HELENA PETROV
O trajeto até o aeroporto, o voo privado e a chegada em Paris foram um borrão de anestesia emocional. Eu não estava mais sentindo o desespero de antes; eu estava sentindo algo muito mais perigoso: um vazio gélido.
Quando a porta do casarão de Armand Leroy se abriu, fui recebida por um silêncio que pesava mais do que qualquer grito. A decoração era impecável, cara, mas desprovida de qualquer alma. Não havia fotos, não havia flores frescas, não havia nada que sugerisse que alguém ali pudesse ter um coração.
Armand estava à minha espera no hall. Ele não usava a agressividade física de Marco, nem a tirania nervosa do meu pai. Ele tinha a compostura de um homem que detém o controle absoluto.
ARMAND: — Seja bem-vinda, Helena. Você parece cansada. A viagem foi longa?
A voz dele era aveludada, mas carregava a mesma intenção predadora da noite do noivado. Olhei para ele, mantendo a postura ereta, o queixo levemente erguido. Eu não lhe daria o prazer de me ver desmoronar.
— Foi. Mas não suponho que isso importe para o senhor. O contrato foi assinado e aqui estou eu.
Ele soltou uma risada baixa, um som que não alcançava seus olhos. Ele deu um passo em minha direção, parando a centímetros de mim. Pude sentir o cheiro caro de seu perfume misturado com tabaco.
ARMAND: — O contrato me dá a sua presença, mas eu espero que ele também me dê a sua mente. Você vai descobrir, em breve, que em Paris as regras mudam. Seus contatos, suas amizades, as memórias da sua vida na Rússia ou na Itália... tudo isso precisa ser deixado no aeroporto. A partir de agora, você é a Sra. Leroy.
— E o que a Sra. Leroy deve fazer? — perguntei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava.
ARMAND: — Ela deve ser a peça central das minhas recepções. Ela deve ser a mulher que nunca comete deslizes. E, acima de tudo, Helena... — Ele estendeu a mão, o dedo roçando suavemente minha bochecha em um gesto que me causou um choque de nojo. — Ela deve ser o reflexo da minha influência. Se você se tornar uma aliada, teremos uma vida muito confortável. Mas se você insistir em ser uma prisioneira que planeja fugas ou conspirações... bem, digamos que o mundo é muito pequeno para aqueles que tentam romper acordos comigo.
Eu não recuei. Sustentei o olhar dele, mesmo sentindo cada célula do meu corpo implorar para que eu corresse.
— O senhor fala de acordos como se fossem leis divinas. Mas acordos podem ser revistos, Sr. Leroy.
O sorriso dele vacilou por um segundo, transformando-se em algo mais astuto.
ARMAND: — Gostei da sua coragem. É uma pena que ela vá ser tão inútil aqui. Vá para o seu quarto. A governanta lhe mostrará o seu cronograma. Temos um jantar diplomático na sexta-feira. Quero você impecável.
Ele se afastou, dando as costas como se eu fosse um objeto de sua coleção. Subi as escadas, sentindo o peso de cada degrau. Ao entrar no quarto, tranquei a porta e encostei-me nela, escorregando até o chão.
O silêncio do quarto era ensurdecedor. Olhei ao redor e vi, sobre a penteadeira, uma caixa pequena e requintada. Dentro dela, um colar de diamantes — uma coleira brilhante.
Peguei o celular que me deram — um aparelho novo, sem qualquer contato que não fosse o dele. Eu queria gritar, queria chorar, queria ligar para Louise e ouvir a voz dela, mas sabia que, se tentasse, seria o início da minha destruição.
Resista, Helena.
Olhei para o reflexo no espelho. A garota que um dia sorriu no PUB com a Lou parecia uma estranha. A mulher que estava ali, com os olhos endurecidos, estava apenas começando a aprender as regras do jogo. Se eu não podia sair, eu começaria a jogar de dentro. E Armand Leroy descobriria que ele não comprou uma esposa; ele comprou um cavalo de Troia.