Capítulo 4

2023 Words
LOUISE BIANCHI O sol m*l havia nascido no horizonte e a mansão dos Bianchi já se encontrava em um estado caótico de alvoroço generalizado. Sendo bem sincera, eu nem precisei de despertador: a mamãe simplesmente escancarou a porta do meu quarto marchando com a postura de um general em campo de batalha e me arrancou da cama a força, sem o menor pingo de cerimônia. De acordo com a teoria implacável dela, que parecia prestes a ter um colapso nervoso. Afinal, o dia de hoje marcava simultaneamente o meu vigésimo aniversário e a celebração formal do meu noivado arranjado com a alta cúpula da máfia italiana. A residência inteira ecoava uma barulheira infernal desde as primeiras horas da manhã; a mamãe corria de um lado para o outro pelos corredores, vociferando ordens severas aos empregados e repetindo como um mantra que cada detalhe milimétrico precisava sair absolutamente perfeito, pois aquela data definia o meu futuro e blá-blá-blá. Às vezes, observando toda aquela encenação dramática e aristocrática, eu realmente chegava à conclusão de que ela estava desesperada para se livrar logo de mim e passar o fardo da minha tutela para as mãos de outro homem. Depois de engolir um café da manhã apressado e tenso ao lado da minha família — onde o silêncio cortava o ar como vidro quebrado —, subi correndo para o quarto para me trocar e escapar daquele hospício. Pedi uma carona de última hora para o Lucca, que aceitou me levar sem fazer muitas perguntas. Como os nervos da mamãe estavam à flor da pele e ela exalava eletricidade pura, decidi que o melhor para a minha integridade mental seria fugir do radar dela o máximo possível até que o relógio marcasse a hora da nossa condenação. Assim que entramos no carro e Lucca arrancou pelo portão da garagem, ele não perdeu tempo em tentar me alfinetar: — Diga aí, maninha... por acaso não era para você estar lá dentro ajudando a mamãe nos preparativos finais e nos arranjos de última hora para o seu grande dia de princesa? — questionou ele, arqueando uma sobrancelha com um sorriso irônico nos lábios. — E você? Por acaso já arrumou alguma acompanhante decente para levar com você hoje à noite, ou pretende passar a maior vergonha sozinho diante dos Santoro? — devolvi a provocação de imediato, mudando o foco da conversa. — Não, ainda não arrumei ninguém fixo, mas é claro que resolverei esse assunto pessoal bem antes da festa começar. Agora preste atenção: você não respondeu à minha pergunta sobre a ajuda à mamãe, Louise. — E você também não tem respondido a nenhuma das minhas perguntas sérias ultimamente, Lucca. Estamos quites — retruquei, cruzando os braços com firmeza. Ele engoliu seco, fechou o semblante e permaneceu em silêncio absoluto pelo restante do trajeto. — Quer saber de uma coisa? A mamãe está simplesmente eufórica, parecendo um furacão descontrolado. Eu prefiro mil vezes ficar bem longe do alcance dela, pelo menos até a hora exata da cerimônia e do tiro de misericórdia. Mas aposto que é exatamente por esse mesmo motivo que você também está fugindo de casa logo cedo hoje, kkk. Lucca soltou uma risada fraca e balançou a cabeça em concordância, me deixando direto na porta da academia. Assim que passei pela catraca, fui em busca da Helena, que já devia estar suando em algum canto do estabelecimento. Não demorou muito para avistá-la batendo papo animadamente perto dos pesos livres. — E aí, gata! Bora malhar e espairecer um pouco antes do meu fim trágico? — brinquei, dando um tapinha leve em seu ombro. — Nossa, garota, achei sinceramente que você tinha se perdido no trânsito ou desistido de vir! Demorou uma eternidade — reclamou Helena, fingindo irritação. — Quase que eu realmente não consigo sair daquela mansão! Minha mãe está parecendo um furacão furioso lá em casa; está todo mundo correndo e se escondendo nos cantos para fugir dela, kkk. — Pondo a zoeira de lado por um segundo... e você, está minimamente preparada para o que vai acontecer daqui a pouco? Eu sei com toda a certeza que você deve estar morrendo de nervos por dentro, mas faça chuva ou faça sol, vou estar lá na primeira fileira para te dar todo o apoio se você precisar. Lembre-se sempre disso, Lou. Ouvir aquilo partiu meu coração instantaneamente. Olhando para ela, me dei conta do tamanho do vazio que a ausência da minha melhor amiga vai deixar na minha rotina diária. Como diabos eu vou conseguir viver sem a presença dela todos os dias, meu Deus do céu? — Eu realmente não sei o que será da minha vida e dos meus dias sem você por perto, Leninha. Te amo tanto, sua louca! — falei, puxando-a para um abraço apertado. — Está me amando demais, já sei que está querendo me aquecer para pedir algum favor! — brincou ela, tentando disfarçar a emoção. — Vamos malhar logo ali naquele setor, porque já está quase na hora daquele professor bonitão de aeróbica chegar para salvar o meu dia. Morri de rir com a carinha de sapeca dela, o que me ajudou a esquecer por alguns instantes a nuvem preta que pairava sobre a minha cabeça. — Garota, quer saber? O seu pai precisa urgentemente te arrumar um casamento arranjado logo também, só para o seu próprio bem e para ver se você toma jeito, kkk. Passamos o resto da tarde na academia tentando nos distrair, e depois Helena fez questão de me deixar de carro em casa. Quando atravessei o portão, percebi que a transformação estava completa: tudo já estava rigidamente montado, decorado com arranjos caríssimos, e a mansão mergulhou em um silêncio tenso e sepulcral que antecede as grandes tempestades. Subi apressada para o andar de cima e notei que a porta do meu quarto estava entreaberta. Sobre o centro da minha cama de casal, repousava uma caixa de veludo azul-marinho lindíssima, acompanhada por um pequeno cartão escrito à mão com uma caligrafia elegante: "Para minha tempestadezinha favorita." Quando abri a caixa com os dedos levemente trêmulos, encontrei um colar de pérolas raras e genuínas acompanhado por um par de brincos perfeitamente lapidados; era um presente de última hora enviado pelo papai. Decidi na mesma hora que usaria aquelas joias na cerimônia; elas iriam contrastar perfeitamente com o visual que eu havia planejado. O vestido que comprei com a ajuda da Helena era uma verdadeira obra de arte moderna: em tom azul-tiffany deslumbrante, desenhado com um decote reto impecável, alças finas e delicadas, e uma f***a profunda e ousada que subia audaciosamente até a metade da minha coxa. Confeccionado em cetim puro, ele moldava cada curva do meu corpo e deixava metade das minhas costas perfeitamente expostas. Para arrematar o visual, escolhi um salto alto branco com tiras finas de amarração que subiam delicadamente pelas minhas pernas — uma verdadeira perfeição de saltar aos olhos. Quando o relógio marcou exatamente cinco horas da tarde, comecei o ritual de arrumação. Não quis inventar nada muito elaborado ou artificial no cabelo, optando por deixá-lo solto em ondas naturais e volumosas, enquanto na maquiagem decidi carregar um pouco mais nos tons esfumados para destacar intensamente a cor verde dos meus olhos. Enquanto a maquiadora dava os retoques finais, minha mente vagava por cenários distantes. Daqui a exatas seis semanas eu estarei oficialmente casada, acorrentada legalmente a um estranho e morando em definitivo na Itália. Mais do que isso: vou ter que fazer as malas e me mudar de país daqui a apenas duas semanas para ajudar a adiantar os preparativos e as burocracias da festa de casamento principal, que ocorrerá exatamente um mês após este noivado de fachada. Confesso abertamente que estou com nível zero de animação para organizar casamentos ou escolher flores de corte fino, mas como se trata do casamento solene de um Don da máfia, a exigência é de que seja um evento faustoso, faraônico e grandioso. Quer saber? Vou simplesmente empurrar todos esses preparativos maçantes para cima da minha futura sogra; com certeza absoluta ela fará um trabalho mil vezes melhor do que eu faria chorando pelos cantos. Meus devaneios caóticos foram bruscamente interrompidos por duas batidas secas e educadas na porta do meu quarto. Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu lentamente e a figura do papai apareceu no batente, vestindo um terno impecável, mas com o olhar carregado de uma melancolia genuína. — Filha... eu sei perfeitamente que essa minha decisão autoritária não te agrada em nada, e apesar de você ser forte o suficiente para quase nunca questionar minhas ordens em voz alta, eu vejo nos seus olhos o quanto você está triste por dentro — começou ele, com a voz embargada e um tom de profundo remorso. — Quero apenas que você saiba do fundo do meu coração que eu fiz isso única e exclusivamente para o seu próprio bem e proteção a longo prazo. Vivendo neste mundo c***l, tentei te garantir um bom casamento com um homem intocável para que, no dia em que eu não estiver mais aqui para te defender, você tivesse um amparo seguro e inabalável. Saiba que eu te amo demais, minha tempestadezinha. Quero que você nunca, em hipótese alguma, esqueça disso. Senti um nó gigantesco se formar na minha garganta, sufocando qualquer tentativa de protesto. Respirei fundo, contendo as lágrimas para não borrar a maquiagem, e caminhei até ele. — Eu sei, papai... Eu entendo os motivos do seu jeito torto de proteger. Também amo muito o senhor. Trocamos um abraço rápido, mas carregado de significados não ditos. Logo em seguida, demos os braços e começamos a descer as escadas lentamente em direção ao salão principal, que já estava apinhado de convidados influentes, capos vestidos a rigor e associados da máfia. Assim que pisamos no primeiro degrau, senti centenas de pares de olhos se voltarem instantaneamente para mim, avaliando cada centímetro da minha postura. Mas houve um olhar em especial — fixo, pesado e magnético — que parecia literalmente queimar a minha pele à distância. Eram faíscas puras; por um segundo brevíssimo, eu pude ver claramente a centelha crua da luxúria faiscar naquele olhar masculino, e devo confessar que, contra todas as minhas convicções feministas, por um único instante eu gostei daquela sensação avassaladora de me sentir desejada de forma tão animalesca. À medida que nos aproximávamos do final da escadaria, consegui focar meus olhos e finalmente encontrei aquele par de írises âmbar absolutamente maravilhosas. Ele estava ali, irredutível: um rosto de traços perfeitos e simétricos, cabelo escuro e barba rigorosamente alinhados com precisão cirúrgica, a pele levemente bronzeada pelo sol da Sicília... Santo Deus dos céus, ele parecia ter saído de um pedestal de mármore, um verdadeiro e arrogante Deus grego em carne e osso. Naquele segundo exato, enquanto meu cérebro processava a visão, um pensamento impulsivo e escandaloso cruzou a minha mente, fazendo-me quase tropeçar no salto: Santo Deus das calcinhas molhadas, me ajude a sobreviver a este homem... — Boa noite, Louise. A voz dele era grave, áspera e profunda, arrastando-se de forma lenta pelo ar até ecoar diretamente dentro do meu ouvido, jogando-me instantaneamente em um transe hipnótico que me deixou completamente sem fôlego. Fiquei paralisada, piscando devagar, e acabei demorando preciosos segundos demais para formular uma resposta coerente. Só retornei à realidade brutal quando senti os dedos calejados do papai apertarem com força e advertência o dorso da minha mão. — Boa noite, senhores... — respondi, engolindo em seco, completamente vermelha e profundamente envergonhada por ter ficado com aquela cara de tacho patética, claramente babando no homem deslumbrante plantado logo à minha frente. Para piorar a situação catastrófica, o cretino absoluto percebeu perfeitamente o meu deslize e os efeitos que causou em mim; ele abriu lentamente os cantos dos lábios em um sorriso de lado debochado, convencido de seu próprio poder de sedução. Que homem prepotente e insuportável. — E agora, sem mais delongas, vamos dar início oficial à cerimônia de noivado — anunciou o pai dele, o poderoso patriarca dos Santoro, com sua voz trovejante ecoando em alto e bom som por todo o salão ornamentado.
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