CAPITULO 3

1172 Words
LOUISE BIANCHI Hoje eu acordei extremamente cedo e, francamente, não recomendo essa experiência a ninguém. Sendo bem sincera, eu nem cheguei a acordar por vontade própria: a mamãe simplesmente invadiu o meu quarto e me derrubou da cama sem a menor cerimônia. De acordo com a teoria implacável dela, simplesmente não existe absolutamente nada no meu armário que seja digno do evento catastrófico que acontecerá amanhã. Amanhã é o meu aniversário de vinte anos e, de quebra, a celebração oficial do meu noivado forçado com o Don da máfia italiana. Vale ressaltar que ontem à noite eu tentei de tudo, mas não consegui arrancar nenhuma informação útil ou coerente do Lucca durante o caminho para a faculdade. Meu irmão sempre foi meu confidente e nunca teve grandes segredos comigo, mas todas as vezes que eu tocava no assunto do casamento ou tentava sondar qualquer detalhe sobre o meu futuro marido, eu percebia claramente o quanto ele ficava tenso e incomodado. Confesso que esse comportamento esquivo aumentou a minha curiosidade a patamares perigosos, o que definitivamente não é nada bom para a minha paz de espírito. — Louise, preste muita atenção: você tem exatamente até o horário do almoço para me aparecer aqui em casa com um vestido que seja digno da ocasião! — dispara a mamãe, de braços cruzados na porta do meu quarto, com o olhar faiscando. — Eu me ofereci várias vezes para ir com você às boutiques mais exclusivas, mas você, como a boa teimosa que é, recusou todas as minhas propostas de ajuda. Então, agora, querida, vai ter que se virar completamente sozinha! — Pode deixar com sua filha favorita, mamãe. Acha mesmo que eu não confio no meu próprio bom gosto? — respondo, erguendo o queixo com falsa confiança. — Pode ficar totalmente tranquila que eu não vou envergonhar o nome da família; estarei perfeitamente à altura da esposa de um Don. Faço uma careta de deboche bem exagerada, o que arranca um sorriso divertido e discreto do papai, que assiste à cena da poltrona. Já a mamãe... bem, dela chega a estar saindo fumaça pelas orelhas, tadinha. É quase cômico ver o desespero dela com a minha aparente falta de seriedade diante de uma prisão perpétua em forma de aliança. Kkk. Logo em seguida, pego o celular e recorro à minha tábua de salvação. — Helena? Bom dia, amiga. Como estão os preparativos para o fim de semana? — pergunto assim que ela atende a ligação. — Te atendi justamente por isso, Louise! Não faço a menor ideia do que comprar, e para piorar a minha cabeça não está muito boa para maratonas de compras logo cedo — reclama Helena do outro lado da linha, bocejando alto. — Nunca está boa, né, Leninha? Mas a tua sorte inabalável é que eu te amo demais, e só por isso estou acordada às nove da manhã de um sábado chato. Se isso não é prova de amor verdadeiro, eu realmente não sei mais o que é na vida. — Eu também te amo, sua louca, e já estou morrendo de saudade desse seu péssimo humor matinal que consegue me irritar antes do café — retruco, rindo. Partimos juntas para o shopping mais sofisticado da cidade, e Helena me fez caminhar por tantas lojas de grife que ao final eu praticamente não sentia mais os meus próprios pés. No entanto, após muito estresse, dezenas de provas e discussões acaloradas sobre tecidos, conseguimos encontrar o vestido perfeito. Para recuperar as energias gastas, decidimos almoçar ali mesmo na praça de alimentação de luxo do shopping. Amo passar meus finais de semana ao lado da Helena; somos amigas de infância, crescemos juntas compartilhando segredos e sonhos, e eu sei que vou sentir uma dor imensa e uma saudade lancinante dela no meu dia a dia quando essa nova fase sufocante começar. Nem fui embora ainda e já estou com o coração apertado. Quando chego em casa, exausta, o relógio já passa das duas da tarde. Decido tomar um banho revigorante para lavar o cansaço. Quando saio do banheiro enrolada na toalha, encontro a mamãe estrategicamente plantada dentro do meu closet, analisando o cabide do vestido recém-comprado com uma expressão facial pra lá de cômica e crítica. — Ótima escolha estrutural, preciso admitir: é um vestido sofisticado, ousado, sexy e cativante na medida certa — avalia ela, passando os dedos pelo tecido. — Só não gostei nem um pouco dessa cor que você escolheu; acho sinceramente que um verde-esmeralda combinaria muito melhor com a cor dos seus olhos. — A senhora sabe muito bem que eu detesto verde, mamãe, parece cor de mato. Azul Tiffany é simplesmente a cor do momento e ponto final — rebato cruzando os braços. — Se você diz... por mim, o modelo em si está aprovado — cede ela, revirando os olhos. A mamãe dá o seu veredito final e se retira do closet sem acrescentar mais nenhuma palavra. Confesso que, no fundo, eu achei até estranho; pensei firmemente que ela iria fazer um escândalo homérico por causa da f***a gigantesca que rasga a lateral do vestido, mas parece que até ela cansou de lutar contra todas as minhas escolhas. Com o resto da tarde livre, decido descer para a biblioteca particular da mansão e acabo passando horas imersa naquele santuário de papel e tinta; este é, sem dúvida nenhuma, o meu lugar favorito em toda a casa. Quando contei ao papai anos atrás que queria cursar faculdade de literatura, ele me disse com um sorriso nostálgico que a paixão devoradora por livros é algo que passa de geração em geração na nossa família. A imensa maioria dos volumes guardados nas nossas prateleiras de mogno é extremamente antiga, clássicos raros e edições colecionáveis, e eu já li praticamente quase todos eles. Quando finalmente ergo os olhos para a parede, vejo chocada que já são nove da noite; passei tanto tempo perdida entre as páginas que nem vi o tempo voar. Saio da biblioteca com os passos lentos e sigo direto para o meu quarto. Decido que hoje vou me dar um tratamento de rainha: vou fazer uma rotina completa de skincare, depilação e, para fechar com chave de ouro, tomar um banho relaxante de banheira demorado. Já faz um bom tempo que não paro para cuidar de mim mesma com calma, e hoje estou sentindo uma necessidade quase instintiva de fazer isso, como uma despedida silenciosa da minha individualidade. Encho a banheira até a borda com sais aromáticos de camomila importados; eles têm uma ação calmante fantástica e fazem muito bem para a textura da pele. Perco mais algumas horas preciosas relaxando na água morna, cuidando de cada detalhe, até que decido vestir meu pijama mais macio e ir me deitar. Quando olho para o visor do celular, já passa da meia-noite. Fico me revirando de um lado para o outro na cama, com a mente a mil por hora pensando no circo que será amanhã, e acabo nem percebendo exatamente em que momento exato peguei no sono.
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