PRÓLOGO
NOTA DA AUTORA | AVISO IMPORTANTE
Queridas leitoras,
Antes de começarmos, quero explicar uma coisinha: este é apenas o prólogo.
O prólogo é uma breve introdução da história. Ele apresenta os primeiros acontecimentos e dá o ponto de partida para tudo o que será vivido pelos personagens. É no Capítulo 1 que a história começa a se desenvolver de forma completa.
Como a obra ainda está em desenvolvimento, alguns acontecimentos, cenas, personagens e até nomes poderão sofrer alterações ao longo da escrita. Isso faz parte do processo criativo.
Este livro aborda o pênfigo foliáceo, uma doença real, com respeito, responsabilidade e muita pesquisa. Embora a história seja inspirada em experiências reais, as informações apresentadas não substituem a orientação de um profissional da saúde. Se você apresentar sintomas ou tiver dúvidas sobre a doença, procure um dermatologista.
Se gostar da história, adicione o livro à sua biblioteca. Esse pequeno gesto ajuda a impulsionar a obra dentro da plataforma e faz com que ela alcance mais leitores. Se puder, deixe também seu comentário. Seu apoio é muito importante para mim.
Obrigada por embarcar nesta jornada comigo.
O que vem pela frente pode doer, emocionar e transformar. Mas uma coisa eu prometo:
A luz vai acender.
Com carinho,
Val Veiga
QUANDO A LUZ ACENDER
*1. A REGRA*
A primeira regra era minha.
*Escuro total.*
A segunda também.
*Sem perguntas.*
Miguel quebrou a segunda hoje.
O quarto estava em silêncio. Só o som da cidade lá embaixo, 42 andares abaixo de nós.
O dedo dele pairou sobre o abajur. A luz amarela ficou esperando o comando.
— Por que você sempre faz isso? — A voz dele cortou o escuro. Baixa. Grave. Impaciente. — Por que sempre apaga a luz, Clara?
Eu não respondi de imediato.
Me levantei da cama. Caminhei até a janela. As costas para ele.
E apaguei eu mesma.
O clique foi seco.
A escuridão nos engoliu.
Só então eu consegui respirar.
— Porque eu prefiro assim — menti. A voz saiu estável. Treinada. — É mais... íntimo.
Ele não disse nada por alguns segundos.
Senti o peso do olhar dele nas minhas costas mesmo sem poder vê-lo.
Miguel Satamini estava acostumado a ter todas as respostas. E eu era a única pergunta que ele não conseguia resolver.
— Tudo bem — ele disse por fim. — Como você quiser.
E veio até mim.
As mãos dele me encontraram na escuridão. Firmes. Quentes.
Mãos que assinavam demissões e fusões bilionárias. Mãos que decidiam o futuro de centenas de pessoas com uma caneta.
Aqui, elas hesitavam. Como se eu fosse quebrar.
Eu não ia quebrar.
Eu já tinha quebrado antes. Sozinha. E me remendei sozinha.
Ele me puxou para si. Me beijou no pescoço. Devagar.
E por 20 minutos eu esqueci.
Esqueci do relatório que tinha que entregar amanhã.
Esqueci do conselho que ia pressioná-lo na sexta.
Esqueci do meu próprio corpo.
No escuro, eu não era a secretária.
No escuro, eu não era a paciente.
No escuro, eu era só mulher. E ele me queria.
Miguel achava que controlava tudo.
Naquela cama, quem controlava era eu.
Para a esquerda não. Para a direita sim. Aqui pode. Aqui dói.
E o homem que nunca aceitava um "não" na empresa, aceitava de mim.
Porque no escuro ele não via.
*2. O NOME*
Meu nome é Clara Andrade.
Tenho 28 anos.
Sou Secretária Executiva da Satamini Corp há 3 anos.
Zero atrasos. Zero erros. Zero vida pessoal.
E eu tenho um segredo.
Um segredo que pesa mais que a pasta de couro que carrego todo dia.
Um segredo que arde mais que o café que tomo às 7 da manhã.
Um segredo que pode me custar tudo.
*Pênfigo foliáceo.*
Fogo selvagem.
É assim que os médicos chamam. Um nome bonito para uma doença c***l.
É uma doença autoimune. Isso significa que o meu próprio corpo se tornou meu inimigo.
Meu sistema imunológico, que deveria me proteger, decidiu que a desmogleína-1 é uma ameaça.
Desmogleína-1 é a proteína responsável por manter as células da pele unidas. É a cola.
Sem a cola, a pele se solta.
E quando a pele se solta, formam-se bolhas. Bolhas superficiais, frágeis, que estouram com o menor atrito.
O que fica depois é pele exposta. Vermelha. Sensível. Ardendo.
Viver com isso é aprender uma nova matemática.
Banho morno, nunca quente.
Roupa de algodão, nunca sintético.
Sol, nunca.
Atrito, nunca.
Cansaço, sempre.
Febre baixa, às vezes.
Dor, todos os dias.
De fora, ninguém percebe.
É isso que torna tudo mais difícil.
No escritório eu sou impecável.
Cabelo preso. Maquiagem perfeita. Salto que não chacoalha.
Sorriso que não entrega.
Por dentro, é uma guerra.
E a pior parte não é a dor.
A pior parte é o silêncio.
— Você está bem, Clara? Está pálida.
— É só cansaço, obrigada.
— Essa mancha no seu pescoço... é alergia?
— É. Já está passando.
— Você não vai tirar o casaco? Está calor.
— Prefiro assim.
Mentira. Mentira. Mentira.
Eu minto para sobreviver.
Porque se a Satamini Corp descobrir que a secretária do CEO tem uma doença crônica, uma doença visível...
Eu serei um problema.
Um risco.
Um passivo.
E Miguel...
Miguel não pode saber.
Se ele souber, vai me olhar com pena.
Ou pior: vai me olhar com nojo.
E eu não suportaria ver isso no rosto dele.
Por isso o escuro.
Por isso as portas trancadas.
Por isso o medo constante de ser descoberta.
Naquela noite, depois, eu fiquei deitada no peito dele.
Ouvindo o coração dele desacelerar.
O homem que comandava um império estava vulnerável. Adormecido.
E eu estava acordada. Contando as horas. Contendo a ardência no ombro.
Um dia a luz vai acender.
E nesse dia eu vou ter que escolher.
Contar a verdade e arriscar tudo.
Ou fugir e me proteger.
*3. 05:20. O RITUAL*
Eu saí antes do amanhecer. Sempre saio.
Ele dormia. O lençol enrolado na cintura. O rosto relaxado, sem a máscara de CEO.
Por um momento pareceu jovem. Pareceu meu.
Me vesti em silêncio. Cada botão era uma decisão.
Não puxar demais. Não esticar demais.
Bolsa: soro, pomada, gaze, remédios. Meu kit de sobrevivência.
No espelho do corredor, me encarei.
Metade batom borrado. Metade determinação.
Uma bolha havia estourado no ombro esquerdo durante a noite.
Pequena. Eu sabia tratar.
Rua fria. Táxi. Casa.
Banheiro. Luz acesa. Finalmente sozinha.
O ritual.
Tirar a roupa com cuidado.
Limpar com soro, dando batidinhas.
Secar.
Pomada fina.
Gaze.
Roupa limpa de algodão.
Banho morno.
Respirei fundo e pedi: por favor, hoje não.
Algumas áreas arderam. A maioria não.
Vitória pequena.
Deitei e fiz uma promessa para o teto:
No dia em que eu acender a luz, não vou pedir desculpas.
Vou existir inteira.
E vamos ver se o rei do vidro sabe amar sem sombras.
Dormi quando a cidade acordou.
*4. 08:00. A GUERRA DE VERDADE*
O despertador tocou às sete.
Armadura: banho, pomada, base, camisa branca, saia lápis, salto médio.
No espelho: controle.
No 42º andar: sobrevivência.
Satamini Corp.
Vidro. Aço. Silêncio caro.
Elevador lotado. Eu no canto. Respirando.
Bom dia, Clara.
Bom dia.
Portas abrem. E ele está lá.
Miguel Satamini.
Terno azul marinho. Gravata perfeita. Costas retas.
A cidade inteira aos pés dele através da janela.
Ele não olhou para mim quando entrei.
— Clara. O relatório de fusões.
— Já está na sua mesa, senhor. Versão impressa e digital.
— A reunião com os investidores j*******s. Sexta, 9 horas. Sem atrasos.
— Sim, senhor.
"Senhor."
A palavra colocou uma distância de 42 andares entre nós.
À noite, ele sussurrava meu nome.
De dia, eu era apenas "Clara".
A equipe entrou. Dez pessoas. Todos tensos.
Eu fiquei em pé, ao lado da mesa dele, bloco de notas na mão.
E foi aí.
Uma coceira.
Pequena. No pulso direito.
Por reflexo, ajustei a manga da camisa.
O tecido de seda roçou na pele.
E ardeu.
Meu estômago caiu.
Eu sabia exatamente o que era.
Uma bolha. Minúscula. Do lado interno do pulso.
E ela havia estourado.
Senti a umidade quente. Senti o pânico subir pela garganta.
Não. Não agora. Não aqui. Não na frente dele.
Mantenha a postura.
Sorria.
Anote.
— Algum problema, Clara? — A voz dele parou a sala.
O silêncio ficou denso.
Ergui os olhos. Encontrei os dele. Cinzentos. Cortantes.
— Nenhum, senhor. Apenas ajustando a manga.
Ele não respondeu de imediato.
Seu olhar desceu. Lento. Deliberado.
Parou no meu pulso.
Na pequena mancha vermelha que manchava o branco da minha camisa.
O tempo parou.
Eu vi o momento exato em que ele percebeu que algo estava errado.
Vi a sobrancelha dele se franzir. Um milímetro.
Vi o maxilar dele travar.
Miguel Satamini não gostava de problemas.
E eu, naquele momento, tinha me tornado um problema.
Ele se levantou. Devagar.
A sala inteira prendeu a respiração.
Caminhou até mim. Parou a um passo de distância.
Perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro do perfume dele.
O mesmo de ontem à noite.
Ele não me tocou.
Apenas olhou. Para o meu pulso. Para o meu rosto. Para o meu pulso de novo.
— Minha sala — disse ele. A voz baixa. Sem inflexão. — Agora.
E virou as costas.
Caminhou em direção à porta de vidro do escritório dele.
A equipe inteira me olhou.
Eu senti o peso de dez pares de olhos nas minhas costas.
Minhas pernas tremiam.
Mas eu segui.
Porque não tinha escolha.
Porque ele tinha visto.
E agora eu teria que explicar.
*5. A SALA*
A porta de vidro se fechou atrás de mim com um clique.
Silêncio.
Miguel foi até a janela. Costas para mim.
As mãos no bolso. Postura rígida.
Eu fiquei parada no meio da sala. Como uma ré em julgamento.
— Feche a porta — ele disse, sem se virar.
Eu fechei.
— Sente-se.
Eu sentei.
Ainda não tinha me olhado.
— Tire o casaco — ordenou.
Meu sangue gelou.
— Senhor?
— Tire o casaco, Clara. Agora.
As mãos tremiam quando desfiz os botões.
O casaco escorregou pelos meus ombros e caiu na cadeira.
Fiquei apenas com a camisa branca.
Ele finalmente se virou.
Seus olhos me percorreram. Lentos. Analíticos.
Pararam no meu pulso.
Na mancha.
Ele caminhou até mim. Parou na minha frente.
Estendeu a mão.
E tocou. Leve. No tecido, exatamente sobre a mancha.
Eu prendi a respiração.
— O que é isso? — perguntou. A voz mais baixa agora. Mais perigosa.
Eu poderia mentir.
Deveria mentir.
Alérgia. Corte. Acidente.
Mas olhei nos olhos dele.
E pela primeira vez em meses, não consegui mentir.
— É... uma condição médica — sussurrei.
Ele não piscou.
— Que tipo de condição?
Fechei os olhos por um segundo.
E quando abri, a verdade saiu.
— Pênfigo foliáceo. É uma doença autoimune. Afeta a pele.
O silêncio voltou.
Mais pesado que antes.
Ele tirou a mão do meu pulso.
Deu dois passos para trás.
— Há quanto tempo? — perguntou.
— Dois anos.
— E por que eu só estou sabendo disso agora?
Porque eu tenho medo.
Porque eu preciso desse emprego.
Porque eu não queria que você me visse assim.
Mas o que eu disse foi:
— Porque não interfere no meu trabalho, senhor.
Ele riu. Sem humor.
— Não interfere? Clara, você está sangrando na minha camisa.
— Eu posso explicar...
— Explique. — Ele cruzou os braços. — Estou ouvindo.
E então eu contei.
Contei sobre as bolhas.
Sobre a ardência.
Sobre os dias ruins e os dias piores.
Sobre o tratamento.
Sobre o medo.
Contei tudo. Sem omitir. Sem embelezar.
Quando terminei, a sala estava em silêncio de novo.
Miguel me olhava.
Mas eu não conseguia ler o que havia no rosto dele.
Raiva? Nojo? Pena?
Eu não sabia. E isso era pior que tudo.
— Você pode ir — disse ele por fim. — Volte ao trabalho.
Levantei. Peguei o casaco.
Na porta, parei.
— Senhor... eu posso continuar? No trabalho? Eu prometo que...
— Eu disse para você voltar ao trabalho, Clara — ele interrompeu. — Agora.
Saí.
As pernas não me seguravam.
No banheiro, tranquei a porta e chorei. Silenciosamente.
Como sempre.
*6. O QUE VOCÊ PRECISA SABER*
Este livro não é apenas sobre um CEO e sua secretária.
É sobre milhares de mulheres como eu.
É sobre *pênfigo foliáceo*.
*O que é:*
Doença autoimune rara. O corpo ataca a proteína que mantém a pele unida.
Resultado: bolhas, feridas, dor.
*Como é viver:*
É dor diária.
É cansaço.
É medo do julgamento.
É aprender a cuidar de si sozinha.
É trabalhar mesmo quando o corpo pede para parar.
*O que não é:*
Não é contagioso.
Não é falta de higiene.
Não é motivo para vergonha.
*Tratamento existe:*
Medicamentos. Acompanhamento médico. Cuidado diário.
É caro. É difícil. Mas existe.
*Por que esta história importa:*
Porque existem Claras em todos os lugares.
Mulheres que sorriem apesar da dor.
Que trabalham apesar do cansaço.
Que amam apesar do medo.
A doença pode tentar roubar a pele.
Não vamos deixar que roube a voz.
Este livro é sobre resistência.
É sobre dignidade.
É sobre escolher existir sem pedir desculpas.
*7. O FINAL DO PRÓLOGO*
Naquela noite, Miguel não me chamou.
Fiquei esperando. O telefone em silêncio.
O apartamento vazio.
Pela primeira vez, o escuro não me trouxe conforto.
Trouxe medo.
Medo de tê-lo perdido.
Medo de ter perdido a mim mesma.
No dia seguinte, cheguei ao trabalho mais cedo.
O relatório estava na mesa dele às 7:55.
Às 8:00 em ponto, ele entrou.
Passou por mim sem parar.
Sem olhar.
— Clara. Café. Preto. Sem açúcar. — disse apenas.
E seguiu para a sala.
Meu coração apertou.
Ele não tinha me demitido.
Mas também não tinha me olhado.
E eu não sabia o que era pior.
Porque a luz tinha acendido.
E agora nós dois teríamos que lidar com o que ela revelou.