Prólogo- Comandante
O silêncio no topo do morro é um privilégio que só pertence a mim. Daqui, do terraço da minha fortaleza, o Complexo do Alemão se estende como um organismo vivo, pulsante e perigoso. Eu observo o brilho das luzes lá embaixo, o emaranhado de ruelas que conheço como a palma da minha mão tatuada, e sinto o peso da coroa de espinhos que escolhi carregar. Eu sou o Comandante. O Terror do Alemão. O homem que não sente, não perdoa e não hesita. O Comando Vermelho não é apenas uma facção sob o meu comando; é a minha extensão.
O ar da madrugada está pesado, carregado com o cheiro de fumaça, pólvora e a maresia que vem de longe, daquela parte da cidade que finge que nós não existimos. Eu dou um trago longo no meu charuto, a brasa iluminando por um segundo as cicatrizes e as tintas que fecham meu braço. Cada tatuagem aqui tem um preço. Cada uma delas representa um inimigo que mandei para o inferno ou uma guerra que venci para garantir que o meu nome fosse sussurrado com pavor.
— Chefe. — A voz de Marreco surge atrás de mim.
Eu não me viro. Não preciso. Conheço o passo do meu sub, o ritmo da respiração de quem mata por mim sem questionar. Marreco é o meu braço armado, o homem que executa o que meu olhar ordena.
— Fala, Marreco — respondo, minha voz saindo como um rosnado baixo, rouco pela fumaça e pelo tempo de comando.
— O bonde tá pronto. As SUVs já estão na contenção da entrada da Grota. O rato do Leblon acha que o asfalto da Zona Sul é escudo contra o Comando. Ele não pagou a remessa, chefe. Três milhões. E ainda teve a audácia de desligar o radinho.
Sinto um canto da minha boca subir em um sorriso gélido. Dinheiro é papel, mas respeito é o que mantém um homem como eu vivo. Se eu permitir que um playboy metido a empresário roube o que é meu, amanhã o morro inteiro acha que pode fazer o mesmo. No meu mundo, a dívida de um homem é escrita com sangue.
— Ele acha que o Leblon é longe demais para o meu alcance — digo, apagando o charuto no parapeito de concreto. — Ele esqueceu que o Alemão é o coração dessa cidade, e eu controlo o batimento.
Eu me viro e passo por Marreco, que já está com o fuzil travado no peito. O peso da minha pistola de ouro na cintura é um lembrete constante de que a paz é apenas o intervalo entre dois combates. Eu não sinto amor, não sinto compaixão. O que corre nas minhas veias é adrenalina e gelo.
— Vamos descer — ordeno, meus olhos fixos no horizonte onde o sol ameaça nascer. — Vou cobrar cada centavo. E se ele não tiver o dinheiro, vou levar algo que custe muito mais caro para ele.
[…]
A descida é rápida. O comboio de carros blindados corta a cidade como uma lâmina n***a. Ver o asfalto liso do Leblon sob os pneus da minha SUV me irrita. É tudo limpo demais, falso demais. As pessoas aqui caminham como se o mundo não estivesse pegando fogo a poucos quilômetros de distância. Elas não conhecem a fome, não conhecem o som de um fuzil cantando na madrugada. Elas vivem em uma bolha que eu estou prestes a estourar.
Paramos em frente a um edifício de vidro que brilha como se fosse feito de diamantes. O porteiro, um homem que provavelmente ganha em um mês o que meus soldados ganham em uma hora, treme tanto que m*l consegue segurar o interfone quando vê o Marreco descer com o cano do fuzil para fora da janela.
— Abre — o comando é simples.
Subimos no elevador silencioso. O espelho me devolve a imagem de um homem que a sociedade rotula como monstro. Tatuagens subindo pelo pescoço, o rosto rígido, os olhos de quem já viu o abismo e não piscou. Eu sou o pesadelo que o Leblon tenta ignorar.
Quando a porta do apartamento se abre, o luxo é ofensivo. Quadros caros, lustres de cristal, o cheiro de perfume francês impregnado no ar. Mas o devedor não está lá. O covarde fugiu, deixando apenas as cinzas de uma vida de aparências.
— Chefe, o desgraçado deu no pé — Marreco rosna, chutando uma mesa de centro de vidro que se estilhaça em mil pedaços. — Levou as malas, o cofre tá vazio.
Eu caminho pelo apartamento, meus passos pesados ecoando no mármore. Eu sinto a fúria crescer, mas ela é controlada. Eu não explodo; eu calculo. E é quando chego à sala de estar, de frente para a varanda com vista para o mar, que eu a vejo.
Ela está parada lá, como se fosse uma estátua esculpida em marfim.
O sol da manhã começa a entrar pelas janelas e bate direto nela. O cabelo é um incêndio de fios ruivos que descem pelas costas. A pele é tão branca que as sardas no seu rosto parecem constelações desenhadas à mão. Ela veste uma camisola de seda que não esconde as curvas de um corpo que parece ter sido feito para o pecado. Os olhos... azuis como o oceano lá fora, mas carregados de um terror que ela tenta, desesperadamente, esconder.
— Onde ele está? — Pergunto, minha voz ecoando na sala vazia.
Ela não responde de imediato. Ela me olha de cima a baixo, seus olhos parando nas tatuagens do meu pescoço, na minha mão que descansa perto da arma. Ela sabe quem eu sou. O mundo inteiro sabe quem é o Terror do Alemão.
— Ele foi embora — ela diz, a voz trêmula, mas carregada de uma dignidade que me surpreende. — Levou tudo. Me deixou aqui para lidar com a sujeira dele.
Eu dou um passo em sua direção. Ela não recua. Ela treme, o peito subindo e descendo rapidamente sob a seda, mas ela mantém o olhar fixo no meu. Aquilo me atinge como um soco. Ninguém me encara. Homens feitos choram aos meus pés, mas essa garota de porcelana está me desafiando com o olhar.
— Seu pai me deve três milhões, ruiva — digo, parando a centímetros dela. O cheiro dela invade meus pulmões. Flores. Doçura. Inocência. Tudo o que eu destruí na minha vida. — Ele achou que podia sumir e deixar a conta aberta. Como é o seu nome?
—Antonela! Eu não tenho o dinheiro — ela sussurra, uma lágrima solitária escorrendo por entre as sardas e parando no canto da boca carnuda.
Eu estendo a mão e seguro o queixo dela com força. A pele dela é tão macia que sinto que posso quebrá-la se apertar um pouco mais. O contraste entre a minha mão calejada, marcada pela violência, e o rosto dela é uma imagem que eu não vou esquecer.
— Eu sei que não tem — respondo, meus olhos mergulhando no azul dos dela. — Mas eu não aceito prejuízo. Se ele não deixou o dinheiro, deixou algo que vale o juro.
— O que você quer? — Ela pergunta, a respiração batendo no meu rosto.
Eu solto o queixo dela e dou um sorriso que não alcança meus olhos. Um sorriso de quem acaba de encontrar uma nova forma de entretenimento.
— Marreco! — Grito, sem desviar os olhos dela.
— Fala, chefe!
— Esquece o velho. Ele vai aparecer mais cedo ou mais tarde quando souber o que eu levei. Pega as coisas dela. A ruiva vai subir o morro com a gente.
O grito de protesto dela morre no ar quando eu a seguro pelo braço. O toque é firme, possessivo. Ela é pequena perto de mim, uma boneca de luxo perdida no covil de um lobo.
— Você não pode fazer isso! — Ela grita, tentando se soltar.
— Eu sou o Comandante, garota. Eu posso fazer qualquer coisa. Seu pai te deu para mim no momento em que fugiu. Agora, você é a minha dívida. E eu vou cobrar cada centavo em tempo, obediência e... — eu me inclino, sussurrando no ouvido dela, sentindo-a arrepiar inteira — ... no que mais eu decidir que você me deve.
Eu a arrasto para fora daquele paraíso de vidro. Ela chora, ela luta, mas para mim, ela é apenas a garantia de um negócio que não terminou. Enquanto descemos para a SUV, eu sinto o olhar de Marreco em nós, sinto a tensão dos meus homens. Eles sabem que eu nunca levo mulheres para o morro. Mas essa é diferente. Ela é o troféu de uma guerra que o pai dela perdeu.
Ao entrar no carro, eu a jogo no banco de trás e me sento ao seu lado. O motor ronca, iniciando o caminho de volta para o meu reino. Eu olho para ela, encolhida no canto, as sardas brilhando com as lágrimas, e sinto algo estranho. Não é amor. É fome. É a vontade de ver até onde aquela pureza aguenta antes de ser manchada pelo Alemão.
O sol agora brilha forte sobre o Rio. Para a maioria, é o começo de um novo dia. Para Antonella, é o fim do mundo que ela conhecia. E para mim? É apenas mais uma cobrança.
— Bem-vinda ao Comando, ruiva — murmuro, enquanto o carro acelera em direção ao morro. — Espero que você goste de altura. Porque para onde eu vou te levar, não tem volta.