CAIO SANTORO
Não é uma tarefa simples ou trivial comandar uma organização do tamanho e da complexidade da máfia italiana. Em um mundo onde a lealdade é efêmera e o poder é a única moeda que realmente importa, temos que nos blindar implacavelmente de todos os lados. Um único segundo de distração, um mero vislumbre de vulnerabilidade, pode ser o sinal verde que algum "corajoso" e ambicioso andava esperando para tentar nos apunhalar pelas costas e usurpar o trono.
Acordo com os raios fortes do sol batendo diretamente no meu rosto, denunciando que esqueci de fechar as cortinas do quarto na noite anterior. Abro os olhos pesados e, imediatamente, a minha cabeça protesta de forma violenta contra a forte ressaca causada pela bebedeira homérica da noite passada. Empurro os lençóis de cetim, saio da cama com passos firmes, embora latejantes, e sigo direto para o banheiro para minhas higienes matinais. É evidente que extrapolei na bebida — afoguei as mágoas em doses generosas de scotch até perder a noção do tempo —, e o pior é que tenho uma reunião de altíssima prioridade logo pela manhã. Já estou atrasado.
Termino de me arrumar às pressas, visto um terno perfeitamente cortado sob medida e desço para a cozinha. A mesa do café já está posta pela governanta, com frutas frescas, pães artesanais e café fumegante. Tomo meu café em silêncio absoluto, absorvendo o vazio daquela mansão fria, antes de caminhar em direção à vasta garagem subterrânea. Uma característica marcante sobre mim, que conheço bem: eu sou completamente fascinado por carros esportivos e de luxo. Possuo uma coleção impressionante de dez máquinas potentes; alguns desses bólidos de edição limitada são tão exclusivos que eu nunca cheguei nem a usar na rua, mantendo-os apenas como troféus mecânicos.
Quando chego à sede principal da máfia, o QG onde as decisões que movem o país são tomadas, avisto logo Enzo, meu braço direito, amigo de infância e consigliere pessoal, encostado em uma coluna de mármore com um sorriso irônico no rosto.
— Bom dia, chefe. É bom ir se preparando psicologicamente, porque o seu pai está hoje com um humor de verdadeiro cão raivoso — avisa Enzo, ajeitando o paletó.
— Bom dia, Enzo. Tem alguma notícia boa para compensar, ou veio só para me estressar? E outra coisa: meu pai vive de mau humor, isso não é novidade para ninguém — retruco, ajustando os punhos da camisa.
— É, meu amigo, eu sei... Só que hoje ele conseguiu superar a si mesmo. A cara dele está pior do que o normal, parece que pisou em brasas — insiste Enzo, rindo debochadamente.
Ignoro o aviso e empurro as pesadas portas de carvalho da sala de reuniões. Encontro todos os capos e conselheiros sentados ao redor da mesa oval, me esperando em silêncio mortal. Dou um bom dia seco e autoritário a todos e imediatamente inicio a sessão de negócios. A reunião se arrasta por toda a manhã, exigindo foco cirúrgico; debatemos rotas, alianças estratégicas e resolvemos minuciosamente tudo o que era necessário para a nova importação em larga escala e a distribuição logística de armamentos pesados pela Europa.
Assim que a última pasta é fechada e os outros membros começam a se retirar, a voz gélida e cortante do meu pai ecoa pela sala vazia.
— Um Don de verdade não se atrasa nunca para os seus compromissos, Caio. Achei que havia te ensinado bem sobre pontualidade e respeito à hierarquia. Não importa o que você faça da sua vida particular ou quais sean suas farras, as suas responsabilidades sagradas com a máfia têm que vir sempre em primeiro lugar — dispara Alfredo Santoro, olhando-me com o peso de décadas de tirania nos olhos.
— Papai, eu tive apenas um pequeno contratempo logístico e pessoal ontem à noite. Isso não se repetirá mais, dou minha palavra. Sempre fui um modelo de dedicação e liderança exemplar em tudo o que faço; um único deslize insignificante não define a minha autoridade, e o senhor, melhor do que ninguém neste mundo, sabe disso — respondo com firmeza, sustentando o olhar implacável dele sem recuar um centímetro.
— Não me decepcione, Caio. Eu te criei rigorosamente para ser o melhor em absolutamente tudo o que faz. Não me faça começar a questionar os meus próprios ensinamentos e a sua capacidade de sucessão — sentencia ele, levantando-se com imponência.
— Pode ficar perfeitamente tranquilo quanto a isso, pois da minha parte e da minha máfia eu cuido com punho de ferro.
— Assim eu espero, filho. E não se esqueça do combinado: amanhã bem cedo viajamos todos em comboio para a Rússia, onde vamos oficializar o seu noivado arranjado com a filha do Capo Frederico Bianchi. Vá até uma joalheria de alto padrão, compre uma aliança digna e, se não for te deixar muito pobre, compre um presente adequado também. É aniversário da garota, afinal — conclui meu pai, dando as costas e saindo da sala, deixando-me sozinho com meus pensamentos sufocantes e com o meu consigliere.
Enzo solta uma gargalhada escandalosa, incapaz de conter o divertimento diante da situação.
— Já tinha se esquecido completamente do seu próprio noivado, chefe? Kkkk, caramba, você é simplesmente hilário, Caio. Consegue esquecer o dia em que vai perder a liberdade!
— Eu não tenho o menor interesse nesse casamento comercial, Enzo. Estou apenas cumprindo um dever histórico e contratual, e sinceramente espero que ela cumpra a parte dela sem encher o meu saco — respondo com um muxoxo de desdém, cruzando os braços.
— Mas diga aí... Você já teve a curiosidade de ver pelo menos uma foto da garota que vai ser sua esposa?
— Não, Enzo. Como eu já disse várias vezes e para quem quiser ouvir, eu não tenho o menor interesse nisso. É apenas um contrato de sangue entre famílias.
— Pois deveria dar uma olhada, chefe! Porque se for um sacrifício grande demais para você ter que casar com ela, pode deixar que eu caso no seu lugar! Pelos relatos, a garota é simplesmente deslumbrante! — provoca Enzo, arqueando as sobrancelhas com malícia.
— Enzo, você por acaso não tem que ir fiscalizar os carregamentos no porto ou algo assim? Menos gracinhas, por favor.
— Sim, chefe, já estou indo. Te encontro mais tarde para relaxar. Vamos à boate comigo hoje à noite, precisamos comemorar em grande estilo o seu último dia oficial de solteiro! — zomba ele, saindo da sala rindo abertamente da minha cara. A hora desse i****a vai chegar, e a cada dia ela está mais próxima, mesmo que ele ainda nem perceba.
Saio da sede da máfia quando o relógio já passa das cinco da tarde, sentindo o cansaço acumulado nos ombros. Decido ir direto para a minha residência particular; um banho gelado e uma sessão pesada de exercícios físicos rigorosos vão me fazer bem para descarregar toda essa tensão acumulada.
Quando abro a porta da mansão, encontro a casa em absoluto e reconfortante silêncio. Pela hora avançada, Rose, a governanta, já foi embora para sua casa. Subo as escadas apressado, tomo um banho rápido para tirar o suor do dia, visto uma calça de moletom cinza e uma regata preta, e desço direto para a academia particular instalada no subsolo. Passo mais de duas horas malhando intensamente com pesos e no saco de pancadas; o exercício físico extenuante me faz bem, limpa minha mente da podridão dos negócios e, quando estou focado no treino, perco completamente a noção das horas.
Quando finalmente respiro fundo e olho para o relógio de pulso, vejo que ele marca exatamente nove horas da noite. Retorno ao meu quarto principal, tomo um segundo banho caprichado, uso um perfume forte e me arrumo com esmero para ir a uma das minhas boates favoritas na cidade. Antes de sair, pego o celular e ligo para Enzo, avisando que nos encontraremos lá pontualmente às dez e meia.
Assim que chego ao estabelecimento, vejo que a boate está absolutamente lotada, pulsando com luzes neon e batidas graves de música eletrônica. Esta é, de longe, a casa noturna que me rende mais lucros financeiros e opera como um império paralelo de prazeres ilícitos. A arquitetura do local é dividida estrategicamente em várias salas com diversos conteúdos voltados para fetiches e desejos obscuros: há suítes exclusivas e discretas para quem pratica ménage, salões equipados com masmorras para adeptos de b**m, áreas devotadas para quem gosta de apenas assistir a shows de sexo explícito ao vivo, além de salões de swing... Enfim, tem absolutamente tudo o que o desejo e a perversão humana possam procurar na escuridão da noite.
Caminho com passos firmes pelo tapete vermelho até o camarote VIP reservado exclusivamente para mim. Assim que me acomodo no sofá de couro preto, a garçonete de plantão me serve imediatamente uma dose generosa de uísque puro em um copo de cristal pesado. Fico ali sentado no topo, bebendo em silêncio por alguns minutos, observando o mar de gente lá embaixo na pista de dança, até que avisto Enzo adentrando o camarote acompanhado de alguns dos nossos melhores amigos e de várias acompanhantes de luxo deslumbrantes. Definitivamente, hoje a noite promete ser longa e intensa.