FUGA NO SILÊNCIO (Mel)
Meu nome é Melina, mas ninguém me chama assim há anos. Desde que a vida me virou do avesso, virei Mel.
Curto, direto. Como tudo que precisei ser pra sobreviver.
A cidade dorme, mas meus olhos não. São três da manhã e eu estou dirigindo por uma avenida que não reconheço mais.
No banco de trás, Noah e Bela dormem, suas respirações suaves quase me fazem esquecer do inferno que deixei pra trás. Quase.
Meus dedos tremem no volante. Não é frio. É medo! O tipo de medo que gruda na pele, nos ossos, que nos consome em silêncio.
Harvey... ele me ameaçou. Ele olhou nos meus olhos e disse que arrancaria meus filhos de mim. “Eu não tenho filhos defeituosos”, ele cuspiu com desprezo. E o pior... eu acreditei que ele faria isso.
Mas como cheguei aqui? Como uma menina criada com livros, chá das cinco e educação suíça acabou fugindo pro morro, procurando abrigo com um homem conhecido como Ares — dono de facção?
A resposta está cinco anos atrás. Naquela festa. Eu tinha 20 anos, recém-formada como técnica em artesanatos, cheia de sonhos e ingenuidade disfarçada de autoconfiança.
Foi quando o vi pela primeira vez. Harvey Demons. O CEO mais jovem do país. Terno sob medida, sorriso calculado. Atraente? sim. Mas havia algo nos olhos... algo que naquela noite eu ignorei.
Não demorou para ele se aproximar. Conversa rápida, vinho caro, e uma proposta indecente
dita com a mesma naturalidade com que se fala do tempo. “Vamos sair daqui.” Eu fui. Sabia o que ele queria, e ainda assim, fugi no dia seguinte. Talvez por medo de olhar em seus olhos e ouvi-lo dizer que já era para eu ter ido embora, e me sentir descartada.
Uma semana depois, minha mãe adoeceu. Câncer terminal. Larguei o emprego, os planos. Virei enfermeira, cozinheira, companheira de quarto. Quinze dias depois, ela morreu nos meus braços. Não tive tempo pra luto. A vida seguiu — c***l, veloz. Dois meses depois, desmaiei no banho, ao acordar no hospital a notícia: _ Você está grávida. Grávida, estava grávida de três meses.
Na primeira ultra, outra surpresa, gêmeos. Senti o mundo parar, medo, mas também amor.
Não contei a ninguém. Criei Noah e Bela com o pouco que tinha, vendendo artesanato, aceitando doações de fraldas, comendo menos pra que eles tivessem mais.
Quando os pequenos completaram dois anos, vieram os silêncios. Os olhares fixos. A falta de palavras. O diagnóstico: Transtorno do Espectro Autista – grau 1. Pesquisei tudo. Aprendi a linguagem deles. Lutei por terapias, consultas, mas cada vez que ouvia do SUS que não tinha vaga, o meu desespero aumentava. Foi aí que tomei a pior decisão da minha vida: procurei Harvey. O DNA não mentiu. Mas ele mentiu com cada célula do corpo. Disse que minha palavra não valia nada. Que não pagaria por “dois erros genéticos”. E então, ameaçou, uma ameaça que fez meu sangue gelar mais que o gelo da Antártida.
Naquela noite, empacotei o mundo em uma mala. Peguei meus filhos e fugi. Me disseram que no morro da Rocinha havia um homem, um líder, que não gostava de covardes. Que protegia mulheres e crianças como lei. Seu nome? Ares.
Estou indo ao encontro dele. Talvez eu morra tentando. Talvez encontre abrigo. Mas uma coisa é certa: preciso protegê-los, mas não vou continuar fugindo. Nem por mim, nem por eles até porque precisam de rotina e estabilidade.
Hoje, eu volto a ser Melina. A mãe. A guerreira. E se Ares não me aceitar... eu luto. Sozinha,
se for preciso, mas meus filhos terão o melhor de mim.