capitulo 19

1178 Words
Eduarda narrando Depois que eu aceitei… Tudo pareceu acontecer rápido demais. Como se a minha vida tivesse mudado em questão de minutos e eu ainda não tivesse conseguido acompanhar. Ao mesmo tempo, tinha uma calma estranha ali. Como se, no meio de tudo, eu tivesse tomado a decisão certa. A gente continuou conversando. Sobre coisas importantes. Sobre a rotina do Benjamim. Sobre horários. Alimentação. Regras. Ele foi direto, como sempre. Sem rodeios. Sem enrolação. — Você vai aprender tudo sobre ele — disse em determinado momento. — O que pode, o que não pode, o que ele gosta, o que irrita… Assenti, prestando atenção em cada palavra. — Eu vou te passar tudo detalhado. — Tá bom… Eu realmente queria fazer aquilo dar certo, mais do que qualquer outra coisa. Porque agora… não era só sobre mim. Era sobre ele também. Sobre o Benjamim e de alguma forma… Aquilo importava muito. Depois de mais alguns minutos, terminamos o almoço. Eu ainda me sentia meio deslocada ali dentro, mesmo com tudo que tinha acontecido, mas ao mesmo tempo… Já não era o mesmo desconforto de antes. Saímos do restaurante juntos. O Benjamim segurava minha mão de um lado e a do Rafael do outro e aquilo… Aquilo parecia tão natural que, por um segundo, me deu um aperto no peito. Como se eu estivesse entrando em um lugar que não era meu, mas ainda assim… Sendo aceita ali. Chegamos até o carro. Senhor Roberto já estava esperando. Entramos. Eu no banco de trás, com o Benjamim ao meu lado. — Vamos deixar você em casa — Rafael disse, olhando pelo retrovisor. Assenti. — Tá bom… O caminho foi tranquilo. O Benjamim não parava de falar. Contando coisas. Perguntando, rindo e de vez em quando… Encostava em mim, como se precisasse ter certeza de que eu, ainda estava ali e eu estava. Quando o carro parou em frente ao meu prédio, meu coração deu uma apertada leve. Porque eu sabia… Que aquilo ali estava prestes a deixar de ser meu. Abri a porta, mas antes de sair, Rafael falou: — Mais tarde, o pessoal vai buscar suas coisas. Olhei pra ele, um pouco surpresa. — Você não precisa levar tudo — continuou. — Só suas roupas e o que for pessoal. O resto não vai fazer falta. Assenti devagar. — Tá bom… Saí do carro e me virei para me despedir. — Tchau… — falei. O Benjamim já estava com a carinha triste. — Você vai lá hoje? Meu coração apertou. Me abaixei um pouco, ficando na altura dele. — Vou sim… depois eu vou, tá bom? Ele assentiu, ainda meio emburradinho. — Tá… Passei a mão no cabelo dele. — Se comporta. Ele fez que sim com a cabeça. Fechei a porta e antes do carro sair… Rafael me olhou e piscou. Simples. Rápido, mas o suficiente pra me deixar completamente sem graça. Desviei o olhar na mesma hora e o carro foi embora. Fiquei parada por alguns segundos. Só olhando. Até ele sumir. Respirei fundo e entrei no prédio. Assim que passei pelo saguão… Ele apareceu. O síndico. Vindo na minha direção. Como se estivesse esperando. — E aí? — perguntou, já com aquele tom desagradável. — Arrumou o dinheiro? Respirei fundo. — Sim. Ele arqueou a sobrancelha. — Vou pagar o aluguel — continuei. — E vou desocupar o apartamento. O sorriso dele morreu na hora. Literalmente. — Ninguém ia aceitar esse atraso como eu aceitei — começou, irritado. — Você já devia ter saído faz tempo. Só dá problema… Nem esperei terminar. Segui andando. Direto pro elevador. Deixei ele falando sozinho. Porque, sinceramente… Eu não tinha mais energia pra aquilo. Entrei no elevador e apertei o botão. Enquanto as portas se fechavam, soltei o ar que estava preso no meu peito. Cansada, mas aliviada. Peguei o celular. Abri o aplicativo do banco e fiz o pagamento do aluguel. Doeu. Mas era necessário. Enviei o comprovante pra ele e sem pensar duas vezes… Bloqueei. Chega! Já era! Quando a porta do elevador abriu, caminhei até o meu apartamento. Abri a porta e entrei. Silêncio. Aquele silêncio que eu conhecia tão bem, mas que, naquele momento… Parecia diferente, mais pesado, mais carregado. Meu celular apitou. Olhei. Rebeca. Abri na mesma hora. “Amiga, você pode vir aqui? Preciso falar com você.” Nem deu dois minutos. “Já tô indo!” Sorri de leve. Guardei o celular e olhei ao redor. Cada canto. Cada detalhe. Aquele apartamento… Era mais do que um lugar. Era memória. Foi onde eu cresci. Onde vivi com meus pais. Onde fui feliz. De verdade. Passei a mão pelo sofá, devagar. Engolindo o nó na garganta. — Obrigada… — murmurei baixo, como se eles pudessem ouvir. Respirei fundo e comecei. Fui pro quarto. Peguei algumas coisas. Roupas, objetos pessoais, mas principalmente… Coisas da minha mãe. Uma foto, um colar e algumas lembranças. Coisas que não tinham preço e que eu não deixaria pra trás. Foi então que ouvi a batida na porta. — Já vai! — falei. Fui até lá e abri. Rebeca entrou rápido, como sempre. — Amiga, o que foi? Fechei a porta atrás dela e respirei fundo. — Eu vou me mudar. Ela piscou. — O quê? — Vou morar na casa do Rafael. Silêncio. Por dois segundos e então… — EU SABIA! Ela praticamente gritou, abrindo um sorriso enorme. Não consegui segurar o riso. — Amiga… — Eu sabia que ia dar bom! — Ela disse, me puxando pelo braço. — Me conta tudo! Eu contei tudo. Desde o almoço. A proposta. O salário. As condições. Cada detalhe. Ela ouviu com atenção e no final… Me abraçou forte. — Você merece Eduarda! Meu coração apertou. — Sério… — Você merece ser feliz. Fechei os olhos por um segundo, absorvendo aquilo. — Obrigada… Ela se afastou, mas ainda sorrindo. — E eu não vou mais precisar me preocupar com você passando dificuldade. Ri fraco. — Não mesmo… Foi então que o sorriso dela diminuiu um pouco. — Amiga… — O que foi? Ela mordeu o lábio, meio hesitante. — O Tyler tá estranho. Franzi a testa. — Estranho como? — Sei lá… diferente. Distante. Eu sinto que tem alguma coisa errada, mas ele não me fala. Fiquei em silêncio por um segundo. Pensando. — Você acha que aconteceu alguma coisa? Ela deu de ombros. — Acho… — Já conversou com ele? — Tentei… mas ele desconversa. Respirei fundo. — Então chama ele pra conversar de verdade. Ela me olhou. — Como a gente vai se ver agora? Sorri de leve. — A gente dá um jeito. Ela arqueou a sobrancelha. — Como? — Eu vou ver pra você ir lá em casa. Ela abriu um pequeno sorriso. — Sério? — Sério! Pausei. — Eu vou voltar pra faculdade. Os olhos dela brilharam. — Amiga… — A gente vai se ver todo dia. E, naquele momento… Mesmo com tudo mudando… Mesmo com tudo ficando pra trás… Eu senti. Que, pela primeira vez em muito tempo… As coisas estavam começando a dar certo.
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