CAIO SANTORO
Hoje não vi a Louise o dia todo, mas a Helena chegou à cidade, então não quis incomodá-las. Já se passaram dois meses desde a nossa viagem para a Rússia e, confesso, se eu soubesse que sentiria tudo o que estou sentindo agora, não teria resistido tanto a este casamento.
ALFREDO: — Você e Louise já estão casados há quase um ano. Quando pretendem me dar um neto?
— Pode ficar tranquilo, papai. Quando estivermos prontos para sermos pais, nós seremos.
ALFREDO: — E vai ficar dando desculpas para o Conselho até quando? Sabe que eles não vão te deixar em paz até que você dê continuidade à linhagem.
— E se vier menina, vocês vão ficar revoltados de todo jeito. Será no nosso tempo, papai, não no de vocês.
ALFREDO: — Se vier menina, eu vou amar de qualquer jeito. Meu filho, as regras da máfia já estavam aí quando nós nascemos; eu só as segui. Não me trate como se eu fosse o problema. Eu quero um neto, não me importa se será menina ou menino, eu só quero. Você precisa parar de ficar armado comigo; você pode ser o Don, mas ainda é meu filho e me deve respeito, hoje e sempre. Nunca se esqueça disso, Caio.
Meu pai sai da minha sala, deixando-me sozinho com meus pensamentos. O Conselho está em cima de mim faz tempo, e eu venho ignorando-os. Essas regras arcaicas deles me tiram do sério. Sei que a Louise sabe que devemos gerar um herdeiro homem e sei também que ela está ignorando esse fato. Porém, uma hora ou outra teremos que ter essa conversa. Eu não sei qual é a opinião da Louise sobre ter filhos; nunca conversamos sobre isso e não sei como abordar o assunto com ela.
ENZO: — Se a máfia não me matar, sua irmã me mata. Eu já pensei em fugir e deixá-la no altar várias vezes.
Enzo e Beatrice estão em pé de guerra, e eu estou ignorando o fato de que, provavelmente, quem mais está sofrendo com isso é minha irmã.
— Você também não é fácil, Enzo. Sei que a Beatrice pode ser bem teimosa quando quer, mas você também não é flor que se cheire. Vocês não podem viver assim para sempre; vão casar daqui a duas semanas. Você pelo menos já comprou uma casa? Ou pretende levar minha irmã para morar no seu abatedouro?
ENZO: — Diferente de você, Caio, eu tenho noção. E sim, já comprei uma casa e, caso você queira saber, é bem próxima à sua.
Fechei os últimos detalhes hoje pela manhã e sua irmã estava junto comigo, colocando defeito em tudo, como uma boa Santoro. Passamos mais um tempo na sede da máfia resolvendo algumas pendências e depois fomos embora.
— Louise?
Chego em casa procurando pela minha mulher. Quando saí hoje cedo, fui informado de que a Louise receberia a visita da Helena, que acabou de chegar na Itália, e logo depois as duas saíram juntas. Acho que ela ainda não chegou. Resolvo tomar um banho e, quando saio do quarto, dou de cara com a Louise sentada na cama, olhando para o nada.
— Oi, como foi seu dia?
Ela não me responde e continua olhando para o nada, como se não tivesse notado minha presença ainda.
— Lou, está tudo bem? Lou...
Ela toma um susto comigo e, por fim, me responde.
LOUISE: — Oi, amor. Não vi você chegar, desculpa.
— Eu estava tomando banho.
LOUISE: — Entendi. Bom, vou tomar um banho para descermos para jantar.
Ela passa por mim e entra no banheiro. Sentamos para jantar juntos, mas Louise pouco fala; ela está estranha.
LOUISE: — Caio, você acha que a Helena está bem? Eu sei que você não a conhece tão bem, mas você acha que ela poderia tentar algo? Quero dizer, algo contra a própria vida dela?
A Helena que voltou de Paris não é a mesma que eu conheço a minha vida toda. A Helena que eu conheço tem uma alegria que transborda, um senso de humor incrível, uma luz que irradia. Agora, tudo o que vejo nela é uma tristeza profunda que ela tenta esconder atrás de um sorriso forçado. Até o jeito da Helena se vestir mudou, Caio.
— Amor, não sabemos de tudo o que a Helena passou no período em que esteve em Paris. Klaus disse que ela conversa pouco com ele. Sei que você está preocupada com ela, mas acredito que ela precise de um tempo para superar e entender as coisas.
Sei que a Louise talvez tenha razão sobre suas suspeitas. Helena não teve seu "casamento" consumado; esse é um fato que sabemos, mas não sabemos até que ponto o Armand foi para tirar isso dela. Na última vez que estive com o Klaus, ela estava com a mesma preocupação que a Louise.
Acordo cedo e Louise não está na cama. Faço minha higiene matinal e desço; nem chego na metade das escadas e o cheiro de ovos fritos invade minhas narinas.
LOUISE: — Bom dia, amor!
— Bom dia, amor. Onde está a Marina?
LOUISE: — Ela teve um imprevisto e teve que sair, aí estou fazendo nosso café da manhã.
Louise está vestida com roupas de academia e está com uma cara superanimada.
— Vai malhar?
LOUISE: — Sim, amor.
— Quer companhia?
LOUISE: — Então, eu ia mesmo te chamar para malhar, mas recebi uma mensagem da Helena me chamando para ir à academia. Tem tempo que ela não tem a iniciativa de sair, então topei na hora. Você vai ficar chateado?
— Não, amor, de jeito nenhum. Pode ir. Hoje eu preciso chegar cedo também.
Terminamos nosso café juntos, conversamos e, depois, Louise foi buscar a Helena, enquanto eu fui para a sede.
ENZO: — Bom dia...
— Nossa, sua cara está péssima. Está tudo bem?
ENZO: — Caio, hoje eu não estou nem um pouco paciente, então me poupe das suas piadinhas.
— Sabe que eu ainda sou seu Don, né?
ENZO: — Sei, sei. Vai fazer o quê? Me matar? Pois então me mata, porque se você não fizer isso, sua irmã fará.
— Você falava tanto de mim, do jeito que eu tratava a Louise, que eu não dava uma chance para ela... agora, olha só para você, passando pelo mesmo processo. Realmente, hoje em dia o castigo vem a jato. Vou falar para você a mesma coisa que me disse há quase um ano: vocês já são noivos, tenta fazer dar certo.
ENZO: — A Louise é uma santa perto da Beatrice, Caio, e você sabe bem disso. Ela quer me matar lentamente, ela consegue me tirar do sério só de respirar perto de mim, ela é irritante!
Enquanto ele reclama sem parar, eu só fico rindo. Ele está de quatro por ela e finge que não... Vou deixar ele descobrir sozinho. Na minha vez, ninguém me avisou.