sou uma ameaça para você em nada. Me odeia por nada, de graça. Ser esse homem amargo e sozinho deve ter te deixado assim. Eu, no seu lugar, também seria. Afinal de contas, é sempre sozinho, não tem amigos e nem ninguém que te ofereça uma palavra de amor ou carinho. Seu pai só te vê como uma máquina de fazer dinheiro e sua mãe... bom, essa não está mais aqui para te oferecer amor. No fundo, acho que eu também seria igual a você se não tivesse pessoas que me amam. Não adianta, Marco. Se a minha desgraça te dá prazer, eu não te darei o gosto de vê-la. Eu não vou chorar ou surtar com meu destino; aceitarei-o, seja qual for, de cabeça erguida e com meu sorriso de sempre nos lábios, pois você pode tirar tudo de mim, menos a minha essência. Agora, retire-se do meu quarto.
Ele me olha com os olhos pegando fogo, mas logo coloca aquele sorriso de dar medo no rosto de novo. Como não posso passar a noite inteira no quarto, vou logo acabar com esse sofrimento.
Desço as escadas, cada degrau bem devagar, e quando chego ao último, vejo Klaus me esperando.
— Lembre-se: eu te amo de hoje para sempre — diz ele. Meu coração está acelerado e minhas mãos estão suando de tanto nervosismo.
Quando estamos nos aproximando do grupo de homens que conversam, todos se viram para olhar. Quando Marco dá um passo para o lado, vejo um homem que parece ter idade para ser meu avô me olhar como se eu fosse um pedaço de carne.
— Armand, esta é minha filha Helena, sua noiva a partir desta noite — diz meu pai.
Meu mundo gira e meu coração parece que levou uma facada; dói como jamais senti doer. O homem olha para mim com desejo e sinto nojo.
— Prazer, Helena. Você de fato é tão bela como seu irmão disse — diz Armand.
Olho para Marco e ele está com um semblante de felicidade, então devolvo para ele um lindo sorriso.
— Obrigada, senhor Armand, pelo elogio — respondo, cordial e bem serena. Klaus me analisa com uma expressão de espanto e curiosidade. Sei que ninguém esperava essa minha reação, mas espernear e me negar de nada vai ajudar, então só irei aceitar, já que é o que me resta.
Vamos todos para a sala onde vai acontecer o noivado. Tudo acontece muito rápido e, após a cerimônia, peço licença e vou para a biblioteca. Sento-me no chão e choro. Como alguém tem coragem de fazer isso com a própria irmã, com a própria filha? A porta é aberta e Klaus passa por ela.
— Lena, eu...
— Eu não vou suportar aquele velho asqueroso colocando a mão em mim, Klaus! Por que ele fez isso? Eu nunca fiz nada para ele, nunca! Eu odeio ele, odeio meu pai, quero que ele morra! Eu prefiro morrer do que deixar aquele homem me tocar; eu me mato antes que ele faça isso. Eu nunca conseguiria viver assim, ninguém merece isso, Klaus. — Choro desesperada e meu irmão só me abraça.
— Helena, escuta, eu vou dar um jeito nisso, mas você precisa ser forte agora. Vamos lá terminar essa noite, não dê ao Marco o gosto de te ver sofrer; ele não merece suas lágrimas. Levanta, limpa esse rosto e vamos acabar com isso logo.
Vou até o banheiro, retiro toda a maquiagem, passo um pouco de água gelada para desinchar meu rosto e volto para a sala, esboçando o melhor sorriso que posso diante da situação. Graças a Deus, estamos nos despedindo de todos.
— Vai ser um prazer enorme ter você como esposa, Helena. Não imagina as coisas que tenho programado para você — diz Armand. Ele me dá um sorriso asqueroso que embrulha meu estômago, mas eu trato de devolver um sorriso para ele de volta.
— Achei que seria mais difícil, Helena. Até que você aceitou bem fácil ser vendida — provoca Marco.
Quando me viro para retrucar, Klaus passa por mim igual a uma bala e acerta um soco em Marco. Eles começam a se socar e eu só sei pedir para pararem com isso. Os seguranças chegam e separam os dois.
— Chega, vocês dois! Eu não vou permitir que transformem a minha casa em um ringue de lutas — grita meu pai.
— Vocês dois se merecem, são dois desgraçados! Como pode vender sua filha, sua única filha, papai, para aquele verme? Isso não se faz nem com seu pior inimigo, quem dirá com sua irmã e filha! — grita Klaus.
— Eu não tive escolha, Klaus! Acha que me orgulho de fazer o que fiz? Eu não tive escolha, era isso ou perdíamos tudo.
— Eu preferiria perder tudo do que vender minha única filha! Helena não merece o que vocês fizeram com ela e qualquer coisa que fizerem com ela, a culpa será sua. Tenha isso em mente!
Klaus sai furioso de casa e eu subo para o meu quarto. Acordo bem cedo e vou para a faculdade. Não sei se poderei continuar estudando quando me casar e, sinceramente, não sei se quero. Saio da faculdade e vou malhar, preciso espairecer a cabeça. Passo o dia inteiro na rua e, quando volto, já é noite. Como alguma coisa, tomo um remédio e vou dormir.
Já se passou um mês desde o noivado. Uma semana após a cerimônia, Klaus veio me buscar para viajar com ele para a Itália. Não sei como ele convenceu o papai, mas, graças a Deus, por isso, passei dois dias com a minha amiga e, mesmo não estando feliz com a minha situação, tentei aproveitar ao máximo da viagem.
Cheguei da viagem faz dois dias, e nesses dias meu pai está super nervoso. Só que hoje ele está insuportável.
— Helena, arrume suas coisas que você irá se mudar — ordena meu pai.
— Como assim, papai? Eu vou para onde?
— Helena, não me faça perguntas, só me obedeça. Apenas não temos muito tempo. Não irá precisar de muita coisa, arrume o essencial. Seu marido comprará para você o que precisar quando chegar em Paris.
— Mas papai, não somos casados ainda, como que vou ir morar com ele?
— Helena, você é casada há mais de um mês. Você era a garantia que eu tinha de conseguir arrumar o dinheiro para pagar Armand. Ele me deu um mês para conseguir; se caso não pagasse, ele levaria você. Graças ao marido da sua amiguinha, eu não tenho escolha a não ser te entregar a ele. Eu sinto muito, querida. Sei que nunca fui o pai que você merece, mas seja forte e sobreviva a isso.
Ele se retira e eu estou sem reação. O que o Caio tem a ver com isso? Arrumo minhas malas com os olhos cheios de lágrimas, não tem mais jeito. Um segurança bate na minha porta — não reconheço este — e pede minha mala; eu entrego. Seja o que Deus quiser.
Entro no carro e tem mais dois seguranças. Olho pela janela e vejo meu pai me ver partir. Olho bem para a casa onde cresci e, então, enfim, me permito chorar.